Edição 296 | 08 Junho 2009

O comércio justo responde aos desejos dos consumidores

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Graziela Wolfart

Para o economista e consultor americano Michael Conroy, a crise econômica parece estar criando ainda mais consciência da necessidade para o desenvolvimento de um futuro mais sustentável 

Um dos assuntos abordados na edição 295 da IHU On-Line, Ecoeconomia. Uma resposta à crise ambiental?, foi o consumo ético. Assim, retornamos a esse aspecto na entrevista a seguir, realizada com o economista americano Michael Conroy, que defende que a certificação de produtos que estejam adequados a práticas social e ambientalmente responsáveis é uma revolução.

De Austin, no Texas, onde fica a sede da Colibri Consulting, empresa que Conroy dirige e que atua em certificação e desenvolvimento sustentável, ele falou à IHU On-Line, por e-mail, sobre como as ONGs podem mudar o comportamento das grandes corporações. Essa história ele conta em detalhes no livro Certificado! - A Certificação de Produtos Transformando as Corporações Globais, que será lançado no Brasil este mês, pela WGB Editora.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Neste momento de crise global da economia capitalista, quais são as possibilidades e os limites de pensar uma economia que leve em conta a sustentabilidade da terra?

Michael Conroy - Estamos percebendo que a crise econômica parece estar criando ainda mais consciência da necessidade para o desenvolvimento de um futuro mais sustentável. Muitas revistas nos Estados Unidos e na Europa relatam que os consumidores estão focados cada dia mais na necessidade de proteger recursos naturais, reduzir o consumo exagerado e repensar os padrões que nos levaram à crise.
 
IHU On-Line - Como as ONGs podem mudar o comportamento das grandes corporações? Em geral, as empresas não obedecem apenas às regras do mercado?

Michael Conroy – No século passado, essa ideia era mais clara do que agora. Desde os anos 1990, a sociedade civil tem encontrado novas maneiras para transformar as práticas das grandes empresas por meio de três passos: 1) novas e poderosas “campanhas de mercado” enfocadas nas falhas sociais e ambientais da cadeia de abastecimento, como exploração de trabalhadores e danos ambientais; 2) novos “sistemas de certificação” para verificar o cumprimento das empresas com novas normas “negociadas”; e 3) reconhecimento por parte das empresas de que não podem continuar suas práticas anteriores na era da informação instantânea da internet. 

IHU On-Line - As empresas podem perder o valor de suas ações no mercado financeiro caso seu nome esteja associado à destruição de florestas, por exemplo? As grandes corporações realmente arriscam suas marcas se forem associadas com práticas ambientalmente irresponsáveis?

Michael Conroy - Não há dúvidas de que perder o valor de sua marca (brand) é o maior risco para as empresas que estão envolvidas em práticas irresponsáveis; e a internet tem sido o instrumento revolucionário para acelerar esse processo. Somente por meio da confirmação independente dos sistemas de certificação é que se podem reduzir esses riscos de forma séria. E isso não depende tanto da educação dos consumidores ou da educação dos clientes, em negócios menores na cadeia de abastecimento, mas principalmente das grandes cadeias de lojas de venda final.

IHU On-Line - A economia atual comporta o comércio justo e ético na prática? Lucro e comércio/consumo ético e sustentável são compatíveis, principalmente neste momento de crise financeira?

Michael Conroy - Cada dia é mais evidente que o comércio justo responde aos desejos dos consumidores. Uma pesquisa muito recente indica que nove em cada dez consumidores nos Estados Unidos querem que seus produtos venham de processos onde os produtores recebam preços mais justos; oito em cada dez querem apoiar empresas que contribuem ao desenvolvimento das comunidades dos produtores e trabalhadores, e seis em cada dez pedem “castigo” às empresas identificadas com práticas de exploração de trabalhadores ou destruição do meio ambiente.

IHU On-Line - Por que o senhor acredita que a certificação de produtos que estejam adequados a práticas socialmente e ambientalmente responsáveis é uma revolução? Que tipo de mudança a certificação pode trazer aos negócios, ao comportamento das empresas, à sociedade e, principalmente, à economia?

Michael Conroy - O movimento pela certificação de dimensões sociais e ambientais representa a maior força que temos visto em mais de cem anos para forçar mudanças nas práticas básicas das empresas transnacionais. Ele está criando mudanças que nenhuma nação ou nenhuma agência internacional pode fazer, e que a OMC não permite que os países exerçam por meio de controles sobre as importações. Pela primeira vez em mais de cem anos, a sociedade civil agora tem uma forma de castigar as empresas irresponsáveis e premiar as que adotem as práticas mais justas e sustentáveis.

IHU On-Line - Quais são os principais impactos da atual crise econômica internacional sobre o interesse das empresas de vários setores pela certificação socioambiental?

Michael Conroy - Todos estávamos preocupados que a crise iria conduzir a uma forte redução na compra de produtos mais justos e sustentáveis, ou porque as empresas não estariam dispostas a oferecê-los a seus clientes (porque necessariamente custam um pouco mais), ou porque os consumidores não os comprariam com tanta frequência. Mas há quatro estudos novos que indicam que as empresas mais identificadas com a sustentabilidade têm sofrido menos danos durante a crise ou tem ganhado mais do que as outras empresas; as cadeias de lojas de venda final estão oferecendo ainda mais produtos certificados com “qualidade ética” porque são produtos “diferenciados” e com mais altas taxas de ganho, e os consumidores continuam aumentando suas compras destes produtos. Tem sido uma maravilha ver o compromisso profundo que isso indica.

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