Edição 310 | 05 Outubro 2009

Relações de emprego são relações de poder

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Patricia Fachin

Moisés Waismann aponta as mudanças ocorridas no mundo do trabalho após crise financeira internacional

As consequências da crise financeira internacional foram sentidas em vários setores da economia mundial e, em especial, no mundo do trabalho. Além de acentuar a precarização, a turbulência também mudou o perfil dos trabalhadores contratados, informou Moisés Waismann, pesquisador do Departamento de Economia e membro do Observatório do Trabalho da Universidade de Caxias do Sul – UCS, em entrevista concedida, por e-mail, à IHU On-Line. Waismann participou de um estudo que analisou os impactos da crise internacional no setor da indústria de transformação em Caxias do Sul, tema de sua palestra no IHU Ideias do dia 8-10-2009. Entre as mudanças observadas, ele acentua que, ao contrário de outras crises, “esta afetou aqueles que ganham mais, os que têm um salário maior (...), principalmente homens e pessoas com mais escolarização”.

O professor reiterou ainda que surgiram novas relações de trabalho caracterizadas pelos trabalhadores terceirizados, autônomos e pequenos empresários. Na opinião dele, estas novas relações “podem mascarar a precarização do trabalho”. Na entrevista que segue, Waismann também acentuou que “o mundo do trabalho está sempre num tencionamento quanto à degradação das relações trabalhistas”. O IHU Ideias desta quinta-feira abordará o tema a partir das 17h30min, na sala 1G119, junto ao Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

Moisés Waismann concluiu o mestrado em Agronegócios pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS e atualmente é docente da Universidade de Caxias do Sul – UCS. Ele atua na área de Economia com ênfase em Economia dos Recursos Naturais.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Que alterações a crise financeira gerou no mundo do trabalho, especialmente no setor da indústria de transformação em Caxias do Sul?

Moisés Waismann - A crise de setembro de 2008 afetou todo o mundo. A Organização Internacional do trabalho - OIT estima que 50 milhões de pessoas perderam o emprego por conta da crise, e que aumentará em 220 milhões o número de pobres, aqueles que vivem com menos que US$ 2,00/dia, em todo o mundo. Então o que está acontecendo é um problema muito sério e que diz respeito a todos.

Na indústria da transformação, em Caxias do Sul, ocorreram dois movimentos (desligamento e admissão) que combinados concorrem para a criação/fechamento de novos postos de trabalho.

Ocorreu um aumento no número de trabalhadores desligados. Em março de 2009, o número de trabalhadores desligados foi de 4.098, o que representa um acréscimo de 1.040 (34%) em relação a setembro de 2008. Sobre a admissão de trabalhadores, houve uma queda; em março de 2009, o número de trabalhadores admitidos foi 1.972, um decréscimo de 1.789 (-48%) em relação a setembro de 2008.  Estes dois movimentos (desligamento e a admissão), combinados, resultaram na criação de novos postos de trabalho: em setembro de 2008 havia 703 novos postos de trabalho, dos quais, em março, foram fechados 2.126.

IHU On-Line - Além das mudanças quantitativas, quais foram as mudanças qualitativas em relação ao emprego? Qual é o perfil dos novos postos de trabalho?

Moisés Waismann - A crise também influiu na qualidade dos postos de trabalho, ou seja, no perfil do trabalhador contratado. Sobre o ensino formal, verificou-se que os novos contratados tendem a apresentar mais escolarização. Outro fator observado é em relação à criação de novos postos: os homens perderam mais vagas do que as mulheres. Verifica-se, assim, uma tendência à substituição da mão-de-obra masculina pela feminina. Ao que tudo indica, as trabalhadoras apresentam mais escolaridade, o que não significa que recebam melhores remunerações.

Outra observação importante que pode estar associada aos efeitos da crise foi a redução do salário médio dos trabalhadores. Enquanto, no mês de setembro de 2008, o salário aproximado do trabalhador desligado era de 2,23 salários mínimos, em março deste ano, passou para 2,39. Assim, houve uma tendência a desligar trabalhadores com salários maiores.

Sobre os trabalhadores desligados por faixa etária, observa-se a tendência de desligamento com mais idade, possivelmente aqueles que possuem uma renda maior, seja por tempo de serviço e/ou qualificação. Por outro lado, os que têm até 17 anos, possivelmente contratados como aprendizes, obtiveram um incremento positivo nas admissões. Verifica-se, de forma geral, que há nitidamente uma preferência por trabalhadores com até 30 anos, os trabalhadores nessa faixa etária foram os únicos a ter saldo positivo na variação de postos de trabalho e, com relação à renda auferida, são os que se encontram entre as faixas de menor a médio rendimento.

Outro fato que evidencia essa tendência refere-se à criação de novos postos de trabalho, voltados mais para os trabalhadores que recebem até 1,0 salário mínimo. Desse modo, uma das conclusões da pesquisa é que um dos efeitos negativos da crise para o mercado de trabalho de Caxias do Sul foi a diminuição dos salários, enquanto em setembro de 2008, o salário médio era 2,02, em março de 2009, foi de 1,8, o que representou uma variação negativa de 20%.

A crise não afetou somente a criação de novos postos, mas também contribuiu para a mudança das características dos novos postos de trabalho. De setembro de 2008 para março de 2009, o mercado de trabalho mostrou as seguintes alterações: os trabalhadores passam a ser mais escolarizados, mais jovens, com menores remunerações e com uma tendência ao aumento da mão-de-obra feminina.

