Edição 300 | 13 Julho 2009

IHU Repórter - João Batista Cichero Sieczkowski

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Patricia Fachin

Por trás da personalidade introvertida, séria - recebida de herança dos descendentes poloneses -, e do jeito cauteloso de expor as ideias, existe um filósofo preocupado com o futuro do planeta e com a falta de valores éticos entre as pessoas. Um homem sensível, espontâneo, que muito tem a ensinar sobre alguns dilemas da existência humana. Professor do curso de graduação em Filosofia, João Batista Cichero Sieczkowski leciona na Unisinos há 18 anos e durante esse período ficou conhecido, entre outros motivos, por defender o ceticismo. Hoje, aos 48 anos, mais reflexivo, ele vive um momento novo: está redescobrindo Deus e amadurecendo sua fé. Na entrevista a seguir, ele reflete sobre o passado e propõe discussões filosóficas que perpassam o dia-a-dia de todos nós. Confira

Origens – Sou de origem polonesa. Meu avô nasceu em Varsóvia, na Polônia. Ele foi fundador do Zequinha, time de futebol do São José, que tem as cores azul e branca. Minha mãe é natural de Uruguaiana e meu pai, de Porto Alegre. Sou o oitavo de nove filhos. Nós morávamos na capital gaúcha, na Vila Assunção, próximo à antiga barca do Guaíba. Tenho cinco irmãs – uma já faleceu - e três irmãos. Duas irmãs e um irmão foram afetados pela fenilcetonuria, sendo que uma apresenta mais sequelas. Na infância, nós saíamos para jogar futebol num campinho próximo de casa. Começávamos a jogar às 8 horas da manhã e ficávamos na rua até as 19h. Fomos educados na tradição católica, e sempre comemorávamos o Natal. Lembro que minha mãe preparava uma ceia farta; tinha comida para uns três dias.

Quando menino, estudei em colégios estaduais e cursei no Anchieta somente a segunda série do primário, onde meu pai foi professor por algum tempo. Ele também lecionou Matemática na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) até se aposentar.

Juventude – Estudei para ser irmão religioso. O interesse surgiu porque sempre gostei de viajar. Eu queria sair de casa e não sabia bem como. Na época, estudar em Santa Catarina era uma novidade apesar de a vida no seminário ser totalmente regrada. Tive a oportunidade de morar em São Paulo e Curitiba. Por outro lado, como fui bastante moleque na infância, me dei conta de que o seminário não era o melhor lugar para mim, pois tinha dificuldade de me adaptar às regras, embora fosse bastante tranquilo e o gosto por estudar favorecia toda a atividade introspectiva.

Família - Casei em 1985. No ano seguinte, nasceu meu primeiro filho, Balthazar, e em 1989, a Izadora. Os dois estudam na UFRGS. Ele cursa Engenharia Civil e ela, Letras. Eles, como qualquer um que não nasceu em berço de ouro, lutam obstinadamente para conseguir um lugar no mercado. Isso não é fácil, porque o desemprego é uma realidade que persegue a todos nós. Minha esposa, Sonia Rosane Netz, é funcionária de uma instituição financeira e cursou o mestrado em Ciências Sociais Aplicadas, na Unisinos. Ela muito desejou dar aula, mas não conseguiu realizar a sua vontade. Eu amo a minha família e sempre procurei dar-lhes atenção.

Filosofia – Em 1980, fiz o noviciado e os votos temporários. No ano seguinte, iniciei a graduação em Filosofia, na Universidade Católica do Paraná. Como gostei muito do assunto, abandonei o seminário para me dedicar aos estudos filosóficos e me transferi para a UFRGS. Fiz mestrado e doutorado na área, na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). 

Trajetória acadêmica – Ingressei na Unisinos em 1990 e trabalhei na universidade até 1991. Retornei mais tarde como professor de Filosofia, na época em que Benno Dischinger era chefe do departamento. Também lecionei por oito anos no La Salle. Sou professor na graduação e gosto de sala de aula, do contato com o aluno, de ter a oportunidade de persuadi-lo e de ser persuadido pela juventude deles. Sinto, porém, que a sala de aula é pouco valorizada. Essa é uma das consequências do constante processo de desumanização que ocorre em nossa profissão de professor. Formalizamos demais o ensino e a relação aluno-professor. Temos que parar um pouco a nossa correria do dia-a-dia e começar a ouvir mais os nossos alunos como pessoas humanas. Não temos que escutar o nosso aluno apenas quando se trata de avaliação. Ela quase sempre é um processo doloroso para o professor e para o aluno. Não há avaliação que seja justa.

