Edição 301 | 20 Julho 2009

Divina Comédia. A relação entre poesia e Deus

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Patricia Fachin | Tradução Francisco Taborda

A poesia é uma linguagem que ocupa lugar importante na Teologia, afirma Massimo Pampaloni. Para ele, a poesia de Dante Alighieri é um bom exemplo para levar Deus ao coração dos homens

A poesia é um dos instrumentos mais antigos utilizados pelo homem para se comunicar com Deus. Segundo o jesuíta italiano Massimo Pampaloni, nascido em Firenze, “ a relação entre poesia e Deus é buscada por causa da dificuldade de expressar em linguagem (...) que se encontra ‘além’ da experiência direta de nossos intelectos, ou seja, Deus em si”. Na entrevista que segue, concedida por e-mail à IHU On-Line, Pampaloni analisa a Divina Comédia, do escritor florentino Dante Alighieri, como exemplo de obra literária que propõe o contato com o Divino. “No Inferno, Dante nos apresenta uma profunda verdade espiritual: sem Deus o homem não alcança sua plenitude e a realização plena daquilo que ele é”, assegura.

Depois de estudar Teologia no Brasil, no Centro de Estudos Superiores da Companhia de Jesus, em Belo Horizonte, Massimo Pampaloni cursou mestrado e doutorado em Ciências Eclesiásticas Orientais no Pontifício Instituto Oriental de Roma, onde atua como docente. Atualmente, também é professor de História da Igreja Antiga e Teologia Patrística na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), em Belo Horizonte.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Que relações o senhor aponta entre Teologia e Literatura? Em que medida a Literatura expressa “um novo olhar” sobre a concepção do Divino?

Massimo Pampaloni - O que se deveria dizer no tocante à “Literatura”, sobretudo referindo-se à prosa, no que respeita as suas relações com a Teologia, é vasto demais. Já que o argumento de nosso diálogo é a Divina Comédia, uma obra em versos, proponho limitar-me à poesia e reformular, portanto, a pergunta restringindo-a à relação entre Teologia e poesia.

Mais que “um novo olhar” sobre a concepção de Deus, diria que a poesia apresenta um antigo olhar. De fato, não é novidade o uso da poesia em Teologia. Antes, se quiséssemos ser precisos, poderíamos dizer que a poesia é o modo primeiro e mais antigo que o homem usou para falar de Deus: mesmo que nos restrinjamos às raízes de nossa cultura ocidental, pensemos em Homero  ou em Hesíodo  (textos religiosos para os gregos da Antiguidade); ou então, no âmbito judeu-cristão, nos Salmos, nos livros sapienciais (o Cântico dos Cânticos, por exemplo) ou em partes dos livros proféticos.

No âmbito cristão, além de ser uma expressão da própria relação com Deus, a poesia se tornou um modo de falar de Deus no cristianismo de origem siríaca: pensemos nos grandes poetas-teólogos, como Efrém de Nísibis († 373), Tiago de Sarug († 521) ou Narsai de Edessa († 503); ou ainda na tradição hinográfica grega litúrgica que vê em Romano Melodo († 556), sírio de cultura grega, seu representante mais genial. No Ocidente, a tradição poética na Teologia e liturgia foi mais lenta para afirmar-se, mas ainda hoje rezamos com maravilhosos hinos de Ambrósio de Milão  († 397), verdadeiras sínteses de Teologia. Mas a figura-chave, verdadeiramente grandiosa, é a de Aurélio Prudêncio Clemente († depois de 405). Prudêncio foi um verdadeiro renovador da linguagem teológica e, em certo sentido, um dos verdadeiros “precursores” do próprio Dante.

Em todos esses autores, a relação entre poesia e Deus é buscada por causa da dificuldade de expressar em linguagem humana o que implode nossa linguagem, o que se encontra “além” da experiência direta de nosso intelecto, ou seja, Deus em si. Escoto Eriúgena,  o misterioso e genial monge irlandês do séc. IX, chegou a comparar a Teologia a uma poetisa, que usa imagens para adaptar a mensagem da Sagrada Escritura à capacidade limitada de nosso intelecto no tocante às coisas de Deus.

IHU On-Line – A criatividade poética pode ser considerada o ápice para compreender a essência do Divino? Por quê?

Massimo Pampaloni - Dizia antes da dificuldade que a linguagem encontra para expressar o que, por sua natureza, é inefável e que, por essa razão, recorre à poesia. Mas a criatividade poética não permitirá jamais compreender a essência do divino, enquanto esta é diretamente inatingível pelo homem.

O que autoriza, então, a poesia a pensar poder superar, de algum modo, esta dificuldade? Creio que, sobretudo, a analogia estrutural entre a linguagem poética e a das imagens do mundo bíblico e, especificamente, evangélico, que podemos aplicar, por exemplo, também aos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola  († 1556). Estas linguagens, para dizer com Ricoeur,  “redescrevem” a existência humana, têm o poder de provocar uma reestruturação dos horizontes interpretativos da realidade da pessoa, instigando a uma mudança espiritual e moral. No fundo, é também o objetivo da Divina Comédia.

Mas outro aspecto, ligado a esta capacidade de transformação interior do leitor em vista de sua conversão a Deus reconhecida à poesia teológica, é o da epifania do verdadeiro e do divino por meio da beleza, mediante a qual, para dizê-lo com von Balthasar,  o Todo se oferece no fragmento. Reencontramos aqui, entre outras coisas, a importância da analogia entis, base da possibilidade de tudo o que estamos dizendo, demasiado apressadamente deixada de lado pelos teólogos contemporâneos. Não sei se é correto dizer que a poesia é “um ápice” da linguagem teológica; diria antes que é uma linguagem que tem seu lugar importante na Teologia, contanto que se tenha em conta sempre a complexidade da questão de expressar-se ligada aos diversos níveis em que se fala de Deus. Quer dizer que a poesia não substitui, por certo, o discurso teológico clássico, como quereria talvez uma interpretação superficial, preguiçosa e ignorante do papel da poesia em Teologia.

IHU On-Line - Em que sentido A Divina Comédia pode ser vista como um relato do desejo de ver a Deus?

Massimo Pampaloni - Dante escreve seu poema, enquadrando-o na metáfora da viagem. A viagem retorna frequentemente nas raízes de nossa cultura ocidental: pensemos em Ulisses ou em Enéias e em tudo aquilo que subjazia ao impulso de navegar e ir “além” dos limites costumeiros, que levou as antigas civilizações a expandirem-se por meio de colônias. Refiro-me, para limitar-me à origem do Ocidente, aos gregos, fenícios e cartagineses. É interessante notar aquilo que incita a pôr-se em viagem: excitação, desejo de novos conhecimentos, de novos espaços.

No caso de Dante, temos como “motor” a própria Graça de Deus. Dante se encontrava realmente numa situação existencial desesperada; a descrição de sua vida no Canto I do Inferno é, sim, uma alegoria, mas que se refere a uma percepção real de si mesmo naquele momento. Dante, com suas forças, não consegue sair da “selva escura” moral e existencial em que havia caído. E eis que lhe vem Virgílio ao encontro. Mas Virgílio foi enviado por Beatriz, que foi avisada por Santa Luzia que, por sua vez, foi enviada pela Virgem Maria. Com a imagem poética desta “cadeia” feminina, canal de Graça e operação de resgate no sentido verdadeiro e próprio da expressão, Dante nos diz que a iniciativa da viagem é de Deus, que seu caminhar rumo à salvação, é, em realidade, um responder, um escutar o desejo mais profundo que vive no coração humano, precisamente o da visio Dei, a visão de Deus. Tal desejo é posto por Deus mesmo no coração humano, como Agostinho recorda na sua estupenda expressão inquietum est cor nostrum donec requiescat in te, inquieto está nosso coração enquanto não repousa em Ti.

IHU On-Line - Como Dante percebe Deus na Divina Comédia? Para o senhor, na obra, o autor expressa seu desejo pessoal de ver Deus?

