Edição 301 | 20 Julho 2009

IHU Repórter - Bruno Lima Rocha

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Graziela Wolfart e Patrícia Fachin

Ele gosta de explicar os termos nos mínimos detalhes e busca as respostas dos fatos nas raízes mais profundas da história. Desde a juventude, sua vida já mudou muito, mas ele ainda carrega a militância e o desejo de lutar por um mundo melhor. Jornalista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), além de docente na Unisinos, Bruno é engajado com movimento de rádios comunitárias, dedica-se a fazer análise política e sonha retomar a tradição do jornal como forma de denúncia e interpretação das realidades, praticando um “jornalismo de esquerda de alto nível e apelo popular”. Confira.

Origens – Nasci em 14 de julho de 1972, no Rio de Janeiro. Minha mãe se formou em Comunicação com múltipla habilitação, na PUC-Rio, e meu pai estudou Economia, mas na prática sempre atuou no mercado de capitais, na Bolsa de Valores. Eles se separaram cedo, então, convivi minha infância em uma família ampliada com mãe, avó, bisavó e dois tios. Tenho mais dois irmãos por parte de pai.

Infância – Venho de uma família de classe média, da zona sul da cidade do Rio de Janeiro. Estudei em escola particular até ingressar na universidade. O hábito de estudar vinha junto com o ato de controle que a família exercia. Quando era criança tinha uma rotina definida: de manhã praticava esportes ou inglês, à tarde ia à escola, e no fim do dia fazia o tema de casa. Enquanto isso durou, fui um excelente aluno. Depois, comecei a ter outros interesses e deixei os estudos de lado. Lia diversos livros durante as aulas, e dava pouca importância ao estudo formal. Hoje, vejo que isso foi um erro.

Faculdade – Prestei vestibular para Comunicação Social – Habilitação Jornalismo, na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói (RJ). O curso inteiro durou, teoricamente, cinco anos, mas fiz uma série de opções que me fizeram sair muito tarde da universidade. Ingressei com 17 anos, e fui muito bem até o terceiro semestre. Nesse período, participei da primeira gestão da Executiva de área, ainda tinha outra sigla, e que veio a se transformar na Executiva Nacional de Estudantes de Comunicação Social (Enecos). Quando perdi o interesse no curso me matriculei em poucas disciplinas e parei de estudar por dois semestres. Queria trabalhar de qualquer jeito. Então, participei de uma seleção de Iniciação Cientifica na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na linha de estudos negros. Por sorte, já tinha familiaridade com o assunto, pois, por uma opção política, estava colaborando com o Jornal Maioria Falante, um veículo da esquerda do movimento negro do Rio de Janeiro. Entrei num dilema ético profundo: faço ou não a prova? Será que é justo ou não? Os colegas do jornal me apoiaram, fiz o concurso e fui aprovado. Comecei a atuar nesse meio em 1993 e consegui transferência da graduação para a UFRJ, também mediante concurso. Fiquei lá durante um ano. Quando faltavam apenas oito disciplinas para concluir o curso, desisti da faculdade para cair no mundo. Tinha amigos que moravam no Uruguai e me mudei para Montevidéu. Trabalhei lá como tradutor autônomo, com alguma regularidade, porque prestava serviço a uma empresa de importação e exportação de madeira. Isso me possibilitou viver no Uruguai, conhecer o Rio Grande do Sul – vinha para o estado a trabalho – e viajar pela Argentina. Numa dessas viagens, conheci a minha esposa, Cândida. Fui a Rio Grande e ela estava cursando o primeiro ano de medicina na Fundação Universidade Federal do Rio Grande (Furg). Um ano depois fomos morar juntos.

Mudanças – Desde que começou o Mercosul, o parque industrial brasileiro e chinês desmontaram várias cadeias produtivas, gerando desemprego em massa nos países do Cone Sul. A empresa em que trabalhava fechou e fui demitido. Decidi voltar para o Rio de Janeiro, e passei a trabalhar novamente como tradutor autônomo e a morar na casa de meus avôs. Também fui professor de espanhol, sem sucesso, pois aprendi o idioma falando, cheio de gírias, e só depois comecei a escrever. Mais tarde, consegui trabalhar no setor comercial de uma empresa de vigilância eletrônica. A experiência foi ótima e me motivou retomar os estudos. Consegui reabrir minha matrícula na UFRJ e tentei me transferir internamente para as Ciências Sociais. A prova de seleção era numa segunda-feira, mas na sexta-feira anterior bati o carro do meu tio, perdi toda vontade de estudar para o exame e resolvi finalizar o curso. Estava no último semestre do curso, quando em 2001, ocorreu a segunda greve das universidades federais no governo Fernando Henrique (a primeira foi em 1998). Com essa greve de quase quatro meses, me concentrei na monografia, analisando a privatização do Sistema Telebrás e a cobertura da revista Época sobre o episódio conhecido como O Grampo do BNDES. Assim, quase formado, consegui desenvolver um trabalho que deu continuidade ao mestrado. Ao me formar, com 30 anos de idade e basicamente autodidata, não poderia mais atuar como foca (jornalista recém-formado), também não queria amargar em assessoria de imprensa de movimento ou sindicato. O jeito de salvar minha carreira era seguir na academia.

