Edição 298 | 22 Junho 2009

“A função da cultura é atenuar nossa violência e mantê-la sob controle”

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Márcia Junges

O ser humano é violento por essência. Se não o fosse, como já dizia Freud, não seria preciso criar mandamentos, prescrições, exortando-nos a amar o próximo como a nós mesmos, avalia psicanalista Ivan Correa. O modelo capitalista exacerba violência ao incitar consumo

A violência faz parte da essência humana, e a cultura tem como função atenuar e controlar essa característica que nos é intrínseca. A explicação é do psicanalista Ivan Correa na entrevista que concedeu, por telefone, à IHU On-Line. De acordo com ele, essa violência essencial é exacerbada na pós-modernidade pelo modelo capitalista, cujo discurso insta as pessoas a terem e consumirem sempre mais, para buscarem legitimação e aceitação, numa verdadeira “excelência do ter”, em lugar de uma “excelente do ser”, que seria desejável. “O discurso capitalista priorizou a questão da excelência do ter, e não do ser”. Essa desmesura, essa hybris que rege nossa sociedade, faz com que as pessoas não se contentem mais com o necessário, com o razoável, e queiram sempre mais. A violência é um dos resultados dessa busca e consumo incessantes. Correa identifica, ainda, uma relação entre o desmoronamento da autoridade política e paterna com o binômio violência e desejo, quando um retroalimenta o outro.

Psicanalista, membro do Centro de Estudos Freudianos do Recife (CEF), Ivan Correa é licenciado em Matemática, pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), mestre em Filosofia e doutor em Psicologia, pela Universidade de Paris (Sorbonne). Professor titular da disciplina Teorias Psicanalíticas na Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), onde introduziu o estudo de Jacques Lacan, desde agosto de 1971, é autor de A escrita do sintoma (Recife: Centro de Estudos Freudianos, 1996), Escrituras lacanianas (Recife: Centro de Estudos Freudianos, 1996) e A psicanálise e seus paradoxos clínicos (Salvador; Ágalma, 2001), além de diversos artigos em revistas nacionais e internacionais.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Que relações você traçaria entre violência e desejo?

Ivan Correa - A violência é algo que faz parte da essência do ser humano. E o desejo não pode deixar de estar implicitamente ligado à violência. É a cultura que nos faz que possamos modelar a violência essencial do ser humano. Isso encontramos em Freud, no Mal-estar da civilização, escrito no qual este assunto está bem articulado. Nessa obra, Freud mostra que o preceito de amar o próximo como a nós mesmos, contido no Evangelho, não é natural. Se o fosse, não seria necessário um mandamento, uma prescrição. Então, Freud chega mesmo a dizer que, quando o ser humano se congrega dentro de um grupo e pratica a solidariedade, na realidade é necessário que haja outro grupo, fora deste, para que o ser humano o ataque. A própria solidariedade implica em que haja uma força que crie um perigo “fora”, e que este precise ser combatido. A função da cultura é atenuar nossa violência e mantê-la sob controle.

Na própria estrutura do ser humano, encontramos, sempre, a questão da violência. Se pensarmos na história da humanidade, veremos isso nas guerras. Se pegarmos um texto como o Gênesis, da Bíblia, o primeiro modelo de fraternidade apresentado é o de Caim e Abel. E essa fraternidade consistia na inveja, no ciúme, que fez com que Caim matasse Abel. Quando falamos de forma bem corriqueira que somos amigos, irmãos, esquecemos que, na realidade, esse protótipo que a Bíblia traz, mostra que, mesmo dentro da fraternidade, existe, de algum modo, a violência. É um paradigma que encontramos já na Bíblia. Isso porque, na realidade, o irmão é aquele que tira algo de nós, é ele que também herdará algo de nossa herança. Se existisse apenas um ser humano sobre a terra, ele teria o direito legítimo e incontestável sobre tudo que existisse. Mas, havendo dois seres humanos, é necessário que haja, pelo menos, um Tratado de Tordesilhas, digamos assim.

IHU On-Line - Há uma exacerbação da violência na pós-modernidade ou ela só mudou de cara?

Ivan Correa - Do ponto de vista cultural, penso que está havendo, sim, uma exacerbação da violência em nossos dias. Na mídia, de 80 a 90% das notícias dizem respeito à violência. Um exemplo é a violência no trânsito. De acordo com dados da TV, só na cidade de São Paulo a ocorrência de violência no trânsito e desentendimentos por coisas banais chega a 400 ocorrências diárias. Assim, vejo que a agressividade, a violência, vem crescendo exponencialmente de um tempo para cá.

IHU On-Line - Como essa violência está associada à sociedade de consumo capitalista?

Ivan Correa – Vamos recuperar um aspecto fundamental. Qual é o discurso capitalista? O discurso capitalista diz que seremos tanto mais felizes quanto mais possamos possuir. O discurso capitalista priorizou a questão da excelência do ter, e não do ser. Seremos valorizados por aquilo que temos, pelo que possuímos de mais formidável e abundante, contrariamente ao ser, ao aperfeiçoamento do ponto de vista da virtude pessoal, da solidariedade, do amor. Essa exacerbação é aquilo que os gregos chamavam de hybris, de desmesura, orgulho, prepotência. Como dizia Heráclito, a hybris é pior do que qualquer incêndio, porque devora tudo. No momento em que sociedade é dominada pela hybris, pela desmesura, como no modelo capitalista, as pessoas não se conformam mais com o necessário, com o que é razoável. E isso gera violência. Toda semana ouvimos relatos na mídia sobre empresas e pessoas bilionárias que acumulam riquezas em escala inimaginável. Nem vivemos tanto para usufruir desse acúmulo de coisas!