Massimo Pampaloni - Dante é um homem do florescimento esplêndido da civilização medieval. A ideia de que a Idade Média foi uma época de trevas e de obscurantismo é uma das enormes tolices em que jamais a burrice humana acreditou e continua acreditando.  Dante representa um dos vértices da singular integração entre a exaltação da importância do indivíduo na sua realidade histórica concreta e o profundo senso de ordem que o universo, físico e espiritual recebe pelo fato de ter sido criado por Deus. Consequentemente, Dante não tem uma ideia “sua” de Deus, como nós, pós-modernos fragmentados, pretenderíamos, no sentido de “cada um tem sua ideia”. Dante exprime a ideia de Deus como aparece a partir da síntese vital entre Escritura, Filosofia, Arte, Teologia, expressa em seu tempo. Quando digo “de seu tempo”, não entendo como poderia ser compreendido por uma cabeça contaminada pelo historicismo ou desconstrucionismo, que seja “válida para seu tempo e pronto”, senão uma síntese poderosa, cuja validade está viva ainda hoje, embora se expresse em outras categorias. Pois um dos “mistérios” de Dante é este: embora as expressões históricas dentro das quais Dante vivia e atuava não existam mais (não há mais um Arrigo VII tão importante para sua concepção política; não há mais a christianitas dentro da qual se autocompreendia o homem medieval entre o século XIII e o século XIV etc.), os valores sobre os quais tudo isso se fundamentava, existem ainda e são patrimônio universal. Como escreveu uma das maiores dantistas vivas, Annamaria Chiavacci Leonardi (a quem sou devedor do amor e da prospectiva com que li Dante nestes anos), “a poesia de Dante, diferentemente dos tratados, colhe e trama não a letra, mas o espírito profundo daquela cultura na qual o Ocidente ainda atinge – também sem sabê-lo – as razões interiores de seu próprio existir. O valor primário e intangível da pessoa – da qual decorrem todos os outros: a fidelidade, a piedade, o perdão, o direito à liberdade, os “direitos humanos”, com se costuma dizer –, valor sobre o qual se funda hoje todo aspecto do viver civil, é, na realidade, o que está no centro do cristianismo, e que é igualmente o núcleo inspirador de toda a obra de Dante”. Enquanto existirem esses valores, será possível ler, compreender e amar Dante. Portanto, a concepção de Deus, expressa por Dante na Divina Comédia, é a concepção cristã de Deus, segundo a síntese do período áureo da Idade Média.

Se é verdade que a concepção dantesca de Deus é a do Deus cristão, é verdade também que a Comédia é a expressão de um desejo pessoal. Também aqui não é só o “pessoal” de Dante, mas de todo homem. Foi observado que, em certo sentido, Dante se põe quase como um profeta. O caminho movido pelo desejo profundo de Deus, que Dante indica na Comédia, não só ele o percorreu pessoalmente, mas o indica também a todo homem, como admoestação a sacudir de si o torpor espiritual do pecado e pôr-se em movimento para alcançar Deus, cumprindo assim seu telos mais profundo.

IHU On-Line - De que maneira Dante apresenta o Inferno, o Purgatório e o Paraíso em sua obra?

Massimo Pampaloni - Dante imagina sua viagem através desses momentos, a cada um dos quais dedica um cântico. Mas esses três reinos ultraterrenos representam também as condições do humano. Por essa razão, lendo Dante, não é preciso esquecer que o objetivo do poeta florentino não é o de “informar-nos” sobre o que encontraremos no além, e sim indicar-nos um itinerário para ler nossa vida, baseados na centralidade da relação entre o homem e Deus.

No Inferno, Dante nos apresenta uma profunda verdade espiritual: sem Deus o homem não alcança sua plenitude e a realização plena daquilo que ele é. O Inferno é representado com uma topografia que classifica os pecados segundo uma graduação moral, que se inspira muito em Aristóteles,  embora não seja uma simples tradução dele em imagens. O Inferno é como um funil, uma profunda voragem dividida em nove círculos, onde os pecadores são punidos por seu pecado “principal”, aquele pelo qual se afastaram para sempre de Deus, em graduação de gravidade crescente com o descer, e em cujo centro mais fundo está Lúcifer. No Inferno, Dante descreve personalidades excelentes, de grande vigor, também com qualidades não negligenciáveis. Pensemos em Pier delle Vigne, apresentado por Dante como fidelíssimo servidor do Imperador Frederico II. Vítima da inveja de outros cortesãos, foi aprisionado por ele e, não suportando o desdém, suicidou-se. Uma vítima inocente, portanto; fidelíssimo e injustamente acusado. Mas, cometendo suicídio, quer “autossalvar-se”, ou seja, deixar de lado Deus. Assim como o grande coração de Farinata degli Uberti, ou ainda a doçura de Francesca da Rimini.  Todas essas grandes figuras são admiradas por Dante. Ele até mesmo se comove diante delas. Mas todos eternizaram sua opção de autossalvação, tornando vãs as grandes qualidades que também lhe são reconhecidas, ficando para sempre aquém daquela realização da natureza humana que é o próprio Deus. Portanto, o Inferno representa uma admoestação contínua à renúncia a essa loucura de prescindir de Deus.

