Edição 298 | 22 Junho 2009

IHU Repórter - Victor Hugo Valiati

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Patricia Fachin

Dedicado ao mundo da Ciência e defensor da teoria da Evolução, o coordenador do Laboratório de Biologia Molecular da Unisinos, Victor Hugo Valiati, contou um pouco da sua história à IHU On-Line. Biólogo por formação, ele dedica parte de seu tempo livre aos nove animais de estimação, além de alimentar outros dez gatos adotivos e também demonstra bastante apreço ao time do coração, Grêmio. Confira

Origens – Nasci em Barracão, no Paraná. Morei lá até completar um ano de vida, depois minha família foi morar em Curitiba, e em seguida nos mudamos para o Rio Grande do Sul. Passei parte da minha infância e adolescência em Palmeira das Missões. Quando estava cursando o Segundo Grau, fui morar em Passo Fundo, onde terminei os estudos. Tenho quatro irmãos: dois moram em Palmeira das Missões com meus pais, um vive em Curitiba e outro no Rio de Janeiro. Nos encontrávamos com regularidade no final do ano, mas agora tem sido mais difícil.

Família – Casei muito cedo, em 1986. Minha esposa, Ivanda Grapiglia Valiati, e eu cursamos a faculdade casados e com uma filha, Verônica Grapiglia Valiati. Eu estudava Biologia e ela fazia Direito, sonhando em ser arquiteta. Hoje, faz incursões de arquitetura em casa. Nos formamos juntos e ingressei no mestrado. Em seguida, nasceu nossa filha. Nessa época, minha esposa fazia estágio com um advogado em Sarandi, e eu me mudei para Porto Alegre, alugando um apartamento. Posteriormente, ela veio morar comigo, estudou na Escola do Ministério Público, fez a prova para ser promotora e foi aprovada para trabalhar no Alto Uruguai. Eu fiquei na capital com nossa filha. De manhã, a levava para a escolinha. Nos finais de semana, ela ficava comigo no laboratório da universidade e também me acompanhava com amigos em alguns bares que frequentávamos em Porto Alegre. Esse foi um tempo interessante de convívio e na formação de fortes relações entre pai e filha. Minha esposa vinha nos visitar a cada 15 dias. Depois, ela conseguiu transferência para o município de Campo Bom, e moramos lá desde 1993. Há seis anos, a minha filha se deslocou de casa, foi para Porto Alegre e está se formando em Engenharia Civil.

Estudos - Por influência de alguns professores, decidi cursar Biologia em Passo Fundo. Em seguida, me transferi para Santa Maria, onde terminei minha graduação. No final da faculdade, por influência de dois palestrantes que estiveram na Universidade Federal de Santa Maria, hoje meus amigos – os professores Aldo Mellender de Araújo e Francisco Salzano, do Departamento de Genética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) -, fiz carreira na área de Genética. Já vinha me fascinando pela questão da Evolução. Não conseguia ver a natureza como uma simples descrição fixa. Fiz meu mestrado inicialmente no Programa de Pós-Graduação em Genética, que depois passou a ser Genética e Biologia Molecular; em seguida, comecei o doutorado. Nesse período, iniciei a carreira de professor universitário, lecionando no curso de Veterinária da Ulbra. Defendi o doutorado em 10 de dezembro de 1999 e, antes do Natal, recebi uma proposta para trabalhar na Unisinos. Em 2000, vim para a universidade e ao mesmo tempo trabalhava na UFRGS, como professor assistente e também fui contratado novamente pela Ulbra, para lecionar no curso de Biologia. Nessas três instituições, me dediquei as disciplinas de Biologia Evolutiva e Genética de Populações. Em 2005, fui convidado a participar do Programa de Pós-Graduação de Biologia da Unisinos, e passei a me dedicar exclusivamente à universidade. Sou drosofilista por formação, trabalho com o modelo experimental Drosophila, desde o início da década de 90 e minha grande incentivadora e mentora intelectual foi a professora Vera Lucia da Silva Valente. Atualmente, também desenvolvo trabalhos com pequenos mamíferos, elementos transponíveis que habitam os genomas e micro-organismos, em especial bactérias. Além disso, projetos com peixes, no qual utilizamos marcadores moleculares (genéticos) com o intuito de avaliar o impacto da construção de hidrelétricas na preservação das espécies. De maneira geral, os aspectos e as perguntas de meu trabalho estão relacionados à evolução: Como surgiram essas espécies? Como elas se distribuíram?

Carreira – Nunca pensei em ser professor. Quando era adolescente, trabalhei no supermercado do meu avô. Assinei minha carteira de trabalho com 14 anos. Antes de atuar na universidade, lecionei em cursinhos pré-vestibulares. Basicamente, vi na Biologia e na Genética o ponto mais próximo para discutir alguns assuntos da vida como a evolução. Então, imaginava que o meu perfil era muito mais de pesquisador do que professor. Entretanto, consegui me encontrar nessa área. Muitas vezes, fui escolhido paraninfo e professor homenageado, e percebi que estava dando um retorno positivo para essa garotada que está procurando um caminho. Gosto de ensinar, dou espaço para os outros aprenderem. Essa profissão me transformou numa pessoa bem melhor frente à sociedade, porque sempre fui mais recatado.