Mestrado – Fiz seleção de mestrado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) para Ciência Política, em 2002 e em seguida também cursei o doutorado. Como fui bolsista da CAPES durante toda a pós-graduação, pude me dedicar com tranquilidade. Aluguei uma casa em Viamão, na Vila Isabel, ao lado do campus. Em 2005, minha esposa mudou para a cidade, quando passou na sua segunda residência, em Infectologia no Hospital São Lucas da PUC. Hoje ela também é infectologista do Hospital Conceição e responsável pela rotina da UTI do hospital de Viamão.

Durante o curso de pós-graduação, não me deparei com nenhuma matriz explicativa e nem base epistemológica que desse conta das questões que eu queria debater. Troquei de orientador no doutorado. Ele me liberou para fazer algo que é raro: uma tese teórica, e na ausência de teoria satisfatória, montar uma nova teoria. Demorei um ano para concluir a tese. A defesa aconteceu em março de 2009.

Trabalho com rádios comunitárias – Mais uma vez o acaso bateu na porta. Quando me formei em Jornalismo, coloquei na minha cabeça que não queria nada com comunicação, apenas consumiria informação. Um amigo meu, que era religioso da pastoral social no bairro onde moro, me convidou a participar da programação da rádio Santa Isabel FM. Aceitei e, pouco depois, passei também a participar da Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária (Abraço).

Docência - A história da Unisinos começou por acaso. Meu amigo Adilson Cabral, professor da UFF, me convidou para participar do Congresso da Alaic (Asociación Latinoamericana de Investigadores de la Comunicación), na Unisinos. Nesse evento, conheci o professor Valério Brittos e em janeiro de 2007, formalizei a entrada no grupo Cepos (Grupo de Pesquisa Comunicação, Economia Política e Sociedade). Quando abriu uma seleção externa na universidade, na área de rádio, o Valério me avisou. Fui aprovado para o cadastro de reserva. Nessa época, participava de rádios comunitárias há três anos e já estava na coordenação estadual da Abraço-RS. Quando fiz pós em política, não queria sair da área, mas a mosca da comunicação me pegou. Iniciei nesta universidade ministrando um curso de extensão que vai para sua quarta edição, no segundo semestre de 2009. Sempre através do Cepos, comecei em dezembro passado a trabalhar como pesquisador, hoje cumprindo 20 horas. Neste projeto, desenvolvemos uma pesquisa de convergência digital, com trabalho de campo na Feitoria. Por outra coincidência, com a saída de uma professora do curso de comunicação com o semestre já em andamento, me chamaram para dar aula em duas disciplinas.

Filhos – Tenho um filho que nasceu no ano passado, e se chama João Camilo. Minha esposa está grávida novamente, vai nascer, na primeira semana de dezembro, uma menina. Ser pai é tirar o pé do acelerador na hora de dirigir, ficar preocupado com tudo, passar a valorizar o tempo livre e especialmente os domingos.

Livro – Gosto de muitos, mas cito Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. 

FilmeA batalha de Argel, do italiano Gillo Pontecorvo

Hobby – Embora esteja fora de forma, tenho grau de professor em uma arte marcial tradicional chinesa (Xing Yi). Quando posso, gosto de me reunir com meus alunos e treinar. A escola de luta a que pertenço, durante muito tempo, viveu para desmistificar os mitos, provando na técnica a diferença entre a arte e a fantasia. As aulas são um trabalho comunitário na vila, e no começo, eram ligadas à Pastoral Social.

Política – Fazer política é algo fascinante, é viver a polis, se envolver com os problemas coletivos. Mas a “polititica” é outra coisa. A única novidade que temos na política profissional brasileira é um governo com trajetória de esquerda que governa por uma linha de direita. A variável que faz a gente ficar “escandalizado” é a publicidade, quer dizer, nós estamos um pouco mais informados. A tradição política da elite política brasileira, magistralmente registrada por Raymundo Faoro em Os donos do poder, não difere em quase nada do que a gente vive hoje e acompanha pela mídia eletrônica.

Sonhos – Tenho muitos. Ainda quero participar de um grande semanário de esquerda na Região Metropolitana, retomando a tradição da imprensa alternativa dos anos 1970. Temos de voltar a praticar um jornalismo de esquerda, de alto nível e apelo popular, tanto como forma de denúncia como de interpretação das realidades.

Valores para os filhos – Quero ensiná-los a praticar a humildade, a modéstia de igual para igual, e ser impetuoso e até agressivo com quem detém uma posição de poder, com quem oprime. Eu adoraria ser chamado na escola do João Camilo porque ele brigou para defender um amigo mais fraco. Outra coisa importante é não ter medo de se doar, de dedicar o tempo da vida privada para causas coletivas.

Unisinos – É uma instituição que tem extremos. Temos na Unisinos desde um lugar como o IHU, e ao mesmo tempo, alunos que não entendem o que é uma universidade, que desejam se formar o mais rápido possível, que se deparam com a pressão da família e do mercado de trabalho. Solucionar essa equação talvez seja o que eu, com apenas seis meses de casa, veja como um desafio para toda a universidade.

IHU – O IHU foi uma grata surpresa. Conhecia o Instituto através do site. Vejo o IHU como um canhão, um centro difusor de ideias que rema contra a maré. Esse Instituto tinha que ser rota de passagem para todo aluno da Unisinos. É com satisfação que contribuo, semanalmente, com dois artigos nas Notícias do Dia, publicadas no site do IHU. Às segundas-feiras, o artigo é de análise política conjuntural. Às quintas, faço um artigo de análise sócio-política, de corte mais teórico.

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