IHU On-Line - Que impactos a crise internacional gerou no quadro de empregos do mercado brasileiro? É possível estimar que classe social foi mais atingida pelo desemprego a partir dessa turbulência?

Moisés Waismann - O Brasil vinha mês após mês, desde 2006, num crescimento sustentado na criação de novos postos de trabalho. O consumo crescendo, as empresas produzindo. Em outubro do mesmo ano, o emprego começa a cair, e em dezembro (2006) atinge o seu pior desempenho; foram fechados mais de 650 mil postos de trabalho só neste mês. Ao contrário de outras crises, esta afetou aqueles que ganham mais, os que têm um salário maior, os níveis gerenciais e técnicos, principalmente homens e outros funcionários com mais escolarização. O caso da demissão dos técnicos da Embraer é um exemplo deste movimento.

IHU On-Line - O que um momento de crise como o vivenciado pela turbulência internacional revela sobre a precariedade do trabalho? Na sua avaliação, o trabalhador é "desvalorizado", uma vez que precisa “lutar pelo emprego” e ainda abrir mão de seu salário para poder se manter no trabalho, como aconteceu recentemente no Estado?

Moisés Waismann - Sobre a primeira parte da pergunta: O mundo do trabalho está sempre num tencionamento quanto à degradação das relações trabalhistas, e, desde os anos 1990, esta disputa está mais acirrada. A sociedade neoliberal acredita que os diretos dos trabalhadores são um entrave ao progresso. Na América Latina, somente cinco países têm um sistema de seguro-desemprego. Começam a aparecer as condições de trabalho dos chineses, dos indianos, dos trabalhadores norte-americanos e dos brasileiros. Isso é bom porque recoloca a centralidade do trabalho frente a uma supervalorização do mercado financeiro. Neste período, observa-se o surgimento de novas relações de trabalho, os trabalhadores terceirizados, os autônomos, os micros e pequenos empresários e, mais recentemente, a empresa individual. Em alguns casos, estas novas relações podem mascarar a precarização do trabalho. Sobre a segunda parte: é bom deixar claro que as relações de emprego são relações de poder e estão colocadas na mão de quem demanda trabalho. O trabalhador fica num dilema perverso: trabalhar e abrir mão dos seus direitos e de sua saúde ou ter os seus diretos e saúde e não ter trabalho. Precisamos de dinheiro para sobreviver nas cidades, onde vamos conseguir se não for trabalhando?

IHU On-Line - Com a crise financeira, as indústrias brasileiras, em especial as automobilísticas, ganharam bastante apoio do Estado. Podemos dizer assim que a economia brasileira se manteve estável. No próximo ano, a intervenção do Estado tende a diminuir. Nesse sentido, que perspectivas o senhor vislumbra para a economia nacional? Como ela irá se manter sem a intervenção do Estado?

Moisés Waismann - Penso ser esta uma grande oportunidade para ver como as empresas vão reagir. O governo brasileiro fez um grande esforço de renuncia fiscal para poder manter uma certa estabilidade na economia. Os trabalhadores deram a sua cota com a redução da jornada de trabalho, com redução de salário. E as empresas, o que fizeram? Será que aproveitaram este tempo para tornar os seus produtos mais competitivos?  Se as respostas forem positivas, penso que temos a possibilidade de sairmos mais fortes desta crise. Se isso não ocorreu, teremos que repensar a organização do nosso mercado de produção de bens e serviços. Como podemos ter uma organização industrial que vive somente com subsídios do governo? Teremos que esperar um pouco mais para ter clareza sobre o próximo período. Muitas são as previsões, mas cautela se faz necessária.

IHU On-Line - Nesse contexto, que cenário o senhor vislumbra no que se refere à empregabilidade e ao mundo do trabalho? Que perfil de profissional e estrutura serão mais comuns? Quais serão os desafios nesse sentido?

Moisés Waismann - Os desafios estão postos, e agora que o discurso único do neoliberalismo não dá conta de explicar a realidade, podemos sentar e discutir possibilidades. É necessário reafirmar a centralidade do trabalho na nossa sociedade e desvincular trabalho de renda. Há mais de 30 anos, a produção de bens e serviços cresce com redução de postos de trabalho. Não tem trabalho para todos. Devemos criar outras formas: redução da jornada de trabalho sem a redução do salário possibilitaria a criação de mais postos de trabalho; pensar em postos de trabalho verdes, que levem em conta o limite da Natureza; valorizar e remunerar o trabalho de cuidadores de crianças e idosos; promover o acesso qualificado e remunerado à educação continuada. São muitas as possibilidades. Penso que pode ser o momento da sociedade discutir um futuro comum.

IHU On-Line - É possível, pós-crise, pensar em uma alternativa que defenda o emprego e maior distribuição de renda?

Moisés Waismann - É possível e necessário. Devemos pensar em como distribuir a renda que é gerada por cada vez menos empregos e empresas. É importante discutir o papel social das organizações ao invés de colocá-las na mão do governo. A sociedade está organizada desta forma porque historicamente se fez assim. Chegou a hora de pensar se esta forma responde as nossas necessidades atuais, e de garantir mais bem-estar.

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