Edição 310 | 05 Outubro 2009

Perfil - Darli de Fátima Sampaio

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Graziela Wolfart

A paranaense Darli de Fátima Sampaio, integrante do Centro de Pesquisa e Apoio ao trabalhador (Cepat), com sede em Curitiba, é quem conta a sua trajetória de vida nesta semana. Darli tem um grande trabalho com as camadas populares da sociedade. Durante a entrevista, concedida, por telefone, à revista IHU On-Line, duas marcas fortes são perceptíveis em sua personalidade: religiosidade e militância. Foram anos dedicados aos movimentos sociais e ao Partido do Trabalhador (PT). Seu conceito de fé, hoje diferente do aprendido na infância, nos faz refletir, pois Darli nos coloca diante de uma definição que ruma para o caminho do individualismo e outra que se alicerça no socialismo. Confira, a seguir, a história de vida desta mulher.

 

Foi na Lapa, cidade localizada a aproximadamente 50 km de Curitiba, que Darli nasceu. Ela conta que o município foi fundado por gaúchos, e é por isso que a cultura é muito ligada ao Rio Grande do Sul. “Sou filha de agricultores. Meus pais trabalhavam na roça, mas, como eu tive poliomielite, eles acharam melhor mudar para a cidade, já que na roça o meu futuro estaria comprometido”. Darli é a filha mais velha de outros três irmãos. Um falecido, por  conta de problemas cardíacos e que também viveu o drama do alcoolismo. “Pergunto-me se dei a ele toda a atenção de que necessitava.”

A religiosidade é o principal valor que a família cultivou em Darli.  “Minha mãe é uma mulher de muita fé, que sempre superou as dificuldades a partir desse referencial. Rezávamos juntos, íamos à missa, fizemos primeira comunhão e crisma”. Com o passar do tempo e com outras experiências pelas quais Darli passou, sua fé sofreu modificações. “Meus pais nunca foram militantes, mas sempre cultivaram uma fé que estivesse a serviço do outro. Minha mãe ajudava vizinhos que estavam passando necessidades, e meu pai emprestava um pouco de dinheiro para as pessoas que não tinham. Mas não era uma fé que se comprometia com uma transformação de uma realidade de vida. Era uma fé estendida às pessoas mais próximas e também uma fé imediata”.

Hoje, a fé que Darli tinha, ampliou-se para uma fé que está comprometida com os necessitados sim, mas que exige uma transformação do social, um resgate da dignidade de qualquer pessoa, estando próxima ou não. Esta mudança é resultado da sua larga atuação na militância. “Passei a ter mais compaixão. E a perceber que as pessoas são colocadas em situações diferenciadas, desiguais e injustas. O referencial de fé também te ajuda a superar as dificuldades. Você se torna resiliente, forte para enfrentar os impactos da vida”.

A trajetória estudantil de Darli foi marcada por períodos de estudos em colégios de padres e freiras. Ela lembra que a primeira escola fazia parte da congregação apóstolas do Sagrado Coração de Jesus, “a qual eu escolhi para entrar mais tarde, na minha trajetória de vida”. Depois de concluir os estudos do Ensino Médio, Darli interrompeu sua formação e foi para a militância. Mais tarde fez graduação em Filosofia na PUC, pós em sociologia política e mestrado em sociologia do trabalho.

“A militância foi o meu maior referencial na vida”. Antes de entrar no convento, Darli participava de um grupo de jovens muito envolvidos com as causas populares, que fazia uma leitura crítica do mundo, das coisas ao seu redor. Os interesses do grupo se voltavam para melhorias para o bairro e os organismos públicos que poderiam beneficiar a população. “Deste grupo, passei para a Associação de Moradores. De lá, para a Pastoral Operária. Da pastoral, fundamos os núcleos do PT na região. Comecei a militar por volta de 1979 e sempre tentei não desvincular-me da comunidade.”

Outras instituições como o Centro Comunitário de Manutenção (Cecoma), que trabalhava a questão da alimentação popular para baratear os alimentos, também fizeram parte da vida de Darli. “Depois do Cecoma, fui liberada da Pastoral Operária da Arquidiocese para ajudar nas reflexões de base. Trabalhei muitos anos como dirigente do PT, e alguns cargos de direção, como secretária-geral da secretaria de movimentos populares e nucleação. Do Partido, fui para a coordenação do Centro de Formação Urbano-Rural Irmão Araújo (Cefuria), uma entidade que sempre esteve na nossa caminhada, mas estava quase fechando as portas”.

Após três anos neste Centro, Darli foi convidada a trabalhar na Pastoral Operária Nacional, o que a fez se mudar para o Rio de Janeiro. “Voltando para o Paraná, voltei também para o Cefuria e para a coordenação. Depois de sete anos, recebi o convite para trabalhar no Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores (Cepat), onde estou há cerca de cinco anos e, no momento, me dedico à Escola de Gênero, Trabalho e Sustentabilidade, que está concluindo agora seu segundo ano de funcionamento, tendo formado e transformado a vida de aproximadamente 100 pessoas”. Darli não é casada, nem tem filhos, uma condição que no caso das mulheres, por um lado, facilita a participação, a galgar cargos de direção. Porém, de outro lado, sobrecarrega de responsabilidades e cobranças. Considera que sua concepção de família não passa apenas por uma formação de um núcleo. “É claro que é muito importante ter os pais e irmãos por perto, mas hoje estou inserida no que considero uma família maior, que é a da militância”.

Aprendizado

Analisando sua trajetória até aqui, Darli avalia que a vida é uma troca. “Cada um tem um referencial de vida, que vai marcando a gente. Minha trajetória junto com as pessoas faz parte de um aprendizado”. Darli destaca que mesmo quem não passou por uma instituição acadêmica tem conhecimentos impressionantes. “Estas pessoas têm um tesouro pessoal que faz parte da sua leitura do mundo, do ouvir, ver e sentir esse mundo nas experiências vividas”. Para Darli, pessoas que trabalham nas comunidades, com setores marginalizados e discriminados na sociedade, têm consciência que trabalham com gente muito maltratada, machucadas, desconsideradas na vida. “É uma sociedade que não está dando certo do ponto de vista da dignidade e do resgate da pessoa humana. E nós temos que ter alguma coisa a ver com tudo isso!”

Sonho

Quando o assunto é o grande sonho de vida, Darli vacila. Acha que sonhos são mutáveis e se pergunta: “O que mais eu posso querer? Do ponto de vista material, sou uma ‘incluída’. Do ponto de vista afetivo, meus recebimentos são enormes. Não estou interessada na decantada felicidade, que também acontece na vida, assim como o seu contrário. Meu sonho, se é que pode ser definido assim, está em ter a coragem de viver bem a vida, e em tudo o que ela me reservar. Na forma mais focada, sonho que a nossa Escola de Gênero, Trabalho e Sustentabilidade dê certo. E que possa fazer alguma diferença na vida das pessoas”.

Política brasileira

Para Darli, a política vive um momento muito complexo, no qual não há mais vinculação com o campo social. “Há certo descrédito. A política cada vez mais passou a ser vista como uma coisa errada, que não vale a pena investir. É sempre uma aposta, mas não é a única que devemos fazer. A política é importante, mas tem que se transformar, porque está voltada a benefícios particulares”.

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