Trabalho – Tenho o hábito de trabalhar todos os dias. Durante um período, levava muitas atividades para concluir em casa. Depois de um tempo, decidi: vou trabalhar todos os dias, mas em casa eu não trabalho mais. Além disso, tenho um problema em relação à conexão da internet em Campo Bom. Então, quando preciso de rapidez, venho para a universidade. 

Lazer – Gosto de futebol, sou sócio do Grêmio, mas não tenho ido tanto ao estádio por uma grande restrição a bagunça. Há duas semanas, passei a dar aula nas quartas-feiras à noite, então não posso frequentar os jogos da Copa Libertadores, neste momento, mas o resto da família acompanha. Tenho uma grande restrição à desordem, e, por mais que tentem me convencer que em alguns casos - como num estádio de futebol - ela é interessante, isso ainda me incomoda. Ia bastante ao cinema, duas ou três vezes por semana, mas diminui o ritmo nos últimos anos. Assisto a filmes durante a madrugada, na televisão. Minha esposa e eu temos algumas coisas em comum: gostamos de boa cozinha, vinhos. Investimos bastante do que ganhamos em livros, mas também em comida e bebida. Também gosto de viajar, mas geralmente viajo a trabalho. Gosto de cozinhar, mas já foi decretado que faço tanta bagunça que o melhor é ficar longe da cozinha.

Animais de estimação – Tenho um número razoável de animais de estimação. Primeiro compramos uma cadelinha, em 2000. Ela foi uma grande companhia, porque, durante as madrugadas de trabalho, ficava comigo. Junto com meus alunos, foi quem me ajudou a tratar melhor com as pessoas. Hoje tenho oito cachorros e uma gata. Na promotoria de Campo Bom, minha esposa tem mais três cachorros. Além disso, alimentamos dez gatos no final do dia.

Sonho – Muitas das coisas que imaginava fazer, eu fiz. Sempre digo para meus alunos que ninguém vai me tirar do sério, porque sou um cara feliz. Faço o que gosto. Sei das minhas limitações, mas também reconheço a minha capacidade. Profissionalmente, gostaria de formar cada vez mais alunos e colegas melhores. Tenho vontade de publicar alguns dados que coletei ao longo desses anos e escrever textos com veias mais poéticas do que cartesianas, mas ainda não consegui me organizar para isso. Pessoalmente, gostaria de dedicar mais tempo à minha família. Não acompanhei tanto o crescimento da minha filha; quem sabe agora posso cuidar dos netos e dar atenção a eles. Com meus 44 anos, me sinto bem e gosto bastante da vida.

Religião x evolução - Não tenho crenças e lido bem com isso, porque sou feliz. Me relaciono com a sociedade que tem suas crenças influenciadas pelo cristianismo e a respeito muito. Sou italiano e minha família é muito religiosa, cristã, mas respeita a posição que defendo. Não gosto dos extremistas. Algumas pessoas ficam atormentadas em relação as suas crenças, o que não acontece comigo, porque isso não faz parte do meu dia. O fato de eu não ter crenças não significa que não tenha respeito pelo próximo. Ter crenças não pode impedir que você reconheça o que foi desenvolvido pela Ciência. Não passo todo o dia tentando provar que Deus não existe ou existe. Tento contar outras histórias, sustentadas em observação, comparação, experimentação, análise, síntese e conceitualização para explicar como chegamos até aqui. Quando casei, já não acreditava em Deus, mas o casamento foi realizado na Igreja por questões familiares e também porque acho bonito o ritual. Apenas não gosto quando tentam me perverter com imposições.

Unisinos – A Unisinos me ensinou, entre outras coisas, a ter gerenciamento. Essa foi uma casa que me acolheu muito bem. Quando perguntam por que eu estou sempre aqui, me dedicando tanto à universidade, respondo que a Unisinos me permite fazer tudo isso, me dá liberdade de expressar o que faço e realizo isso de bom grado. O fato de eu estar sempre no câmpus é uma maneira de expressar o quanto a universidade e a profissão que escolhi são importantes para mim. Também existem senões, como em qualquer outro lugar. Por isso, não deixo os aspectos negativos pesarem na minha vida, porque se eles estiverem em primeiro plano, não serei feliz.

IHU – É admirável o trabalho realizado no Instituto. Tenho grande admiração pelo IHU e sinto não poder acompanhar todas as atividades proporcionadas. O IHU representa a vida dentro da universidade. 

Simpósio Ecos de Darwin – Faço parte da comissão científica do Simpósio e espero que o público aproveite esse momento extremamente excitante de discussões sobre o quanto a obra de Darwin contribuiu para as diferentes áreas do conhecimento humano. Não será um evento linear, as pessoas vão chegar a resultados e conclusões diferentes. Esse é um evento multidisciplinar. Iremos falar da obra de Darwin com visões amplas.

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