Edição 299 | 06 Julho 2009

Vocação religiosa: mais mística e mais profética

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Patrícia Fachin | Tradução Moisés Sbardelotto

Para o teólogo jesuíta Victor Codina, a conjuntura atual e a crise econômica reforçam a ideia de que a Igreja precisa abrir-se a novos desafios, às novas formas de pobreza, aos novos sujeitos emergentes.

“Diante do mundo do neoliberalismo globalizado, a vocação religiosa tem que ajudar a formar sujeitos autônomos, livres, responsáveis, que saibam enfrentar o mundo do consumo, a idolatria do mercado, a ideologia de que não é possível mudar.” A opinião é do teólogo Victor Codina, expressa na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line. Para ele, a vocação religiosa na América Latina ganha um novo sentido a partir de movimentos políticos, econômicos e ambientais que se configuram no Planeta. Nessa perspectiva, ele explica que a “vocação religiosa tem que ajudar a formar sujeitos cristãos livres e responsáveis, a iniciá-los na fé madura, na experiência espiritual cristã, no discernimento, porque já não poderão ser cristãos pelo simples Cristianismo cultural, nem tampouco, a longo prazo, bastará a religiosidade popular”.

Codina diz ainda que a vocação religiosa terá pela frente o desafio de se “ressituar”, “sem pretender formar instituições paralelas, que, muitas vezes, são pequenas ilhas de Cristandade em uma sociedade que é secular, pluralista, já não de Cristandade”. Para ele, caminha-se “rumo a um novo estilo de vocação religiosa, mais reduzida e minoritária, mais mística e profética”.

Victor Codina entrou para a Companhia de Jesus em 1948, na província da Cataluña. Em 1971, foi enviado à América Latina, vivendo em países como Venezuela, Argentina e Bolívia, onde está radicado desde 1982. Sua atividade é bastante variada, dando aulas de Teologia na Universidade Católica de Cochabamba e em contato com o povo em bairros e comunidades de base. Escreveu, entre outros, La vie religieuse (Du cerf: Paris, 1992) e O credo dos pobres (São Paulo: Paulinas, 1997).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - O senhor participou do Congresso em comemoração aos 50 anos da CLAR (Confederação Latino-Americana e Caribenha de Religiosos e Religiosas). Pode fazer um balanço da caminhada da CLAR e da vida religiosa consagrada na América Latina nessas cinco décadas?

Víctor Codina - A caminhada da CLAR nesses 50 anos foi muito importante, decisiva para o desenvolvimento da vocação religiosa na América Latina, sobretudo depois de Medellín.  Talvez, o ponto mais importante foi a insistência em levar a opção pelos pobres à prática, favorecendo o que se chamou de inserção da vocação religiosa. Milhares de religiosas e também, mesmo que em menor número, de religiosos deixaram o centro das cidades e das instituições para se inserirem em bairros marginais, favelas, entre agricultores, mineiros, indígenas, etc. Esse processo esteve acompanhado por uma mentalização por meio de cursos e seminários sobre o que significava voltar ao Evangelho e aos carismas originais, à luz do Vaticano II na América Latina. Essa inserção provocou uma nova espiritualidade, uma nova visão dos votos e da comunidade, uma aproximação ao povo e uma nova formulação da missão da vocação religiosa.

Junto a isso, deve-se mencionar o Projeto Palavra Vida – frustrado pela proibição do Vaticano -, pelo fato de ter elaborado a memória histórica da vocação religiosa feminina na América Latina, a criação das CRIMPO (Comunidades Inseridas em Meios Populares), a insistência na questão da refundação e uma vida religiosa mística e profética ao serviço da vida, etc.

Acrescentamos a isso que esse caminho teve muitas dificuldades, tanto dentro de alguns setores da vocação religiosa na América Latina, como também por parte de Roma, que interveio na CLAR, nomeando um delegado pontifício e impedindo a eleição livre para a sua presidência. A CLAR demonstrou, nesse conflito, um espírito evangélico de obediência, silêncio e amor à Igreja, sem que, por isso, perdesse o seu ânimo e sua liberdade profética para seguir adiante. No Congresso da CLAR, estavam presentes os principais atores que viveram e sofreram esse processo conflitivo e que foram um exemplo de serenidade e espírito evangélico, sem mostras de amargura, nem ressentimento, inclusive com bom humor.

IHU On-Line - Que reflexões teológicas foram realizadas no encontro e como elas ajudam a delinear as perspectivas da vida religiosa latino-americana?

Víctor Codina - No encontro da CLAR, a reflexão teológica tratou de dois temas: a contribuição da CLAR para a teologia da vocação religiosa na América Latina e para a teologia latino-americana da libertação. Sobre o primeiro tema, insistiu-se que a CLAR ajudou em uma reflexão sobre a vocação religiosa como carisma profético ao serviço dos pobres, acentuou que é um sinal escatológico do Reino, mas já presente na história, sublinhou a dimensão da vocação religiosa como seguimento de Jesus pobre e solidário com os pobres, fundamentou a necessidade de que sua profecia nascesse de uma mística evangélica de olhos abertos, ajudou uma visão da vocação religiosa não meramente universal e ocidental, mas também encarnada nas Igrejas locais do continente.

