Edição 306 | 31 Agosto 2009

Darwin enfraqueceu o antropocentrismo

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Márcia Junges

Teoria do cientista britânico contribui para enfraquecer visão de que a Terra e todos seres vivos existem em benefício do ser humano, pontua Edward Manier. Entretanto, Darwin não fez nada para diminuir o status da razão e sentimentos morais

Para o biólogo Edward Manier, certamente a teoria darwiniana enfraquece o antropocentrismo que compreende a existência das espécies vivas e do planeta como estando à disposição dos seres humanos. Além disso, ele mencionou na entrevista que concedeu, por e-mail, à IHU On-Line, “Darwin não fez nada para diminuir a importância ou o status desses ‘poderes superiores’ – a razão e os sentimentos morais”. Não é útil dizer que somos diferentes depois de Darwin, e Manier matiza as mudanças causadas por A origem das espécies: “As mudanças não foram cataclísmicas, mas muito, muito gradativas e multidimensionais”. Sobre a recepção do darwinismo, ele assinala que este só foi “apoiado por um amplo consenso entre os cientistas no segundo quartel do século XX, junto com o desenvolvimento da chamada ‘nova síntese’ que associava o darwinismo, o mendelismo e teorias crescentemente sofisticadas e empiricamente bem sustentadas da hereditariedade e mutação”.

Manier é professor de Filosofia do Reilly Center, na Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos. Graduado por essa mesma instituição, fez PhD em Filosofia pela Universidade St. Louis. Seu site é http://www.nd.edu/~amanier/. Em 9 de setembro, na primeira noite do IX Simpósio Internacional IHU: Ecos de Darwin, será exibida sua conferência intitulada O desenvolvimento das visões de Darwin sobre a sua teoria: os primeiros anos.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Quais são os principais desenvolvimentos pelos quais passou a teoria de Darwin desde os seus primeiros anos?

Edward Manier – Eu citaria os seguintes, em específico:
a) redescoberta do mendelismo,  desenvolvimento da teoria cromossômica do gene
b) genética populacional, teoria genética da seleção natural
c) causas da mutação; estrutura do DNA e decifração do código genético
d) evolução de sistemas desenvolvimentais (“evo devo” [evolução e desenvolvimento])
e) ecologia comportamental

IHU On-Line - Darwin nos “destronou” de nosso antropocentrismo? Que implicações isso nos traz enquanto sujeitos numa perspectiva cósmica e, também, ética?

Edward Manier – Eu contestaria a expressão “nos destronou de nosso antropocentrismo” porque ela toma por certos os contextos polêmicos específicos em que Darwin usou essa retórica. Darwin sustentou que nossos chamados “poderes superiores” da razão científica, estética e moral não exigiam uma intervenção divina especial, isto é, que eles poderiam ser plausivelmente vistos como o resultado genealógico de um continuum natural desses poderes existente no reino animal. Ele sustentou que a tradição da teologia natural inglesa arrogantemente “entronizou” os seres humanos como se estivessem especialmente ligados ao divino, e se opôs e, de modo geral, minou essa tradição específica e seu correlato filosófico (dualista).

Darwin não fez nada para diminuir a importância ou o status desses “poderes superiores” – a razão e os sentimentos morais. Quando jovem, ele achava que suas concepções apontariam o caminho para uma nova síntese das concepções de Hume  (empirismo) e de Kant  (o papel da “razão pura” na ciência e na moralidade). Sua compreensão de Kant era mínima, mas sua posição se encontra na linhagem ancestral de esforços atuais para encontrar as raízes transculturais dos sentimentos morais humanos numa única natureza humana (p. ex., James Q. Wilson, The Moral Sense, Free Press, 1997). É claro que a teoria de Darwin efetivamente enfraquece qualquer “antropocentrismo” que implique que a Terra e todas as coisas vivas nela tivessem sido colocadas aqui para o benefício dos seres humanos e só deles.

IHU On-Line - A partir disso, podemos dizer que somos diferentes depois de Darwin? Por quê?

Edward Manier – As mudanças não foram cataclísmicas, mas muito, muito gradativas e multidimensionais. Elas ocorreram no contexto de uma oposição teológica e científica passionalmente enérgica. Vários aspectos da abordagem darwiniana se refletiram em correntes independentes do pensamento europeu do século XIX:
• exaltação romântica da grandiosidade da natureza;
• retratos realistas da dor e do sofrimento da vida humana comum;
• atenção crescente às condições materiais da história humana;
• influência crescente dos estudos transculturais de instituições humanas (religião, arte, direito);
• desenvolvimento da linguística comparada.

O darwinismo só foi apoiado por um amplo consenso entre os cientistas no segundo quartel do século XX, junto com o desenvolvimento da chamada “nova síntese” que associava o darwinismo, o mendelismo e teorias crescentemente sofisticadas e empiricamente bem sustentadas da hereditariedade e mutação. O “darwinismo”, por exemplo, era tido em mais alta consideração pelos teóricos jurídicos que escreveram no início do século XX do que pela comunidade científica da época. De modo geral, não considero útil dizer que “nós nos tornamos diferentes depois de Darwin”, porque, por exemplo, essa expressão pouco ou nada nos ajuda a entender as diferenças na ficção britânica antes (Jane Austen ) e depois (Trollope,  Thomas Hardy ) da publicação de A origem das espécies.

IHU On-Line - Qual é a atualidade de A origem das espécies?

Edward Manier – A influência do livro em si nos Estados Unidos atualmente é em grande parte acadêmica, e, na medida em que os alunos e alunas chegam a lê-lo, sua atenção geralmente se restringe aos quatro primeiros capítulos, aceitando as premissas básicas da teoria: a variação hereditária, capacidades reprodutivas que excedem os recursos ambientais, a mudança geológica que leva a variações ambientais extremas e ao surgimento e à queda de barreiras naturais à migração. Os alunos e alunas ouvem dizer, muitas vezes, que “nada na biologia faz sentido exceto à luz da evolução”, mas não estudam mais as provas darwinianas: a taxonomia com base genealógica, a anatomia e embriologia comparada, os indícios biogeográficos da descendência de uma ancestralidade comum.

Nos Estados Unidos, os críticos religiosos fundamentalistas da evolução darwiniana continuam a pregar a respeito de “falhas” contidas na teoria (p. ex., consequências epistemológicas supostamente contraproducentes de explicações naturalistas da evolução da razão humana, a deficiência de “elos perdidos” etc.), explorando a credulidade e o analfabetismo científico de seus seguidores e a carência de uma boa formação científica em escolas de ensino fundamental e médio nos Estados Unidos. Recomendo vigorosamente o livro de Philip Kitcher  Living with Darwin: Evolution, Design and the Future of Faith (Oxford: Oxford 2007), particularmente o último capítulo, “A Mess of Pottage”, como explicação clara e convincente do surpreendente fenômeno de que os cidadãos americanos deixam de assimilar o darwinismo no esquema cultural que usam para entender a si mesmos e sua relação com o meio ambiente natural.

IHU On-Line - Quais foram as descobertas que o senhor fez em sua pesquisa sobre o “sistema simples na neurosciência cognitiva, a estrutura celular e molecular no mecanismo de aprendizado pavloviano”?

Edward Manier – Meus resultados, lamentavelmente, foram negativos. Eles podem ser resumidos da seguinte maneira: No presente, os neurobiólogos moleculares não conseguiram explicar as características do condicionamento clássico que são da maior utilidade para explicar comportamentos complexos em pombos e ratos, por exemplo: 1) o “bloqueio” do aprendizado de variação redundante ou irrelevante no nível da estimulação e 2) o cálculo da frequência relativa de estímulos não condicionados na presença e ausência de estímulos condicionados.

É lamentável que o maior prestígio e influência da neurociência tenha eclipsado os achados duramente conquistados dos psicólogos experimentais relativos às sutilezas com que os mecanismos pavlovianos de aprendizado funcionam em vertebrados terrestres. (Veja o trabalho de Robert Rescorla,  particularmente Pavlovian Conditioning: It’s Not What You Think It Is, American Psychologist, v. 43, n. 3, p. 151-160, 1988).

IHU On-Line - Quais são as conexões que o senhor realiza entre a evolução humana e a psiquiatria evolucionária? Que descobertas realizou?

Edward Manier – Sou um historiador e filósofo da ciência; um crítico, não um investigador, e não reivindico descobertas originais. Como crítico, julgo que nem a psicologia evolutiva, nem a psiquiatria evolutiva são uma disciplina científica unificada na atualidade. Especificamente, muitos psicólogos e psiquiatras evolutivos tenderam a explorar modelos de investigação desenvolvidos de maneira inteiramente independente da teoria evolutiva, como, por exemplo, a “modularidade da mente”. Em consequência disso, muito pouca atenção experimental e clínica tem sido dada ao trabalho de indivíduos como Steven Suomi e Jerome Kagan  sobre variabilidade hereditária em manifestações precoces de temperamento em crianças pequenas e jovens humanos e infra-humanos e sobre variabilidade culturalmente transmitida em comportamentos maternos e estilos de criação.

O que eu chamo de “turbulência no fluxo das informações científicas” impediu a consolidação de qualquer consenso relativo às prioridades empíricas e teóricas nesse campo. Por exemplo, os fortes vieses hereditários e biológicos de Kagan o colocam em desacordo com muitos psicólogos desenvolvimentais tradicionais, e sua teoria da “inibição comportamental para o discrepante” (p. ex., cautela ao ser confrontado com estímulos ambíguos, difíceis de classificar) não foi desenvolvida para se tornar uma teoria geral do temperamento na atualidade.

Também parece haver pouca ou nenhuma interação significativa, associando 1) o trabalho de um psiquiatra experimental e clínico dos Estados Unidos que começou a trabalhar na integração de uma teoria geral do temperamento com uma teoria de traços de caráter aprendidos, C. Robert Cloninger,  M.D., e o trabalho de 2) proponentes da amplamente aceita “teoria dos cinco fatores da personalidade”, Personality in Adulthood, Second Edition: A Five-Factor Theory Perspective, de Robert R. McCrae  e Paul T. Costa Jr., Guilford, 2002. Veja também http://www.millon.net/content/evo_theory.htm sobre o trabalho de Theodore Millon  e http://www.anthropediafoundation.org/ sobre o trabalho de C. Robert Cloninger .

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