Purgatório

O Purgatório é representado como um monte. Subindo-o a alma se purifica pouco a pouco dos pecados que cometeu em sua vida; subindo cada “patamar” a alma é purificada dos pecados específicos daquele patamar e a escala vai dos mais graves, passo a passo, aos mais leves, com topografia contrária à do Inferno. A atmosfera é de grande doçura, porque, embora as almas devam purificar-se, sabem que sobem rumo ao Paraíso. Um só gesto na vida, quem sabe no último momento como Buonconte di Montefeltro, tem um valor eterno. É o cântico que mais se assemelha à nossa vida, porque é o único em que há um movimento de transformação, e mque as almas progridem, e mque se muda o próprio estado. A mensagem do Purgatório é que, assim como não são as qualidade humanas que salvam o homem (como vimos no Inferno, onde Dante põe até mesmo vários papas), não é a gravidade ou a vastidão da perversão dos próprios pecados que o condena. Um exemplo é Manfredi – que morreu excomungado, mas que Dante põe no Purgatório; ou o já citado Buonconte. Realmente, um só gesto de piedade, tradicionalmente atribuído ao imperador Trajano,  é suficiente para Dante para que este pagão esteja no Purgatório. Enfim, o que faz a diferença é o maior ou menor direcionamento a Deus do coração da pessoa.

Paraíso

Com o Paraíso tem-se um contraste, sublinhado também pelo expediente narrativo, como faz notar Chiavacci Leonardi, de não pô-lo sobre a terra, como o Inferno e o Purgatório, mas no céu. Aqui tudo é luz e paz, alegria profunda, uma completa harmonia com a vontade de Deus, permeados pela caridade. Os bem-aventurados não são visíveis, são fagulhas que se acendem com uma luz mais intensa quando podem ajudar Dante (o fogo da caridade que as inflama; assim como outras virtudes, a humildade e a caridade, por exemplo: o dominicano Santo Tomás tece louvores a São Francisco de Assis, o franciscano São Boaventura louva São Domingos), e as histórias humanas individuais concretas de cada uma das almas – bem destacadas no Inferno, mais descoloridas no Purgatório, mas de qualquer modo à base do relato de Dante – aqui se tornam raríssimas. Em lugar dos círculos e dos patamares, temos várias esferas celestes, correspondentes aos céus do sistema ptolemaico. Mas no canto XXX do Paraíso, Dante entra no Empíreo, céu não previsto no sistema ptolemaico, É um modo estupendo de dizer que doravante, diante de Deus, Dante está para além, não só do tempo e do espaço, mas também da história. As palavras diminuem, fazem-se longas, rarefeitas, e, no entanto, Dante está diante de Deus com seu corpo histórico, concreto. Ele não perde a individualidade. Recebe a visão – pela graça obtida da Virgem pela oração de São Bernardo –, e as palavras são insuficientes para descrevê-la: uma fulguração e, em poucas linhas, o Todo.

Bem e mal

O bem e o mal na Comédia giram em torno do fulcro principal da mesma fé cristã: é o mistério da liberdade e o valor importantíssimo da realidade e da história. A estrutura do Inferno, por exemplo, não é um catálogo moralista de vícios: é o mistério de como a livre escolha de pôr-se fora do caminho de Deus é acolhida e respeitada no “para sempre” que se segue à livre escolha do homem e à mesma natureza da liberdade. O homem Dante é livre e encontra-se no dever de enfrentar a grandeza e o risco da própria liberdade nas vicissitudes históricas concretas de sua própria existência.

