Edição 294 | 25 Mai 2009

IHU Repórter - Apolinário Bones Machado

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Patricia Fachin

Funcionário da Unisinos há mais de 15 anos, Apolinário Bones Machado é um dos responsáveis pela segurança da universidade. Na profissão desempenhada com orgulho e dedicação, responsabilidade e carisma são ingredientes essenciais para a convivência diária no câmpus. Em conversa com a IHU On-Line, ele revela alguns aprendizados adquiridos nesses 50 anos de vida e relembra a importância da solidariedade, do respeito, da humildade, além da devoção a Deus. Confira

 

Origens – Eu nasci em Campinas, um distrito do município de Campo Novo, que fica a 500 Km de São Leopoldo. Me criei trabalhando na lavoura, plantando soja, milho, derrubando matos e fazendo erva mate. Quando era jovem, prestei o serviço militar e, com 21 anos, casei. Em seguida, como não havia emprego no interior para toda a família – sou o quarto de nove irmãos - vim morar na região metropolitana de Porto Alegre – o sonho de todo mundo -, na cidade de Sapucaia do Sul. Aluguei uma casa, e no quarto dia em que estava morando no município, consegui meu primeiro emprego na Siderúrgica Riograndense, onde fiquei por aproximadamente oito anos. Nesse tempo, nasceram meus dois filhos: Manolo e Deise. Manolo recebeu esse nome porque nasceu no tempo em que Manolo Otero  fazia sucesso; como sou fã dele, fiz essa homenagem. Quando a Deise nasceu, a Miss Brasil Deise Nunes de Souza  estava no auge, e daí surgiu o nome da minha filha. Hoje, a Deise está com 24 anos, cursa Jornalismo na Unisinos. O Manolo tem 22 anos e está com planos de prestar vestibular na universidade.

Família – Depois de 14 anos de casamento, me separei da minha primeira esposa. Hoje, tenho uma nova companheira, a Lenir, ex-funcionária da Unisinos. Atualmente, moramos em São Leopoldo.

Ingresso na Unisinos – Entrei na Unisinos em 1991, trabalhando na segurança. Antes de iniciar minhas atividades aqui, trabalhei em indústrias, sempre na área de produção. Minha vida mudou muito, porque passei a atuar em um ramo diferente e durante a noite. Demorei um pouco a me costumar com o câmpus, e várias vezes me perdi no Centro 4 (Centro das Ciências Jurídicas), ao revisar as salas de aula.

Quando passaram os 60 dias do contrato, a psicóloga me chamou para uma entrevista. Ela perguntou como eu estava me sentido, e respondi que ficava insatisfeito porque não enxergava o que fazia, ou seja, a minha produção. Ela me explicou: “Apolinário, esse trabalho que você desenvolve na universidade é tão importante quanto aquele que você vinha fazendo nas empresas. