Edição 303 | 10 Agosto 2009

O abismo entre a ética da psicanálise e o discurso ético universal

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Márcia Junges

Ética universal e ética da psicanálise são inconciliáveis, afirma o filósofo Ernildo Stein. Além disso, a ética da psicanálise não é a mesma ética do psicanalista. Não cedas do teu desejo é convite para “reconhecer as duas margens de um abismo atravessado pela fala”

“Em nossos dias, como em qualquer época, o falar que vem da outra margem atravessa o abismo e nos surpreende na margem de cá”. A afirmação é do filósofo Ernildo Stein, na entrevista, exclusiva, que concedeu por e-mail à IHU On-Line. Para ele, a ética da psicanálise e a universalidade do discurso ético não são conciliáveis. “A ética da psicanálise não é a ética do psicanalista. Ele que se avenha com os problemas que lhe causa seu ofício. A ética da psicanálise refere-se àquele sujeito que não deve ceder de seu desejo”. E complementa: “O outro sujeito não deve ceder daquilo que aparece na estrutura de sua linguagem, que se constitui do desejo”. 

Stein é graduado em Filosofia e Direito, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Cursou doutorado na mesma universidade, em Filosofia e pós-doutorado na Universität Erlangen-Nürnberg. Atualmente, é docente da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e membro do corpo editorial das publicações Reflexão, Problemata, Natureza Humana e Ágora. Publicou dezenas de livros, entre eles Seminário sobre a verdade: lições introdutórias para a leitura do parágrafo 44 de Ser e Tempo (Petrópolis: Vozes, 1993); A caminho de uma fundamentação pós-metafísica (Porto Alegre: EDIPUCRS, 1997), Diferença e metafísica (Porto Alegre: EDIPUCRS, 2000); Compreensão e finitude (Ijuí: Unijuí, 2001); Introdução ao pensamento de Martin Heidegger (Porto Alegre: EDIPUCRS, 2002); Mundo Vivido: Das vicissitudes e dos usos de um conceito da fenomenologia (Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004) e Seis estudos sobre Ser e Tempo (3. ed. Petrópolis: Vozes, 2005).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - O que Lacan quer dizer exatamente com “não cedas de teu desejo”?

Ernildo Stein- Na conferência Lugar, origem e fim do meu ensino, Lacan  afirma: “Se é no campo do Outro que se constitui o desejo, se ‘o desejo do homem é o desejo do Outro’, pode fazer-se necessário que seu desejo, o do homem, seja o seu próprio”.

Se a frase que aparece na pergunta se referir a esse campo do Outro, então, ceder de seu desejo seria abandonar esse campo e perder o que é próprio. O difícil é definir o que significa que o desejo seja próprio, pois, na medida em que o sujeito em Lacan é sempre um sujeito cindido, não sabemos a que lado da “divisão do sujeito” (Lacan) se refere esta espécie de comando. Essa é justamente a questão na qual se funda a própria idéia da psicanálise. “Digo que o sujeito, ao mesmo tempo em que é o sujeito, funciona como dividido. Aí reside, inclusive, todo o alcance do que instauro. Devo dizer-lhe que esta divisão do sujeito eu a consagro, denuncio, demonstro por outras vias que não esta, reduzida, de que me sirvo aqui, e que, aliás, não dá conta absolutamente da divisão em si. Eu precisaria ter feito algo cuja referência me proibi taxativamente de trazer esta noite, porque não se deve pensar que falei daquilo que, se me permitem, eu chamaria, para ir mais rápido, não apenas meu ensino, mas minha doutrina, e do que daí resultasse” (Lacan).

Depois dessa afirmação, Lacan acrescenta: “nessa divisão há um elemento causal que é o que chamo de objeto pequeno a. (...) Isso tem uma relação mais estreita com a estrutura do desejo” (Lacan). E o autor continua mais adiante: “Então, para dizer que esse sujeito era dividido, simplesmente indiquei suas duas posições em relação à função da linguagem. Nosso sujeito como tal é, o sujeito que fala, se quiser, pode muito bem reivindicar a primazia, mas nunca será possível considerá-lo pura e simplesmente livre iniciador de seu discurso, na medida em que, sendo dividido, está ligado a esse outro sujeito, que é o do inconsciente, e que se verifica ser dependente de uma outra estrutura linguageira. A descoberta do inconsciente é isso”.

Nisso que escutamos está resumida a questão implícita no comando “não cedas do teu desejo”. Poderia muito bem falar o primeiro sujeito e reivindicar a primazia. Entretanto, como ele está ligado a outro sujeito, o do inconsciente, ele está dependente da estrutura desse sujeito que se estrutura como linguagem. É a esse sujeito que se dirige o comando da frase acima. É ele que não deve ceder de seu desejo. A frase, portanto, quer dizer que o outro sujeito não deve ceder daquilo que aparece na estrutura de sua linguagem, que se constitui do desejo.

IHU On-Line - Por que esse enigma norteia o nome do Colóquio A Ética da Psicanálise? Qual é o objetivo dos debates que se seguirão?

Ernildo Stein- A ética da psicanálise não é a ética do psicanalista. Ele que se avenha com os problemas que lhe causa seu ofício. A ética da psicanálise refere-se àquele sujeito que não deve ceder de seu desejo. Talvez o psicanalista, sabendo dessa outra ética que se liga ao desejo, e que por isso é associada ao inconsciente estruturado como linguagem, deva apenas reconhecer e, digamos, respeitar essa ética do outro sujeito. Tem, portanto, importância saber que o psicanalista não desaparece do cotidiano de uma ética que não é a ética do desejo. O analista, portanto, se confronta com duas éticas.
 
IHU On-Line - Em que sentido esse é um enunciado bifronte?

Ernildo Stein- “Não cedas de teu desejo” ainda que se dirija a outro sujeito - aquele do desejo, como movimento do inconsciente, sempre está em luta com o primeiro sujeito, aquele que “pode muito bem reivindicar a primazia”, mas nunca é livre iniciador de seu discurso, porque está ligado ao outro sujeito. Disso nasce a condição ambivalente do enunciado. Como nele se esconde “o quando falas” desde o lugar do inconsciente, é aí que está a iniciativa que o primeiro discurso quer desconhecer.

IHU On-Line - Como o desejo se expressa na fala de nós, pós-modernos?

Ernildo Stein- O desejo que atravessa o outro sujeito estará sempre na fala do homem, pois o inconsciente não tem tempo. Quando o desejo fala, podem mudar as condições em que o primeiro sujeito fala - como o antigo, o moderno, o pós-moderno. O desejo, no entanto, movimenta-se sempre no presente, no atual, no seu tempo. Ele não se transforma naquilo que é o seu comando. Ele é sempre do outro sujeito, sempre atual. Suas modulações não seguem a conjugação de qualquer verbo.

IHU On-Line - Conseguimos, efetivamente, “falar” em nossos dias? Por quê? E em que aspectos nossa fala é um sintoma do tipo de sociedade em que vivemos?

Ernildo Stein- Em nossos dias, como em qualquer época, o falar que vem da outra margem atravessa o abismo e nos surpreende na margem de cá. Como o desejo do outro se manifesta numa outra estrutura “linguageira”, que é a estrutura do inconsciente, ele é sempre novo, ele não passa, porque ele repete, “re-pede”, não cessa de ser sempre novo. Portanto, “falar” é sempre em nossos dias. E ele não tem motivo, porque nele retorna o recalcado, pelo qual somos sempre visitados no sintoma. Portanto, o falar que vem da outra margem não se amarra a nenhum tipo de sociedade. Ele nunca é sintoma de. É apenas sintoma. Nós inventamos coisas como o sintoma social, ou o sintoma de uma sociedade em que vivemos. Entretanto, o movimento, na linguagem do comando do desejo, é apenas e sempre a repetição - um “re-pedir”, pedir de novo que não cessa.  

