Edição 301 | 20 Julho 2009

O futuro da autonomia: uma sociedade de indivíduos?

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Márcia Junges

O futuro da autonomia: uma sociedade de indivíduos? (Rio de Janeiro: Editora PUC-Rio; São Leopoldo: Editora Unisinos, 2009)

Nós, homens e mulheres pós-modernos, vivemos um paradoxo. Ao mesmo tempo em que podemos construir nossa subjetividade enquanto sujeitos autônomos, amparados por uma fundamentação kantiana, aprofundamos o abismo do individualismo com as heteronomias de um agir voltado para uma ética particular, que desconsidera o Outro, a alteridade. Vivemos o aqui e o agora. Queremos benefícios só para nós. Não pensamos naquele que está tão perto e tão longe da nossa existência, separado por grades, pela fome, pela exclusão. Somos os precursores de uma sociedade de indivíduos? Incorporamos a idéia de multidão solitária, de David Riesman? Seria a autonomia uma ilusão, como sustenta o filósofo brasileiro Marcelo Dascal? Outras perguntas são igualmente inquietantes: Para onde caminha a religião nesses tempos de secularização crescente? Qual é o sentido de Deus na sociedade niilista que vivemos? Como conciliar ética e autonomia? Quais são as raízes da autonomia individualista atual? Como o declínio da autoridade paterna, estatal e divina se conecta com esse delírio de que tudo podemos e nada devemos? A tão festejada individualidade se transmutou em individualismo, fruto da exacerbação da técnica e da falsa noção de que desvendamos todos os por quês e o mistério da vida?

O Simpósio Internacional O futuro da autonomia: uma sociedade de indivíduos? discutiu todas essas e inúmeras outras questões. Promovido pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos - Unisinos e pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC-Rio, sob a coordenação do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, aconteceu de 21 a 24 de maio de 2007, no campus da Unisinos. A coletânea das ideias de vários de seus conferencistas acaba de ser publicada: O futuro da autonomia: uma sociedade de indivíduos? (Rio de Janeiro: Editora PUC-Rio; São Leopoldo: Editora Unisinos, 2009), organizada pelos pesquisadores Inácio Neutzling (IHU), Maria Clara Bingemer (PUC-Rio) e Eliana Yunes (PUC-Rio).

O poeta e jornalista Affonso Romano de Sant’Anna fala sobre a autonomia do sujeito na arte, e o psicanalista Benilton Bezerra Jr. participa com o artigo Retraimento da autonomia e patologia da ação: a distimia como sintoma social. Os desafios e prospectivas que surgem a partir dessa sociedade de indivíduos é o tema de reflexão do psicanalista francês Charles Melman, enquanto seu conterrâneo Gilles Lipovetsky, filósofo, discute o futuro da autonomia em nossa época. Jean-Claude Monod, também filósofo francês, analisa a secularização da secularização nesse contexto pós-moderno, e o filósofo jesuíta Paul Valadier conecta a autonomia do indivíduo com a política e o niilismo, realizando uma leitura filosófica e teológica. Robert Castel, sociólogo francês, propõe uma leitura sociológica sobre o tema, ao passo que Santiago Zabala, a partir de uma perspectiva alicerçada em Gianni Vattimo, de quem é discípulo intelectual, examina a constituição autônoma do Übermensch, tomando em consideração o conceito de pensamento fraco.

Uma leitura instigante e que nos convida a refletir sobre os rumos que tomamos enquanto sociedade.

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