Edição 297 | 15 Junho 2009

A teologia de Rahner como paradigma

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Moisés Sbardelotto e Patricia Fachin | Tradução: Walter O. Schlupp

Para Heidi Russell, os teólogos de hoje precisam colocar a teologia de Rahner em diálogo com o mundo pós-moderno

Segundo a teóloga americana Heidi Russell, a influência primordial de Karl Rahner sobre o Concílio Vaticano II se deu na “maneira como sua resolução da dicotomia entre natureza e graça fez possível ver Deus presente e ativo no mundo”. Para ela, em entrevista concedida por e-mail para a IHU On-Line, “o ateísmo e a apatia e desconexão cada vez maior das pessoas em relação ao cristianismo” foi um dos maiores desafios percebidos pelo teólogo, no século XX. “Rahner tentou enfrentar esse desafio mediante a superação do dualismo entre natureza e graça, que passara a prevalecer na neoescolástica, ajudando as pessoas a enxergar formas em que Deus sempre já está operando no mundo e na vida dos seres humanos (independentemente do fato de a pessoa ser explicitamente cristã ou não).” Heidi destaca ainda que “a compreensão de Rahner de que a graça de Deus está presente, ao menos como oferta para todas as pessoas, levou a uma abertura na compreensão de como Deus poderia estar presente e operando em outras tradições”.

Heidi Russell é mestre em Teologia Sistemática, pela Washington Theological Union e doutora em Teologia Sistemática, pela Marquette University, em Milwaukee, Wisconsin, nos Estados Unidos. Atualmente, é professora da Loyola University, em Chicago e integrante da Karl Rahner Society, fundada em 1991, nos Estados Unidos.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Qual a principal contribuição de Karl Rahner para o diálogo entre a modernidade e teologia?

Heidi Russell - Penso que a principal contribuição de Karl Rahner foi colocar a teologia e a neoescolástica tradicional da sua época em diálogo com a filosofia moderna via Heidegger e Kant. O desafio para os teólogos de hoje é colocar a teologia de Rahner em diálogo com o mundo pós-moderno.

IHU On-Line - Quais desafios Rahner percebeu como urgentes para o cristianismo do século XX?

Heidi Russell - Um dos maiores desafios que Rahner percebeu no século XX foi o do ateísmo e a apatia e desconexão cada vez maior das pessoas em relação ao cristianismo. Rahner tentou enfrentar esse desafio mediante a superação do dualismo entre natureza e graça, que passara a prevalecer na neoescolástica, ajudando as pessoas a enxergar formas em que Deus sempre já está operando no mundo e na vida dos seres humanos (independentemente do fato de a pessoa ser explicitamente cristã ou não); além disso, ele incentivou os agentes pastorais (especialmente seus colegas jesuítas) a se engajar num ministério de mistagogia que facilitasse uma experiência pessoal de transcendência ou de mística na vida da pessoa.

IHU On-Line - Qual é a concepção de Deus em Rahner? Em que consiste sua ideia da incompreensibilidade e do mistério de Deus, tão presente em seu mundo?

Heidi Russell - Para Rahner, Deus é transcendente, está além do nosso alcance ou compreensão, porque Ele é um mistério incompreensível. Rahner usa a imagem do horizonte: avançamos sem jamais alcançá-lo; ou a analogia de uma assíntota, que é uma curva geométrica que se aproxima cada vez mais de outra linha, sem jamais tocá-la (porque você pode continuar dividindo infinitamente o espaço entre as duas linhas). Como Deus é extremamente transcendente, jamais podemos alcançar Deus, mas para Rahner a boa notícia é que não precisamos fazê-lo, porque Deus já nos alcançou. Esse Deus infinitamente transcendente aproximou-se de nós na encarnação de Cristo e na graça, e no fato de o Espírito Santo habitar [em nós]. O Deus do mistério incompreensível é também o Deus do amor que se autocomunica, um Deus que revela e concede si mesmo a nós, em Cristo e no Espírito.

IHU On-Line - Qual a influência e quais as principais contribuições de Rahner para o Concílio Vaticano II?

Heidi Russell - Uma influência primordial que ele teve sobre o Concílio foi a maneira como sua resolução da dicotomia entre natureza e graça fez possível ver Deus presente e ativo no mundo. Acredito que sua perspectiva teológica fica muito evidente em Gaudium et Spes, mas também numa nova concepção de missiologia, evidente em Ad Gentes. Outro resultado dessa teologia foi a expansão da maneira como entendemos a possibilidade de salvação para os não-cristãos, além da percepção ainda mais abrangente de que Deus pode operar dentro e por meio de outras religiões, de que nelas há, na verdade, elementos que são “verdadeiros e santos”, conforme se vê em Nostra Aetate.

IHU On-Line - De que maneira as idéias de Rahner defendidas no concílio contribuem para o diálogo inter-religioso e o ecumenismo?

Heidi Russell - A compreensão de Rahner de que a graça de Deus está presente, ao menos como oferta para todas as pessoas, levou a uma abertura na compreensão de como Deus poderia estar presente e operando em outras tradições. Em vez de ver a Igreja como monopólio da verdade e mediadora única e exclusiva da graça por meio dos sacramentos, uma abertura maior para aquilo que a Igreja Católica poderia receber de outras perspectivas permitiu diálogo autêntico com outras tradições religiosas.

IHU On-Line - A senhora acredita que as ideias teológicas de Rahner foram assimiladas pela teologia em geral? Como ele é encarado na teologia de hoje?

Heidi Russell - A teologia de Rahner foi assimilada a tal ponto que muitos nem se dão conta de que ela é o paradigma a partir do qual agora operam. Enquanto alguns setores da Igreja Católica continuam críticos em relação à teologia de Rahner, por vezes devido a uma interpretação errônea de sua teologia, não se pode negar o profundo impacto dessa teologia sobre a Igreja Católica de hoje. Avanços atuais na teologia e no método teológico foram mais longe do que Rahner, mas até certo ponto não deixam de estar calcados em suas intuições teológicas centrais. A teologia política e as teologias da libertação (por exemplo hispânica, feminista etc.) em muitos casos repousam sobre o fundamento rahneriano. Teólogos como Elizabeth Johnson  e Gustavo Gutierrez têm origem rahneriana e conseguiram desenvolver o âmago da teologia de Rahner de formas novas, contextualizadas.

IHU On-Line - Passados 25 anos da sua morte, qual é importância de se resgatar o pensamento de Rahner na atual conjuntura da Igreja?

Heidi Russell - Rahner escreveu tanto, que muitos teólogos só conhecem uma fração mínima do seu pensamento. Não faz muito tempo que apresentei um trabalho numa conferência, o qual tratava da importância da concepção de Rahner sobre a unidade entre espírito e matéria para o diálogo entre ciência e religião; em seguida, algumas pessoas vieram conversar comigo e disseram que não sabiam que Rahner havia escrito sobre este assunto. Penso que há muitas áreas da teologia de Rahner que precisam ser mais exploradas; atualmente, existe a necessidade de revelar suas idéias teológicas num contexto pós-moderno. Acredito que com isto ganharemos intuições teológicas que nos ajudarão nos próximos 25 anos e mais além!

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