IHU On-Line - Atualmente, como é possível sustentar essa nossa fala, e não abrirmos mão de nosso desejo?

Ernildo Stein- Eu deveria ter dito em algum momento que nós nunca cedemos de nosso desejo, aliás, a iniciativa é sempre dele. Não falaríamos se ele não tomasse a iniciativa, porque somente falamos quando fala o desejo da outra margem, o desejo do outro. Somos divididos por um acontecimento que nunca será recuperado em sua plenitude. Sempre estaremos em falta, e por isso falamos e o desejo fala, para que possamos falar. E agora.

IHU On-Line - No cenário pós-moderno, como podemos compreender a responsabilidade do sujeito ante sua fala, e a falta de sustentação que muitas vezes se configura no discurso?

Ernildo Stein- Lacan nos disse acima algumas coisas sobre um sujeito cindido, sobre dois sujeitos. Portanto, o sujeito não tem responsabilidade neutra dentro de algo, nem da fala. Ele sempre deve ser flagrado desde o lado de onde se fala. A psicanálise deveria aprender ela mesma que pode ser vítima de muitas armadilhas, inclusive aquela de mudar a sociedade. A sociedade será mudada, ou não, quando o sujeito cindido sai do “duplo monólogo” (Lacan) e não cede de seu desejo, o que quer dizer, que reconheça o enunciado de um comando. O desejo que, desde a outra margem, toma a iniciativa, como iniciador de um discurso que fala pelo retorno do recalcado no sintoma, escutado pelo “sujeito - suposto-saber”. Portanto, temos de reconhecer que muitas vezes o outro sujeito, que é o do inconsciente, pode ser passado por alto no discurso do primeiro sujeito que se pensa livre iniciador. Talvez aí tivéssemos uma falta de sustentação do discurso desse sujeito que fala, reivindicando uma primazia que é usurpada. Teríamos assim um discurso que não concorda com aquilo que Lacan cita de Heidegger : “O homem habita a linguagem”. E Lacan continua: “Isso quer dizer que a linguagem está aí antes do homem, o que é evidente. Não apenas o homem nasce na linguagem exatamente como nasce no mundo, como também nasce pela linguagem”.

IHU On-Line - Como é possível conciliar a subjetividade da psicanálise com a universalidade de um discurso ético?

Ernildo Stein- Todo o desenvolvimento de minhas respostas mostra o caráter inconciliável entre a ética da psicanálise, isto é, a fala do outro sujeito, com qualquer universalidade de discurso ético, no qual se movimenta qualquer ser humano, mesmo o psicanalista. “Não cedas de teu desejo” nos convida, portanto, a reconhecer as duas margens de um abismo atravessado pela fala.

É inegável que no enunciado “não cedas de teu desejo”, este que nasce na outra margem remete ao desejo que vem do Outro, do sujeito que tem a iniciativa e, por isso, esconde o enunciado de um comando. Não se pode confundir esse comando com uma vontade geral, ou com um imperativo, que estaria ligado a um discurso ético. Ainda que não possamos falar de uma subjetividade da psicanálise, o não ceder quando fala o desejo nasce da singularidade, portanto, de algo que está situado além de minha vontade. Esta recebe o enunciado de um comando, enquanto a ética (de ethos, com eta, e não de ethos com epsilon) daquele que fala se refere ao lugar em que algo caiu e retorna, onde se situa morada do desejo. Não precisamos insistir que o desejo sempre fala, mesmo quando não é escutado. Por isso falo que o “não cedas” e o “de teu desejo” se separam pelo abismo da fala. A metáfora que exprime isso pode ser encontrada na seguinte afirmação: “São vizinhos, mas habitam em montanhas separadas”.

Leia mais...

>> Confira outras entrevistas concedidas por Ernildo Stein ao IHU

• A superação da metafísica e o fim das verdades eternas. IHU On-Line número 185, de 19-06-2006;

• Depois de Hegel: “o mais original diálogo entre Filosofia analítica e dialética”. IHU On-Line número 261, de 08-06-2008. 

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