Edição 309 | 28 Setembro 2009

Hinduísmo. Pluralidade: segredo para tolerância

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Patricia Fachin | Tradução Benno Dischinger e Walter O. Schlupp

Todas as pessoas têm uma humanidade comum, portanto, um sistema ético sensato é aceitável para todos, capacitando-as a colaborar em prol da integridade da criação, diz Subhash Anand

Na opinião do pesquisador Subhash Anand, o fato de uma divindade não ser adorada por todos os seguidores do hinduísmo, e a não existência de uma escritura oficial para todos “abre a possibilidade de muitos hindus sinceros aceitarem Jesus”. Para ele, a pluralidade do hinduísmo “é o segredo da sua tolerância”. Há 40 anos estudando as práticas hindus e o modo de vida dos indianos, Anand diz que aprendeu “o verdadeiro sentido do que é ser cristão”. E explica: “Verdade não é a questão de alguma fórmula ser correta ou não, mas a autenticidade da vida. Somente então a verdade terá poder, somente então a verdade poderá nos libertar. Esta é a Verdade que Jesus pretende ser”. Na entrevista que segue, concedida, por e-mail, com exclusividade, à IHU On-Line, ele faz um alerta: “O mundo precisa não de ortodoxia, mas de ortopraxia, baseada na reflexão crítica. E a reflexão crítica talvez nem sempre esteja em harmonia com a ortodoxia”.

Entre suas obras, citamos Story as theology: na interpretative study of Five episodes from the Mahabharata (Hardcover, 1996) e Siva’s thousand names: as interpretative study of Sivasahasranama (Hardcover, 1998).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Quais foram os principais aspectos históricos e culturais que favoreceram o aparecimento do hinduísmo?

Subhash Anand - Por várias razões, o termo “hindu” transformou-se num pomo de discórdia não tanto entre acadêmicos bem informados quanto entre políticos ambiciosos. Entre estes últimos, alguns não hesitam em dizer que qualquer pessoa que deseje viver na Índia precisa ser hindu, e que o país deveria mudar de nome para Hindustão! Isto em si poderia parecer bem inócuo, porque os reis persas Dario (522-486 a.C.) e Xerxes (486-465 a.C.) usaram essa palavra para denominar os povos do outro lado do rio Sindhu. Assim sendo, “o termo ‘hindu’ originalmente tinha um significado territorial, não religioso.” Qualquer que seja sua origem e significado original, hoje em dia, o termo tem um sentido decididamente religioso. O grande historiador da lei hindu tradicional P. V. Kane diz que “hinduísmo é uma combinação de muitos sistemas e ideologias religiosas. Haveria apenas poucos aspectos dos quais se diria que ligariam a maioria dos hindus entre si.” Trata-se da doutrina do karma e punarjanma (a ideia de que passamos por numerosos nascimentos, e que estes são conformados por nossas ações), a autoridade dos Vedas, o impacto unificador da literatura sânscrita mais antiga sobre a consciência religiosa e a formação de línguas regionais.

Pluralidade hinduísta

O sistema de castas igualmente é considerado uma característica singular e distintiva da comunidade hindu. Os integrantes das tribos (tribals), considerados os habitantes originais da nossa terra, são os povos indígenas. Eles mantiveram seu isolamento geográfico, suas estruturas sociais, tradições culturais e identidade religiosa ao longo dos séculos, e somente em anos bem recentes é que a sanscritização e modernização os está afetando lentamente. Eles não são hindus. Seguem uma espécie de religião totemista. Alguns dos seus totens passaram a integrar o hinduísmo popular de hoje. Alguns pensam que até mesmo os dalits (párias) são originalmente povos indígenas. Entretanto, os arianos invasores os conquistaram e os usaram como seus servos e escravos. Devido a essa longa associação com os arianos, os povos conquistados não só viveram em estreita vizinhança com eles e aprenderam a falar seu idioma, mas lentamente absorveram alguns dos seus padrões culturais e ideias religiosas. Assim sendo, os dalits são considerados hindus, e alguns se referem a eles como sendo os pañcamas, isto é, a quinta casta.

Muitas questões perguntadas por não-hindus pressupõem que o hinduísmo seja uma religião. O fato é que não há um fundador em si, uma divindade adorada por todos, nem um texto considerado escritura por todos, nenhum teólogo aceito por todos, nenhum modo de culto seguido por todos, nenhum centro considerado o mais sagrado etc. Isto abre a possibilidade de muitos hindus sinceros aceitarem Jesus. O problema aparece quando alegamos que Ele é o Único. A pluriformidade do hinduísmo é o segredo da sua tolerância. Pela mesma razão, precisamos constantemente especificar nossa resposta para questões sobre hinduísmo.

IHU On-Line - Que relações os hinduístas estabelecem com seus deuses?

Subhash Anand - A relação entre hindus e a divindade por eles adorada depende de como entendem essa divindade. Nos primeiros tempos, Deus foi responsável pela ordem do universo. Ele precisou ser aplacado para que a ordem, que é fonte de bem-estar para os seres humanos, seja cuidada. Gradualmente, a noção de devoção amorosa (bhakti) ganha força. A relação entre Deus e seu devoto também precisa ser entendida de diferentes maneiras: mestre e servo, filho e genitor/a, amigo e amigo, amante e amado.

Como não existe uma religião hindu, cada grupo tem seu próprio item não-negociável. Mas, aos poucos, alguns hindus estão tentando criar uma versão de hinduísmo válida para a Índia inteira, de modo a se apresentar como uma frente unida.

IHU On-Line - Qual é o significado espiritual de acreditar e venerar várias divindades?

Subhash Anand - Somente existe um Deus, mas esse mistério único recebeu muitos nomes e formas. Na história das religiões, temos o fenômeno do totemismo: para uma tribo, um animal, pássaro, peixe ou planta é sagrado, em alguns casos raros, também algum elemento terreno importante para nossa vida diária, como, por exemplo, o sal. Essa tribo respeitará o totem e espera por ele ser protegido. Isso pode ser a primeira forma do que no hinduísmo posterior se chama de ixta devata. O totem faz parte de um período muito antigo da história humana, quando muitas destas tribos eram independentes. À medida que os seres humanos ganham maior compreensão sobre si próprios, deixam de se sentir bem com um deus animal. Inicia um processo de antropomorfização: o totem gradualmente adquire forma humana. Isto não significa que o totem original seja completamente esquecido. Ele continua na memória religiosa da comunidade, inclusive encontrando um lugar no mito e no ícone daquela comunidade. A ideia hindu de deuses terem algum pássaro ou animal como seu vahana (veículo) poderia ser uma forma dessa memória religiosa. Assim sendo, o veículo de Vixnu é uma águia, ao passo que o de Xiva é o touro. Pode suceder que, antes de o totem adquirir forma humana plena, ele passe por um estágio em que é prestigiado em forma semihumana. Como a cabeça ou face é a melhor identificação de um animal, ela é que cai por último antes da emergência da forma humana plena. Assim temos não só Ganech, o deus com face de elefante, mas também Hayagriva, o deus com cabeça de cavalo, e Narasimha, o deus com cabeça de leão.

Gradualmente, tribos originalmente independentes são reunidas sob o mesmo governo por um rei poderoso. Unidade religiosa contribui muito para a estabilidade política. Um rei, um deus! ¬– este é o slogan. Assim sendo, o monoteísmo pode servir a uma necessidade muito política! A questão é como integrar as diferentes tribos com seus deuses específicos num todo religioso, sem negar completamente seus deuses, uma vez que isto poderá ofendê-los e assim colocá-los em antagonismo. A história do hinduísmo nos apresenta algumas soluções possíveis. Parece que uma maneira de relacionar o vencedor com os derrotados foi a de transformar esses últimos no veículo do primeiro. Isto poderá explicar a presença de uma serpente sobre a qual Vixnu repousa. De modo semelhante, se a relação do rato com Ganech não tivesse uma referência histórica, seria difícil explicar por que os criadores de mitos escolheriam um animal tão nanico para carregar o pesado deus com barriga do tamanho de um barril.

Na tradição Vaixnava, temos o conceito de avatara (descendência): os diferentes deuses tribais não são realmente deuses diferentes, mas apenas manifestações diferentes do deus único, Vixnu. A tradição Shaiva não aceita o conceito de avatara, e sim os diferentes deuses estão ligados a Shiva por casamento (como no caso da deusa) ou por relação familiar (como no caso de Skanda e Ganech).

O pano de fundo totemista também está ligado a outro aspecto do nosso processo de pensar: precisamos expressar nossa experiência mais profunda por meio de imagens. Os antigos poetas santos indianos experimentaram o caráter multifacetado da Realidade. Sentiam a presença desta Realidade em cada criatura com que se deparavam em sua vida cotidiana, seja ela animada ou inanimada. Não conseguiam expressar com facilidade sua experiência numa única palavra ou termo, imagem ou conceito. Um estudioso dos nossos dias poderá ficar estupefato ante as ideias muitas vezes contraditórias ali reunidas, mas os sábios antigos estavam pensando não tanto em conceitos claros e distintos, porém, mais frequentemente, por meio de imagens que se completassem e se corrigissem mutuamente.

IHU On-Line - Em que sentido karma e dharma interferem no modo de ser hindu?

Subhash Anand - Sua ação (karma) determina seu próximo nascimento (janma). Você nascerá numa casta específica, que tem seu próprio conjunto de regras (dharma). Sua ação também lhe disporá para agir de um modo específico.

IHU On-Line - Como os fiéis hindus entendem o renascer?

Subhash Anand - Entre o povo, pensam que seres humanos também podem renascer como subumanos. Tudo depende da sua ação. Se praticar o bem, terá um bom nascimento. Se praticar o mal, nascerá numa família ruim ou numa casta inferior. Se comportar-se como um porco, renascerá como um porco!

IHU On-Line - Quais as principais festas dos indianos e o que elas revelam sobre a espiritualidade e o modo de vida hindu?

Subhash Anand - Cada parte da Índia e cada tradição hindu têm sua festa principal. A maioria das festas hindus está ligada às mudanças da natureza que poderiam ser descritas como ritos de passagem. A Índia é um país enorme, o clima não é o mesmo por toda a parte. Um estado poderá celebrar uma festa da colheita numa época totalmente diferente de outro estado. Não há um calendário comum, e, por isso, até mesmo o dia de Ano Novo não é o mesmo. Ao seguir o calendário lunar, alguns começam com a lua nova, outros começam com a lua cheia.

IHU On-Line - Como se relaciona o sistema filosófico hindu com o cristianismo? Como podem interagir místicos hindus e cristãos?

Subhash Anand - Como há tantas escolas de teologia, por vezes diametralmente opostas, a resposta não é fácil. Você pode tomar uma escola em particular e mostrar como alguns dos seus princípios podem ser aceitos ou reinterpretados por cristãos. Por esta razão, não pode haver uma única teologia cristã indiana, ou uma única liturgia cristã indiana. Da mesma forma, místicos hindus apresentam uma diversidade de abordagens à oração profunda. Alguma escola hindu alegará explicitamente ser a melhor. Poderá dizer, inclusive, que outras abordagens são para novatos!

IHU On-Line - O teólogo alemão Hans Küng afirma ser possível criar uma ética mundial por meio de alguns princípios básicos. Poderão as religiões contribuir para a proposta de uma ética mundial?

Subhash Anand - Os hindus muitas vezes falam da sua religião e ética tradicionais como manava dharma. Alguns hindus relacionam manava com o sábio mítico Manu. Mas o fato é que manava denota humanidade. Este é um indicador maravilhoso: qualquer sistema ético é sensato [sound], enquanto esteja fundado sobre uma compreensão correta do que significa ser humano e insista em que nós promovamos humanidade. Como todos nós temos uma humanidade comum, essa ética será aceitável para todas as pessoas, capacitará a todos a colaborar em prol da integridade da criação. Hoje em dia, o que mais precisamos não é tanto de bons fiéis, mas de boas pessoas simples e singelamente humanas.

IHU On-Line – O senhor estuda o hinduísmo há muitos anos. O que esses estudos lhe ensinaram sobre fé, religião?

Subhash Anand - Tenho estudado o hinduísmo por mais de 40 anos e aprendi muita coisa. Ele me ensinou o verdadeiro sentido do que é ser cristão. Verdade não é a questão de alguma fórmula ser correta ou não, mas a autenticidade da vida. Somente então a verdade terá poder, somente então a verdade poderá nos libertar. Esta é a Verdade que Jesus pretende ser. Esta é a Verdade que nós cristãos precisamos dar ao mundo hoje em dia, um mundo que está se tornando cada vez mais superficial. O mundo precisa não de ortodoxia, mas de ortopraxia, baseada na reflexão crítica. E a reflexão crítica talvez nem sempre esteja em harmonia com a ortodoxia.

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