Unisinos - Tenho saudades da época em que a Unisinos tinha 17 mil alunos. Antigamente, os professores saíam juntos para conversar, contar piadas, e isso nos unia. Conhecíamos o jeito de cada um, nos compreendíamos mais e os coordenadores também entendiam melhor o nosso lado humano. Hoje, essa relação poderia ser melhor. Percebo que as atividades são mais formais, os professores se encontram apenas em reuniões. Claro que há a necessidade de se adaptar ao mercado, mas tenho saudades de um período em que a universidade era mais humana. Não sei se isso foi esquecido ou se estou velho mesmo. Penso que a Unisinos tem condições de preservar mais o lado humano de cada um de nós. Nesse sentido, o IHU é uma excelente alternativa.
Vi a universidade crescer no âmbito tecnológico, se expandir e ser reconhecida nacionalmente. Gosto disso, porque junto com outros professores, faço parte dessa história.

Ceticismo – Perdi a crença em Deus quando saí do seminário. Fui cético por 20 anos. De um tempo para cá retornei para Deus e tenho certeza de que isso é importante. Em palavras não posso traduzir toda a trajetória de vida que tive, mas foi uma experiência que mexe com a minha mente e meu coração. Eu retornei e me sinto bem. Aprendi a conviver com meus limites e a ver que temos muitas boas coisas ainda para aprender, que religião não é algo que podemos deixar de lado, isto é, descartá-la simplesmente por questões culturais, por exemplo.

Deus – Precisamos negar Deus em algum momento da vida; a natureza humana é assim. Durante um tempo nos voltamos contra o mundo, contra as instituições, e depois retomamos um pensamento mais reflexivo e nos compreendemos em relação ao próprio mundo. No entanto, me pergunto se a evolução humana está criando seres melhores ou se estamos caminhando para o apocalipse, para um fim que foge completamente de nosso controle. A humanidade está evoluindo para melhor? As pessoas têm resistência de acreditar em Deus, porque isso exige submissão. Elas pensam que essa submissão está tirando a autonomia e a liberdade delas. Ninguém gosta de ser submisso e para ter uma religião, é preciso ser submisso a Deus. Hoje sou luterano e acredito na justificação pela fé. A justificação pela fé é aceitar ser submisso à palavra de Deus. Isso faz parte do aprendizado do modo de vida do cristão. É isso que estou começando a aprender. O que reparo é que a maioria das pessoas tem dificuldades ou não quer se comprometer em confessar a sua fé publicamente. Talvez consigam somente dentro de uma igreja.

- Quando temos o primeiro contato com Deus, não estamos maduros; a fé também é uma questão de amadurecimento. Tenho 48 anos, mas na juventude professava o ceticismo, obviamente ali existia uma imaturidade e uma resistência de querer conhecer Deus. No momento em que me dispus e me dei conta de que não posso eliminar a crença da minha vida, comecei a amadurecer na minha fé. Não completei esse processo, vou até o fim da vida.
Olho com bastante tristeza aquele período de ceticismo. Acho que perdi alguns anos da minha juventude. A pior dor que sinto é pensar que desvirtuei algumas pessoas. Professor tem uma responsabilidade muito grande ao ensinar o aluno. Desse tempo ainda derramo algumas lágrimas.

Mudança – Acredito que as pessoas mudam em suas vidas. Elas procuram, com a idade, serem mais coerentes. A conversão é um nome que damos a essa mudança. Da mesma forma que estalamos um dedo, a conversão também é algo que acontece. Não sei explicar como, mas sinto que se operou algo internamente.

Lazer – Comecei a me dedicar ao estudo da Teologia. Meu hobby preferido é caminhar e ouvir música - os dinossauros também aprendem a mexer em mp3. Meus filhos me ensinam a trabalhar com as novas tecnologias. Na minha juventude, a grande novidade era a separação entre os canais estéreo e mono, a eletrola, o disco vinil (bolachão). Escrever, para mim, é também um lazer. Gosto de escrever e refletir sobre os encontros e desencontros em minha vida. Gosto muito de fotografia e de fotografar lugares, prédios históricos e paisagens. 

Homem - O choque do homem com a tecnologia da máquina é uma das coisas que me preocupa. Como podemos falar de valores humanos se tendemos a fazer do comportamento humano o comportamento de uma máquina? Antigamente, tínhamos a religião de onde podíamos retirar os nossos valores. Com a negação sistemática da religião como um valor em si mesmo, nos afundamos em um relativismo cultural. De onde tirar valores que sejam universais? Não tem de onde tirar, logo, se nega a existência de valores que sejam universais. Daí a crise ética passa pela seguinte questão: de onde podemos forjar os nossos valores? O que está acontecendo com os jovens hoje é reflexo de nosso relativismo cultural, isto é, da perda de valores. Pergunto para meus alunos de onde eles irão tirar os valores. A ética deles não é mais universal, é relativa, individualista. Eles se sentem perdidos porque não sabem a quem recorrer. Por esse motivo, a revista IHU On-Line precisa ser lida, pois passa valores adiante.

Religião e política – Quando era cético, transferi meu ideal religioso para a política. Isso ainda é muito comum. As pessoas substituem um pelo outro. Na segunda fase da vida tudo isso começa a ser desfeito: não temos mais a religião e a política não responde aos nossos anseios.

Poder – Temos uma tendência forte a rechaçar Maquiavel. Acompanhei a trajetória de Lula desde a fundação do PT. Percebi que o discurso do partido era um antes de assumir o poder e se tornou outro depois. Eles se deram conta de que algumas coisas não são possíveis de serem feitas e outras não podem ser feitas, ou seja, existe uma  estrutura que vai muito além do próprio partido. Todo governante que chega ao poder fica subjugado a essa estrutura. A dívida externa foi uma bandeira muito forte do PT. Hoje, praticamente não se fala desse assunto. Será que não devemos para mais ninguém? Por que se fala na internacionalização da Amazônia? O que se faz hoje para melhorar as condições dos trabalhadores? A questão é que, quem tem o poder não é um partido e nem mesmo alguma instituição. O poder é uma superestrutura que se gera por si mesma e é independente da vontade humana. O poder é o produto de uma natureza humana decaída. O poder é maléfico, mas é desejado por todos. Quem renuncia ao poder por ideal de vida? Diria que ninguém, porque nós achamos que tendo poder nós não nos corromperíamos e conseguiríamos realizar os mais puros ideais. Essa é uma ilusão que nos acompanha. Por que não podemos abdicar de receber poder e realizar esses mesmos ideais humanos? Já ouvi dizer que cada homem tem o seu preço.
Pela perspectiva humana, o homem dificilmente vai abrir mão da ganância e do poder. Quando um governante quer conduzir as atividades à sua maneira, ele é caracterizado como ditador.

Mau ou bom - O homem é mau por natureza. Ser bom é ser contra a própria natureza humana. O homem é avarento e ganancioso. Precisamos ir contra a nossa inclinação, esse é o exercício da vida. Daí vem aquele dito de Paulo: “O que quero ser, não consigo. O que não quero fazer, faço.” É claro que precisamos viver em sociedade, daí vejo a necessidade de um princípio: se não tenho razões para desconfiar da conduta de alguém, devo agir sem preconceito. Somente se alguém lhe decepcionou alguma vez é que sua desconfiança poderia ser justificada. Para o cristão o ônus é maior. Ele deve agir como se nada tivesse ocorrido, de forma desinteressada (altruísmo). Enfim, ele deve perdoar.

Religião – A religião é algo humano, mas se sou cristão preciso acreditar em Ressurreição. Ela é o pilar. Quando acreditamos na Ressurreição, começamos a fazer o bem, porque desejamos levar o outro para um lugar melhor. É claro que Freud disse: “A religião é uma ideia concebida pela cabeça do homem”. Esse é um bom caminho para quem quer ser cético. A resposta última está dentro de cada um.

Morte – Acredito que a morte deve ser a experiência mais fascinante que vamos viver, porque somos nós e mais alguém, ou seja, Deus. A morte é um momento privado. Cada um terá de fazer a escolha de aceitar ou a ideia de que somos apenas uma “lâmpada” que se apaga na morte ou que há algo além e melhor para nós. A religião nos ajuda a fazer essa opção. Geralmente olhamos a morte como um sofrimento físico. A minha luta constante – e acredito que a de Paulo também foi – é contra o ceticismo.

Filósofos - A posição de negar Deus é muito mais cômoda. As coisas não precisam ser postas para discussão. Os filósofos fazem isso, propõem uma posição cômoda. Eles são racionais, tentam explicar tudo. Quando descobrem uma veia racional, se agarram a ela. Eles substituem Deus. Penso que a melhor posição é a altruísta, ou seja, a atitude de fazer as coisas desinteressadamente, sem almejar uma recompensa, com o objetivo único de ajudar o outro. Se não ajudarmos o próximo, não somos candidatos a chegar a um lugar melhor. O que entendo então por filosofia? A filosofia é uma atividade humana que exige de nós uma atitude perante o mundo e perante nós mesmos. O segundo ponto hoje é o menos pensado. Não quero dizer que a filosofia sirva para resolver problemas existenciais. Não. A filosofia levada às últimas consequências é ceticismo. Ninguém encontra a razão de sua vida na filosofia.

IHU - Os jovens se voltaram contra a religião e não tiveram nada para pôr em seu lugar, ou seja, a ética não substitui a religião. Pelo contrário, a religião está muito além da ética. Aliás, a ética precisa da religião. Nesse sentido, o IHU tem colaborado para mostrar às pessoas o quanto é importante não só o autoconhecimento, mas o conhecimento do outro, da diversidade. Quando as pessoas começam a acreditar em algo, mudam interiormente, necessitam que outras pessoas também acreditem no que ela acredita. Observando o IHU, começo a reparar que existem pessoas que acreditam também no que eu acredito. Isso é bonito e importante. Na medida em que o outro compartilha a mesma crença, a gente não se sente mais sozinho.

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