Edição 310 | 05 Outubro 2009

Quando a TV quer fazer historiografia

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Luciano Correia dos Santos

Coluna do grupo de pesquisa CEPOS

Na marcha sobre os demais campos sociais, o campo midiático já não se contenta com o papel tradicional do jornalismo no relato do cotidiano. De uns tempos pra cá, também faz parte de suas ambições o macrorrelato das operações e tramas que constitui o que o campo científico define como a História. De tanto referenciar-se como encarregada de contar o presente pela via consensualmente aceita do jornalismo, a mídia parece decidida a assumir um protagonismo neste que, até então, era espaço específico de pesquisadores e historiadores.
    
Uma das razões que coloca a mídia no centro do que Maria Cristina Mata  chama de a nova Ágora eletrônica é a convergência em torno dos produtos audiovisuais, em cujo centro a televisão encontra-se instalada e desempenhando seu papel hegemônico. A própria convergência é uma das interrogações que a história futura da comunicação nos impõe, pelo impacto que representou a revolução das novas tecnologias nos últimos anos e por tudo que este processo dinâmico deve consolidar no horizonte imediato do amanhã. A TV Digital, às vésperas de chegar aos lares, obriga um reposicionamento de “antigas” mídias existentes, dentre elas a televisão. (Por mais curioso que pareça, a televisão brasileira atual, uma jovem de 56 anos, embora não exiba sinais de uma fadiga técnica, tecnológica ou existencial (seus conteúdos, funções e papéis etc.), pode estar encerrando mais uma de suas grandes etapas.
    
A priori – a construção é do autor – pode-se fracionar o desenvolvimento da TV em várias fases, mas são visíveis, aos olhos de quem se aventurar pela sua história, três momentos importantes nesta trajetória. A primeira, que vai de sua implantação, em 18 de setembro de 1950, até a invenção do videoteipe, é marcada pelas transmissões ao vivo e pelo experimentalismo que resultou num surto criativo na busca de formatos próprios. Uma segunda poderia ser apontada a partir do extraordinário impacto que representou na sua linguagem e nos modos de produção o advento do VT. Uma terceira fase poderia ser localizada a partir dos processos digitais que revolucionaram a captura (gravação) e processamento (edição) das imagens.
    
Agora, com a TV digital, uma nova e igualmente impactante etapa colocará a televisão em trilhos ainda insondáveis, embora muito do que promete esta nova era televisiva já está chegando ao mercado. A razão de historiar a convergência midiática é para reafirmar o papel central da TV num processo de crescente ocupação de espaços que só deve reforçar as tendências atualmente verificadas, dentre elas, a que abriu este artigo, a de colocar-se cada vez mais na função de contar a história.
 
No Brasil, este propósito – expresso ou não – de assumir um lugar na história, se possível “ajudando” a escrevê-la, tem sido unicamente da Rede Globo. Para o bem ou mal, é esta emissora – e nenhuma outra – que tem assumido posições de frente, mesmo que muitas vezes contrariando a lógica dos fatos e até mesmo ferindo a verdade. Mesmo quando força suas convicções para tentar fazê-las comuns à enorme audiência, é ela, fora do Brasil, difundido o modo brasileiro de fazer televisão, ou aqui, com suas novelas tão pasteurizadas quanto queridas da população, quem tem produzido um caldo cultural televisivo digno de análise.
     
Conhecedora das falhas do sistema de registro eletrônico e das possíveis manipulações que ele permite, estaria a Globo se aproveitando das brechas não preenchidas por uma política de arquivamento eletrônico para refazer seu caminho na história? Mais questões: numa era em que a memória é mediada pela TV, em que os fatos não midiáticos parecem simplesmente não existir, como fica o próprio desenrolar das tramas da história fora do foco midiático? E como ficará a própria história sendo contada pelo novo meio encarregado dos relatos históricos? Num país como o Brasil, de fraca tradição letrada e de farta penetração televisiva, imagina-se qual será a versão prevalecente dos fatos, portanto, da história definitiva. O problema não decorre só de possíveis manipulações, mas de insuficiência também, afinal, a Globo (e não só ela, mas todos os canais) não tem responsabilidade com a memória pública. Então, como resolver perdas que o sistema eletrônico a toda hora registra (nenhum sistema é infalível)? Confiar na memória humana? Estaríamos então de volta às tradições orais.
    
Não obstante, os múltiplos usos da televisão – pesquisadores sempre exploram o caráter educativo nos programas de ensino à distância – a função essencial da TV, hoje o principal produto da indústria cultural, é agitar a esfera pública e promover a venda de mercadorias baseada no fetiche exercido pela publicidade . Assim, ao lado da notícia (relato do cotidiano, forma de inserção social), da publicidade e do entretenimento, a TV se propõe agora a fazer o relato da história. E fazendo-o ao seu modo: espetacularizando-a, inserindo-a no seu show cotidiano. A exemplo da educação à distância, que ela cumpre sem contraindicação, não haveria obstáculos ao registro da história, não fosse ele feito sem considerar as leis da historiografia, mas obedecendo a lógica do espetáculo.
     
No caso da Rede Globo, ninguém parece levantar-se contra sua fabulosa (sic) máquina de fazer ficção televisiva, não só pelo seu direito de livre expressão, mas, e principalmente, pela competência com que trabalha produtos hoje exportados para o mundo inteiro. Porém, com o poderio que assumiu na vanguarda da sociedade brasileira, ditando modos, usos e costumes, removendo velhos e imprimindo novos valores, espera-se dela, agora que se preocupa também com história e historiografia, a tolerância que é uma das marcas do país onde a Globo nasceu e cresceu.

* Luciano dos Santos é jornalista, professor da Universidade Federal de Sergipe, doutorando em Ciências da Comunicação na Unisinos (RS) e membro do grupo de pesquisa CEPOS.

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