Edição 297 | 15 Junho 2009

Técnicas agroecológicas podem substituir uso de agrotóxicos

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Patricia Fachin

Segundo Flávio Lewgoy, crianças são mais suscetíveis a contaminação por agrotóxicos 

Dando continuidade ao debate sobre os danos dos agrotóxicos à saúde humana, tema de capa da IHU On-Line da semana passada, publicamos a entrevista a seguir, concedida por e-mail, pelo professor aposentado do Departamento de Genética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Flávio Lewgoy. Segundo ele, os números divulgados sobre a mortalidade e letalidade causadas pelos venenos agrícolas no Brasil “são obviamente muito inferiores”.

Lewgoy destaca a possível contaminação pelos domissanitários utilizados para matar insetos. De acordo com o pesquisador, três piretroides, ingredientes básicos desses produtos, e cartões de aparelhos de aquecimento elétrico para volatilização durante a noite “são avaliados como possíveis cancerígenos humanos: bifentrina, cipermetrina e permetrina”.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual é o índice de infectados por agrotóxicos no país?

Flávio Lewgoy - Milhões de pessoas, no campo, são expostas anualmente a pulverizações com agrotóxicos. A morbidade e a letalidade causadas pelos venenos agrícolas no Brasil em 2003, conforme o Sistema Nacional de Informações Agrícolas (Sinitox), são obviamente muito inferiores às reais. Por exemplo, o número notificado de casos de intoxicação por agrotóxicos em todo o Brasil, nesse ano, foi de 5.945. O total de mortes registrado foi de 164. Note-se que somente as intoxicações agudas e (quando notificadas) suas sequelas letais foram registradas. O número de centros regionais do sistema é insuficiente para abranger todo o país e, mais ainda, a notificação (para eles e deles para o Centro Nacional) não é obrigatória. Além disto, os efeitos crônicos podem surgir depois de semanas, meses, anos ou até mesmo gerações após a exposição aos agrotóxicos. Se o total de intoxicações agudas, numa estimativa conservadora, for dez vezes superior ao divulgado, ou seja, cerca de 60.000 casos anuais, o número de intoxicações crônicas superaria facilmente esta cifra.

IHU On-Line – Que impactos à saúde humana podem advir da exposição aos agrotóxicos?

Flávio Lewgoy - Agricultores e outros trabalhadores rurais, que trabalham com organofosforados, têm comumente distúrbios agudos como náusea, tonturas, vômitos, dores de cabeça, dor abdominal, problemas dermatológicos e da visão. A contaminação com esses produtos está associada com problemas e/ou sintomas crônicos, tais como doenças respiratórias, distúrbios da memória, afecções dermatológicas, depressão, déficits de função cognitiva, insônia, dificuldade na respiração, fraqueza e dor no peito. A exposição a herbicidas e inseticidas, afirma o Instituto Nacional do Câncer (USA), é causa provável de linfoma de Hodgkin, leucemias, câncer de próstata, mieloma múltiplo e sarcomas. Outras pesquisas indicam a exposição ocupacional a agrotóxicos como causadora de aumento de risco de anomalias reprodutivas: espermatozóides com anomalias morfológicas, nascimento de crianças com palato fendido e anomalias nos sistemas músculo-esquelético e nervoso, além de abortos e infertilidade.

As crianças são mais sensíveis aos efeitos dos agrotóxicos do que os adultos, conforme a EPA (Agência de Proteção Ambiental Americana), porque seu organismo ainda está se desenvolvendo; em relação ao seu peso corporal, elas comem e ingerem líquidos em bem maior proporção que os adultos, aumentando a sua exposição aos agrotóxicos, inclusive aos denominados domissanitários usados em casa para matar mosquitos e baratas. Por exemplo, vemos e ouvimos em um conhecido anúncio de televisão de um “spray” (borrifador): “Terrível para os insetos. Só para os insetos”. Infelizmente, não é bem assim. Três piretroides, ingredientes básicos de “sprays” (como o do anúncio), e cartões de aparelhos de aquecimento elétrico para volatilização durante o período noturno, em recente artigo (EPA, 2008) são avaliados como possíveis cancerígenos humanos: bifentrina, cipermetrina e permetrina.  Apesar da linguagem cautelosa, o significado é inequívoco em termos de risco, principalmente a crianças e adolescentes.

IHU On-Line - O senhor alerta para o uso de agrotóxicos mutagênicos e cancerígenos nos alimentos. Pode explicar que agrotóxicos são esses e a relação deles com a incidência de câncer?

Flávio Lewgoy - Resíduos de agrotóxicos foram detectados em grãos, folhosas, frutas e tubérculos, em análises da Anvisa, muitos em teores acima dos permitidos, outros não autorizados para a cultura e, mais ainda, princípios ativos já banidos em muitos países, em todas as culturas analisadas, todos eles mutagênicos e/ou cancerígenos. No relatório, são citados, entre muitos outros: acefato, carbaril, cipermetrina, deltametrina, dimetoato, endossulfan, folpete, metamidofós, parationa metílica etc.

Segundo a EPA, (“Porque as crianças podem ser especialmente sensíveis aos agrotóxicos” - 2008), elas consomem duas e meia vezes mais calorias, inalam o dobro de ar e bebem muito maior volume de sucos e refrigerantes, por massa corporal, do que os adultos. Os agrotóxicos bloqueiam a absorção de importantes nutrientes, necessários ao crescimento; se o sistema excretor não estiver totalmente desenvolvido o organismo não eliminará totalmente os agrotóxicos, agravando seus efeitos, entre eles o câncer.

IHU On-Line - Como compreender que as indústrias fumageiras, por exemplo, são apontadas como modelo de tecnologia, e ao mesmo tempo deixam seus funcionários expostos a substâncias tóxicas? Há um paradoxo nesta questão?

Flávio Lewgoy - A nosso ver, não há paradoxo na situação apontada. O aperfeiçoamento das ferramentas produtivas não está relacionado com a ética e sim com a maximização do lucro.

IHU On-Line – Que agrotóxicos o senhor aponta como sendo os mais prejudiciais à fauna e flora?

Flávio Lewgoy – Essas substâncias são altamente danosas a muitas espécies não-alvo dos mesmos, tais como plantas, anfíbios, insetos, pássaros e peixes. Os inseticidas piretroides cipermetrina, deltametrina e permetrina são muito tóxicos a peixes de água doce, marinhos e invertebrados. O inseticida fipronil, muito usado em cana-de-açúcar, é altamente tóxico a pássaros, peixes de água doce e marinhos. O malation é muito tóxico à vida aquática em rios e lagos. As abelhas têm desaparecido de regiões inteiras devido à ação de herbicidas e inseticidas.

IHU On-Line - É possível hoje, de acordo com o modelo de produção agrícola predominante e com o crescimento da transgenia, não utilizar agrotóxicos?

Flávio Lewgoy - Sim, de acordo com o órgão das Nações Unidas para a agricultura, a FAO, há todas as condições para alimentar o mundo com técnicas agroecológicas, que não utilizam agrotóxicos.

Leia mais...

>> Lewgoy concedeu outra entrevista à IHU On-Line. Acesse no sítio do IHU.

Entrevista:

• O pampa gaúcho entregue às multinacionais, publicada em 12-4-2008.

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição