Edição 303 | 10 Agosto 2009

A depressão é uma questão ética?

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Márcia Junges

Exortação de gozar a qualquer preço, existente em larga escala atualmente, faz com que o sujeito em deficiência a essa prescrição se sinta doente, fora do padrão, deprimido, pontua Martine Lerude. O neoliberalismo oferece subterfúgios para resolver a contradição entre o ideal saído do protestantismo e a ideologia da vitimologia.

“A depressão levanta a questão da relação do desejo ao gozo numa sociedade que exalta os prazeres imediatos, destroçando ao mesmo tempo a dinâmica e a singularidade do desejo”, explica a psicanalista francesa Martine Lerude à IHU On-Line, na entrevista concedida por e-mail. Evocando ideias de seu conterrâneo Charles Melman, Lerude menciona a palavra de ordem atual de “desfrutar a todo preço”: “quem fica em deficiência em relação a esta prescrição pode experimentar-se como doente, como excluído de uma fruição generalizada”. Questionada sobre uma possível relação entre a proliferação da depressão e o discurso neoliberal, ela teoriza: “o ideal, saído do protestantismo, de um indivíduo responsável por seus atos, por sua existência, encontra-se em concorrência com a ideologia da vitimologia, do direito das vítimas que reina soberano sobre a sociedade europeia. Incitado pelo discurso social a se reconhecer como vítima, o indivíduo também deve obedecer às prescrições de bem-estar, de expansão e de gozo (...). O neoliberalismo produz objetos que vão resolver esta contradição: objetos interditos como as diferentes drogas, objetos permitidos e legais: os medicamentos”.

Psicanalista e psiquiatra membro da Association Lacanienne Internationale (ALI), Martine Lerude é uma das conferencistas de abertura do Colóquio Internacional A ética da psicanálise: Lacan estaria justificado em dizer “não cedas de teu desejo”? [ne cède pas sur ton désir]?. Sua palestra intitula-se A depressão é uma questão ética?

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Por que a depressão é considerada uma doença contemporânea?

Martine Lerude - Freud,  num texto de 1908, intitulado A moral sexual civilizada e a doença nervosa dos tempos modernos, já discutia algumas consequências da moral de seu tempo (caracterizadas pelos sacrifícios sexuais – com sua exigência da monogamia, por exemplo – que são impostos aos indivíduos pela civilização) sobre o que ele chamava a “doença nervosa moderna”. Ele citava, então, longamente um psiquiatra americano de nome Binswanger,  que, desde 1895, descrevia o que se chamava então “a neurastenia” como uma doença produzida pela rica sociedade dos Estados Unidos. Mas, para Freud, e é toda a sua demonstração, o fator sexual é essencial. Este termo de “neurastenia”, hoje em desuso, ainda era usado na França há 50 anos, para qualificar a depressão neurótica. Hoje a palavra “depressão” se tornou uma espécie de “significante válido para tudo”, da qual cada um se apropriou para dar conta, de maneira cômoda, de situações extremamente diversas que têm todas em comum um “mal-estar”, esse afeto de tristeza e de um cinzento permanente ligado a uma perda de desejo. Se vivemos numa sociedade, na qual, como diz C. Melman,  a palavra de ordem é “desfrutar a todo preço”, quem fica em deficiência em relação a esta prescrição pode experimentar-se como doente, como excluído de uma fruição generalizada. Isso, porém, não é tudo, pois a clínica nos mostra que, paradoxalmente, não basta responder a esta prescrição de desfrutar de múltiplos objetos oferecidos ao nosso consumo para não estar deprimido. A depressão levanta a questão da relação do desejo ao gozo numa sociedade que exalta os prazeres imediatos, destroçando ao mesmo tempo a dinâmica e a singularidade do desejo. A perda das grandes ideologias, a relação ao grande Outro completamente modificada pelas tecnociências, o discurso dominante (que seria necessário precisar) são outras tantas pistas a explorar, já que a subjetividade humana é indissociável da coletividade da cultura na qual ela se enraíza.

IHU On-Line - Quais são os elementos que a tornam tão corrente entre nós?

Martine Lerude - Em primeiro lugar, contrariamente à psicose, ou à esquizofrenia, a depressão não é uma doença vergonhosa: pode-se falar dela livremente, pois qualquer um entre nós está potencialmente ameaçado por ela. Com efeito, todas as perdas que a vida ocasiona podem legitimamente ocasionar afetos depressivos; ninguém está ao abrigo de um luto, de um divórcio, de uma separação, da perda de seu emprego, de um fracasso doloroso ou de uma doença grave... A depressão se inscreve, assim, legitimamente no fluxo de uma existência. Entretanto, “a depressão” é também uma palavra que pode ser utilizada para dar conta de episódios patológicos dos quais o paciente não quer ou não pode falar. Acontece, por exemplo, com frequência que pacientes que tiveram um momento delirante, falem dele dizendo “eu tive uma depressão”. Talvez ela seja hoje a maneira de expressar o que falha, o que vem causar obstáculo na existência, sem que o indivíduo tenha podido formulá-la de outra maneira. Em geral, desde que um paciente, vindo motivado por “depressão”, começa uma análise, não se pode mais classificar suas dificuldades sob este único título.

A depressão também tem seus títulos de nobreza: ela remete ao pecado de acedia e principalmente a esses gênios criadores devorados pelo sofrimento, e “a melancolia” de Dürer  é disso uma representação que não carece de grandeza. Embora a depressão também se defina por uma desvalorização, uma perda da autoestima, ela, paradoxalmente, é bem recebida na sociedade, porque ela não põe em causa a inteligência ou as capacidades do deprimido. Além disso, se a depressão pode ser uma experiência apavorante, se ela efetivamente pode conduzir alguns ao suicídio, ela não é, no entanto, uma doença fatal, inscrita nos genes ou nas condições sociais.

Na França, a depressão foi considerada como um problema de saúde pública, dando lugar a uma verdadeira campanha publicitária, organizada pelo Estado. O objetivo era o de distinguir a simples tristeza, bem normal, da “verdadeira depressão” que é preciso levar a sério e tratar. Tratava-se, ao mesmo tempo, de engajar a população no sentido de se cuidar ou curar (por medicamentos) e os médicos a não prescreverem abusivamente por sintomas que são meras flutuações normais do humor. O resultado foi a prescrição maciça de antidepressivos pelos generalistas. Não há um paciente realmente deprimido que não venha agora consultar um psicanalista sem que já não lhe tenham prescrito antidepressivos!

IHU On-Line - Como é que o discurso do neoliberalismo contribui para sedimentar e fazer proliferar a depressão?

Martine Lerude - Proporei algumas observações: o ideal, saído do protestantismo, de um indivíduo responsável por seus atos, por sua existência, encontra-se em concorrência com a ideologia da vitimologia, do direito das vítimas que reina soberano sobre a sociedade europeia. Incitado pelo discurso social a se reconhecer como vítima, o indivíduo também deve obedecer às prescrições de bem-estar, de expansão e de gozo (“é preciso estar de bem com a vida”, “é preciso expandir-se”, “é preciso aproveitar a vida”). O neoliberalismo produz objetos que vão resolver esta contradição: objetos interditos como as diferentes drogas, objetos permitidos e legais: os medicamentos. Em todos os casos, o indivíduo contemporâneo é chamado a consumir o remédio, seja ele legal ou não: o objeto está lá, no mercado, ao alcance das mãos!

IHU On-Line – É possível dizer que, sob alguns aspectos, a depressão é uma enfermidade ética?

Martine Lerude - Não creio que se possa dizer “enfermidade ética”. Os laboratórios farmacêuticos convenceram os médicos que a depressão era uma doença (eu não falo da psicose maníaco-depressiva, que é uma verdadeira doença psiquiátrica), a fim de fazê-los prescrever em massa moléculas as quais ninguém até hoje pode realmente dizer como funcionam. Sob cobertura da ciência, uma falsa ciência tem sido vendida pelos laboratórios: é uma operação de marketing mundialmente exitosa. A dimensão “ética” se refere à questão do desejo (eu falo do desejo inconsciente, que é preciso não confundir com o “querer” consciente) e ao que Lacan chama “a arte do bem dizer”. A arte do bem dizer (expressão forjada por Lacan a propósito da ética da psicanálise) refere-se não a um dizer que estaria bem, bem torneado ou que expressaria algum bem (por oposição a falar do mal), mas, a um dizer que se origina do real.

O que é um dizer que se origina do real? É uma palavra subjetivada, reconhecida como tal por aquele que a escuta e que tem o valor de enunciação para aquele que fala. O seu valor não está fundado no que é dito, no conteúdo ou no que aparece como realidade; não se trata de uma palavra que diria a verdade dos fatos, mas que se funda na verdade do sujeito. Seu valor se baseia no fato de que seu surgimento esteja em ligação direta com o que vem se colocar atravessado, o que falha, o que põe em jogo a dimensão do impossível, o non sense, o ponto de tropeço da linguagem. É por isso que a questão ética é colocada pela depressão, pois esta, a priori, não é da alçada da ordem da enunciação, mas de um enunciado que faria consenso.

IHU On-Line - A fórmula de Lacan: “não cedas do teu desejo” pode servir como uma ética para evitar a depressão?

Martine Lerude - Esta formulação de Lacan não pode ser isolada de toda a elaboração teórica que ele desenvolveu (em particular no seminário sobre a Ética) e, além disso, é muito problemático extraí-la de seu contexto. Esquecendo o contexto, ignorando o modo como Lacan foi levado a enunciar este fragmento de frase (pois a citação não é mesmo uma frase completa!), se faz uma asserção definitiva, uma espécie de verdade que seria boa para todos. O que é o contrário da ética da psicanálise, que é uma ética do “bem dizer”. A psicanálise não é uma prática prescritiva nem comportamentalista. O que os pacientes nos ensinam não pode ser tomado como uma regra de conduta ou como uma prescrição higiênica (como, por exemplo, escovar os dentes a cada anoitecer, para evitar as cáries e a periodontite), como regra à qual seria preciso obedecer para não cair enfermo. Se a questão do desejo está no cerne de toda cura analítica, para cada um ela vai adquirir expressões singulares, que se chamam sintomas. Resta saber se a depressão pode ser considerada como um sintoma no sentido analítico do termo.

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