IHU On-Line - Na Divina Comédia, são apresentados três personagens: Dante, que personifica o homem, Beatriz, que personifica a fé, e Virgilio, que personifica a razão. O que esses personagens revelam sobre a busca e os dilemas espirituais e teológicos dos seres humanos?

Massimo Pampaloni – Na realidade não temos um triângulo. Costumeiramente só se consideram esses dois personagens (Virgílio e Beatriz). Virgílio representaria a luz da razão, mas aqui “razão” não é interpretada como a entendemos depois da confusão pós-iluminista. Aqui a razão é, de algum modo, uma mediação da graça (Virgílio chega enviado pela “cadeia feminina da Graça” de que já falamos), é abertura e docilidade à iluminação da fé – como mostra a doçura e a presteza delicada com que Virgílio obedece a Beatriz e como se comporta diante dela. Não é, pois, uma razão prometeica, que se autodefine em oposição a Deus, autoconstituindo-se, senão uma razão que reconhece seus limites assim como sua função. Não esqueçamos que Virgílio não pode entrar no Paraíso, mas sem Virgílio Dante não teria chegado lá. Em outras palavras, seria melhor falar de intelecto e intelecto guiado pela fé.

Além da luz da fé, representada por Beatriz, esquece-se frequentemente o terceiro personagem que aparece no canto XXXI do Paraíso. Devido ao excesso de luz e de alegria do Empíreo, Dante se volta para pedir algo a Beatriz, mas encontra ali outro bem-aventurado: São Bernardo. Para a visão de Deus, serve um terceiro passo, a mística. O intelecto guiado pela fé o leva até diante de Deus, mas para a visão se necessita do lumen gloriae, da luz da glória. Creio que isso responde bem à última parte de sua pergunta: “os dilemas espirituais e teológicos dos seres humanos” nascem mais frequentemente do que se crê do não aceitar os “guias” que nos são dados, e não aceitar acolhê-los nos limites e nas modalidades que lhe são intrínsecas. Para usar as imagens dantescas, diria que são causadas por querer entrar no Paraíso com Virgílio, querer dispensar Beatriz, rir de Bernardo ou pensá-lo como uma enfermidade psíquica ou necessidade supraestrutural, induzida por estruturas de poder ou cretinices semelhantes. Reconhecer ao intelecto humano sua capacidade de conhecer a realidade (Virgílio), reconhecer a necessidade do auxílio da Graça no que diz respeito à fé (Beatriz) e confiar-se à vida “místico-litúrgica” (Bernardo não guia, reza por Dante) é a síntese do caminho que Dante nos indica.

IHU On-Line - Por quais questões centrais e profundas do mundo teológico perpassa a obra a Divina Comédia?

Massimo Pampaloni - Mil e uma! O essencial diria que é esta: o destino eterno do homem que passa através da concretude de sua vicissitude histórica e que aqui se joga para sempre. Creio que, se o leitor tiver tido a vontade de chegar até aqui, já terá tido a resposta.

A Divina Comédia é um “itinerário de redenção”, um convite para caminhar rumo a Deus. Mas quem o escreve não é um monge nem um frade, é um leigo, um homem profundamente empenhado na luta política de seu tempo, um artista e um filósofo, com seus valores e seus sonhos; consciente de seu valor, mas também com a força de sua raiva, a violência de seu rancor (às vezes é objetivamente injusto). Sabe bem a periculosidade de ter perdido a estrada de Deus como indivíduo e como comunidade. Assim indica ao homem seu fim, seu ser eterno. Mas não o faz com linguagem religiosa. Esse é provavelmente outro dos segredos da força de Dante. Fá-lo como homem profundamente envolvido pelas exigências do momento histórico e político que vive, sem medo e sem omissões.

Concluiria, citando a professora Chiavacci Leonardi, de cujos comentários à Comédia sou profundamente devedor: “É por meio da poesia que Dante quer falar aos homens, como já havia feito seu Virgílio [...]. Onde as outras linguagens não conseguem chegar, quando também a Filosofia e a religião não têm mais palavras, a poesia alcança a realidade em sua profundeza, e pode falar, mais que qualquer outra língua, aos corações dos homens. E em nosso século [...] talvez o poeta florentino do séc. XIII possa ainda oferecer, com sua grande palavra tão próxima ao homem e tão imersa no divino, uma indicação de esperança”.

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