Sobre a sua relação com a teologia latino-americana da libertação, viu-se que houve uma grande conexão, uma mútua relação, uma sinergia. A vocação religiosa, sobretudo a inserida, era o primeiro ato de uma teologia que, no segundo ato, refletiria sobre ela. Tanto a vocação religiosa da América Latina como a teologia do Caribe partem da realidade (ver), iluminam-na na Palavra (julgar) e buscam a sua transformação (agir). Pode-se dizer que a CLAR, os pastores e bispos proféticos da América Latina, além dos mártires, foram pilares para a Teologia da Libertação. A teologia, por sua vez, ajudou a aprofundar essa vocação religiosa (os pobres na Escritura, diversas classes de pobreza e de pobres, a opção de Jesus pelos pobres, identificação entre Cristo e o pobre em Mt 25, pecado estrutural, conceito do Reino). Não é por acaso que a CLAR sofreu as mesmas perseguições e incompreensões que a Teologia da Libertação e seus teólogos.

IHU On-Line - Quais são os rumos e compromissos que desafiam a missão da vida religiosa no mundo atual? Existem experiências religiosas que estão caminhando junto com as culturas indígenas? Que avanços e desafios se apresentam? 

Víctor Codina - A reflexão teológica do Congresso da CLAR também olhou para o futuro. Constatou-se que não podemos ficar relembrando a época gloriosa dos anos 1970 e 1980, mas que é preciso abrir-se a novos desafios, às novas formas de pobreza, fruto do neoliberalismo e da atual crise econômica. É preciso abrir-se aos novos sujeitos emergentes: a mulher e o gênero, os índios e afro-descendentes, o grito da terra e da ecologia, o diálogo com as culturas, tanto originárias como modernas, o diálogo inter-religioso (por exemplo, na linha da Teologia Índia). Sobre esses temas, mesmo que já existam avanços e experiências, é preciso se aprofundar mais. Não basta que índios ou afros entrem na vocação religiosa; eles precisam poder conservar a sua cultura e sua cosmovisão religiosa. Da mesma forma, a vocação religiosa feminina não pode ser uma cópia da vocação religiosa masculina, etc.

IHU On-Line - Que futuro o senhor vislumbra para a vida religiosa latino-americana?

Víctor Codina - Essa pergunta está muito ligada à anterior, mas pode ajudar a ampliá-la e radicalizá-la. Diante do mundo do neoliberalismo globalizado, a vocação religiosa tem que ajudar a formar sujeitos autônomos, livres, responsáveis, que saibam enfrentar o mundo do consumo, a idolatria do mercado, a ideologia de que não é possível mudar. Diante do grande movimento que surge na América Latina dos povos indígenas e afros, a vocação religiosa tem que reconhecer que Deus quer que esses povos sejam respeitados em sua liberdade, em suas terras, culturas, dignidade, etc. Diante do processo de secularização crescente, a vocação religiosa tem que ajudar a formar sujeitos cristãos livres e responsáveis, a iniciá-los na fé madura, na experiência espiritual cristã, no discernimento, porque já não poderão ser cristãos pelo simples Cristianismo cultural, nem tampouco, a longo prazo, bastará a religiosidade popular. Eles devem passar de batizados a discípulos (Aparecida). Por outro lado, diante da insurgência e da tomada de consciência do laicato na Igreja, a vocação religiosa terá que se ressituar, deixar tarefas de suplência que teve que assumir no passado, colaborar com eles, colaborar também com o Estado, sem pretender formar instituições paralelas, que, muitas vezes, são pequenas ilhas de Cristandade em uma sociedade que é secular, pluralista, já não de Cristandade.

Tudo isso indica que vamos rumo a um novo estilo de vocação religiosa, mais reduzida e minoritária, mais mística e profética, mais pobre, com uma maior relação com os leigos e com outras congregações (inter-congregacionalidade), com vocações mais maduras e adultas e não tão jovens, abrindo-se a novas formas de comunidade e de compromissos, com mais fermento do que cimento, e de forma mais significativa, mais carismática e livre, que repense seus trabalhos e ministérios (por exemplo, revisar a paroquialização da vocação religiosa masculina clerical!), mais semelhante às suas origens, que vivam uma aventura evangélica e uma insegurança de nômades, sempre abertos ao sopro do Espírito.

Leia mais...

>> Confira outra entrevista concedida por Victor Codina:

* “Temos de crer e esperar que outro mundo e que outra Igreja são possíveis”, publicada na IHU On-Line número 222, de 04-06-2007. 

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