IHU On-Line - É correto dizer que o declínio da autoridade política e paterna resulta no binômio violência/desejo? Por quê?

Ivan Correa – Certamente, essa relação é possível, porque as autoridades política e paterna estão imbricadas de maneira indiscutível. A autoridade política não é outra coisa senão a delegação da autoridade paterna, o seu prolongamento. A autoridade como tal surge da função do pai, e a função do pai é que dará a marca de que existe uma Lei, e, portanto, um regime que leva o sujeito a admitir a simbolização da lei. Por conseguinte, seu desejo terá limites. Isso, de certa forma, será uma delegação que a cultura faz para a autoridade paterna em se estender à autoridade política, através de representantes. O desmoronamento a que assistimos da autoridade paterna não deixa de ser reflexo ou algo que provoca o desmoronamento da autoridade política. Isso porque há uma confusão enorme no Brasil entre a justiça e a lei. Basta que haja uma lei, mesmo que arbitrária, para que toda espécie de arbitrariedades seja acobertada. Esse é um discurso político muito comum entre nós, confundindo justiça com lei. Essa desmesura na coisa pública é justificada através da existência de leis criadas para facilitar as demandas de determinados políticos, em particular entre nossos parlamentares. Pode até existir tais leis juridicamente, mas elas não são justas. Há uma diferença entre legalidade e justiça, o que significa que a lei pode ser inteiramente arbitrária e injusta, como no caso do nazismo.

IHU On-Line - As figuras de autoridade foram destruídas na pós-modernidade, mas o lugar por elas ocupado continua a existir. Como operar esses lugares e essas funções?

Ivan Correa - Essa é a grande tarefa que devemos realizar: restaurar esses lugares nos quais possa surgir um ethos, uma forma de ser adequada à convivência humana. É uma questão de como conviver de forma solidária. Todas as formas de espiritualidade que possam ajudar a dar essa visão nova, esse ethos novo, são válidas. Mas é preciso que isso comece desde cedo, com a educação oferecida às crianças, levando-lhes a visão de que não vivemos sós no mundo, de que podemos nos beneficiar, também, da maneira de ser dos outros, e eles da nossa.

Narcisismo bom e ruim

Do ponto de vista psicanalítico, há duas formas de narcisismo, como há duas formas de colesterol, o bom e o ruim. O narcisismo bom é aquele através do qual nos sentimos confortáveis e valorizados em produzir algo de valor cultural. Isso é ótimo porque nos leva a criar e a querer ajudar os outros. O narcisismo ruim, perverso, é aquele de achar que só podemos ser felizes destruindo a felicidade do outro, e de que apenas estando em seu lugar é que podemos atingir essa felicidade. Dentro dessa perspectiva, o outro é um empecilho, precisando, pois, ser eliminado.

Isso é um reflexo do que poderíamos falar no campo lacaniano, da questão do estágio do espelho. A criança quando se descobre no espelho, quando vê aquele bebê maravilhoso, não sabe que aquela imagem no espelho é ela. Ela vê apenas aquele bebê feliz, alegre, satisfeito, sorrindo, e isso pode nos marcar, nos dar um símile de como é, de fato, o que acontece com o sujeito ao guardar esse modelo de que só pode ser feliz no lugar do outro.

Há uma fábula alemã que ilustra isso muito bem. Havia uma senhora muito rica que possuía uma mansão enorme, com vários empregados e terraço. Ao lado, morava uma senhora muito pobre, numa casa pequena, que não tinha nem terraço. Essa senhora pobre olhava para a grande mansão e dizia “como aquela mulher deve ser feliz, cheia de empregados, com aquela casa maravilhosa para morar”. Por sua vez, a senhora rica, da mansão, olhava a casinha humilde, e sua dona varrendo a pequena calçada, e pensava: “como aquela mulher deve ser feliz, sem esses empregados todos para atrapalhar, sem uma casa tão grande para administrar”.  Esse querer estar no lugar do outro a qualquer custo é o que leva, muitas vezes, à violência.

IHU On-Line - Quais serão as principais ideias que irá discutir no Colóquio A ética da psicanálise, quando irá falar sobre “Etnocentrismo e heterologia”? Como esse tema se relaciona com a violência e o desejo?

Ivan Correa - Quanto ao etnocentrismo, falarei precisamente sobre a ideia de que apenas aquilo que é da nossa estirpe, da nossa etnia, é que é excelente. Tudo que fica fora desse universo não vale nada, não presta, e por isso precisa ser destruído. A respeito da heterologia, direi que é preciso conciliarmos nossos valores culturais e apreciarmos também os valores dos outros, compartilhando aquilo que há de bom no outro, sem desvalorizarmos o que temos de bom e nem nos alienarmos, pensando que só é bom aquilo que vem de fora, dos outros países, das outras pessoas, sem renunciar e menosprezar nossos próprios valores.

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