Edição 304 | 17 Agosto 2009

IHU Repórter - Luiz Fernando Medeiros Rodrigues

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Márcia Junges

Professor do PPG em História, Luiz Fernando Medeiros Rodrigues, SJ, voltou recentemente à Unisinos, após 23 anos de vida e trabalho em Roma. Ele é curador adjunto do Memorial Jesuíta, e, nas horas de lazer, gosta de estar com seus familiares e cozinhar um “bom espagueti”. Conheça um pouco mais sobre sua trajetória e desafios que aceitou e conseguiu vencer.

 

Origens - Sou natural de Porto Alegre, terceiro de seis filhos, três homens e três mulheres. Sou da região de Petrópolis, perto do Colégio Anchieta. A minha família é muito simples, de classe média. Meu pai é contabilista e minha mãe, doutora em Assistência Social.

Infância e família - Eu e meus irmãos ficávamos em casa, onde sempre tinha de quinze a vinte crianças juntas. Era um caos contínuo. Essa é a infância que eu tenho na memória, bem aproveitada em todos os sentidos. Nossa casa era muito movimentada e isto continua até hoje. Meus sobrinhos ficam meio escandalizados quando estamos todos juntos, pois essas brincadeiras permanecem entre nós. Somos uma família unida. Tenho dois irmãos que estão em São Paulo. É uma família que se reúne frequentemente, quase sempre uma vez por semana.

Anchieta – Estudar no Anchieta foi muito importante. Fui aluno de 1964 até 1975. Lá tive vários contatos estimulantes, um deles foi trabalhar no museu do Colégio, aos 15 anos. O Anchieta, naquela época, tinha a característica de ter vários pesquisadores, alguns deles pesquisavam para a Unisinos. Então, cedo, tínhamos contato com esse universo. Com 15 anos, estava envolvido com arqueologia e pesquisas de genética. Isso foi bastante instigante. Aos 16 anos, li o Fenômeno Humano, de Pierre Teilhard de Chardin, obra que me motivou por combinar fé e ciência.

Companhia de Jesus - Com 17 para 18 anos, fase de preparação para o vestibular, realizei as duas aplicações para o noviciado da Companhia. Quando veio a carta de aceitação, entrei no noviciado, em 1976. Até então, eu só havia ouvido falar de pobres. Logo a Companhia me enviou para favelas e presenciei situações muito fortes de degradação humana. Houve um choque, e não foi fácil a assimilação da pobreza e fome do Brasil que se conhecia apenas de ouvir falar. Passado o noviciado, comecei a Filosofia aqui no Cristo Rei. Era o início da universidade no novo campus. Eu cursava as faculdades de filosofia eclesiástica, filosofia civil, estudos sociais e história.

Vida de Paróquia - Também comecei a estudar em Porto Alegre e, ao mesmo tempo, a Companhia pediu-me para ter a experiência de paróquia. No último ano da Filosofia, morei na paróquia do Fião, em São Leopoldo, e dava aulas em Montenegro. Praticamente vivi dentro da universidade, de 1978 até 1981. A carga horária era pesadíssima. Estudava e lia muito, e com isso fui para o período de magistério, também decisivo. Fui enviado para lecionar em Florianópolis. Em seguida, ingressei na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, como estudante de Teologia. Lá senti a diferença do modo como as aulas eram dadas em relação ao Brasil. Havia um estilo escolástico, com aulas magistrais. Terminada a Teologia, voltei para o Brasil, para as férias e para a ordenação, em 1986. Novamente rumei a Florianópolis, dessa vez a fim de lecionar para crianças de dez anos.

Mestrado e doutorado - Fiz mestrado em Teologia Fundamental e nele preparei-me para lecionar em colégios. Ao final do curso, em 1988, fui chamado à Cúria Geral e pediram-me para ser secretário das províncias de língua portuguesa. Naquele momento, o novo provincial, João Roque Rohr, decidiu que eu devia voltar aos estudos de História, então comecei a fazer História Eclesiástica. Iniciou outra fase na minha vida. Iniciei o doutorado na Gregoriana. Levei mais de dez anos para concluir a pesquisa, pois precisava reunir uma documentação completamente dispersa. Em seguida, fui chamado para trabalhar no Instituto Histórico da Companhia de Jesus, e depois na Biblioteca da Cúria Geral. Trabalhei por sete anos como bibliotecário da Cúria Geral, uma espécie de depósito legal daquilo que os jesuítas escreviam. Tive participação na construção e organização do novo arquivo da Companhia de Jesus. Ao todo, foram 23 anos vividos em Roma.

Volta à Unisinos - Um dia o então vice-reitor da Unisinos, Pe. Marcelo de Aquino, encontrou-me em Roma e perguntou porque eu não voltava para São Leopoldo. Era o ano de 2000. Eu ainda não havia feito a terceira provação. Escolhi São Leopoldo para fazê-la, no Cristo Rei. Lá trabalhei ajudando a selecionar os livros que deveriam vir para a Universidade. Esse foi o início daquilo que é o Memorial Jesuíta.

Memorial jesuíta - A partir de Roma preparei toda a documentação de comodato das obras raras que fazem parte do atual Memorial Jesuíta. Depois de defender a tese, voltei ao Brasil para iniciar minha carreira acadêmica. Hoje sou professor do curso de Pós-Graduação em História. Sou pesquisador em jesuítas na América Latina, especificamente no Brasil, na Amazônia. Em função da minha especialização trabalho bastante com paleografia, que é a leitura dos documentos antigos e medievais.

Leitura – Leio muito. Sinto falta dos originais que estavam à minha disposição em Roma. Havia fácil acesso às obras originais. Elas estavam “em casa”. Isso é bastante contrastante com nossa realidade, embora tenhamos uma boa biblioteca. Nesse sentido, a Internet ajuda muito.

Lazer - Gosto de andar de bicicleta. Quando morava em Roma, eu tinha uma “principessa”. Com ela, pedalava até 100km com meus companheiros, de um burgo a outro, aproveitado para conhecer melhor os lugares por onde passávamos. Fazíamos isso um dia por semana, ao longo de vários anos. Era revigorante física e mentalmente. No Brasil, não tenho feito mais isso. Outra grande alegria é ir ao shopping passear, olhar as vitrines. Interesso-me por tudo, observo tudo, sou muito detalhista. Como estão expostos os produtos nas vitrines, seus preços, cores, como as pessoas se comportam, se vestem, se comunicam. Isso suscita muitas reflexões e faz parte do processo de adaptação de retorno ao Brasil. Na Europa, por exemplo, é obrigatório colocar o preço em todos os produtos expostos. Se o valor for parcelado, é preciso colocar o valor real do produto. Aqui, nem sempre é assim. Eu fico impressionado com isso. Como também sou professor de Ética na Comunicação, essas idas ao shopping suscitam ideias para discussões em sala de aula.

Cozinhar - Gosto muito de estar em casa com meus irmãos e preparar um bom espaguete. Naturalmente, sempre sai alguma “briga” entre nós, pois há divergências entre os ingredientes e a preparação envolve todo um ritual. Esse sempre é um momento de confraternização. Cada um quer “meter a mão na massa”. No fim das contas, a receita acontece. Aos finais de semana, cuido de minha mãe, que tem 84 anos, fazendo um “revezamento” com minhas irmãs.

Vida Pastoral - Na Itália eu tinha uma rotina pastoral muito intensa. Era conhecido como confessor na Igreja del Gesu, por mais de 17 anos. É uma igreja especial, porque é central e a ela acorrem pessoas de todo o mundo e de todas as categorias sociais, em vários idiomas diferentes. Aqui a atividade pastoral que celebro se concentra em celebrações da eucaristia na Universidade e em Porto Alegre. É uma mudança radical, que também é estimulante.

IHU – O tipo de pastoral universitária que o IHU realiza é diferenciado: a nível de ideias, proposições, de diálogos difíceis, e às vezes até impossíveis. É uma pastoral universitária da Companhia moderna, dos nossos tempos. É um modelo de Instituto de diálogo entre fé e razão, entre ciência e humanística que, na Companhia atual, são poucos os institutos que chegam a esse nível. O tipo de reflexão e proposição dessas reflexões realmente é raro. Trata-se de um apostolado de ponta, modelo para outros setores da Igreja. Esse tipo de apostolado exige pessoas muito bem formadas para integrá-lo, seja em nível intelectual, teológico e cultural. O diálogo de saberes promovido pelo IHU é típico da Companhia de Jesus e é fundamental.

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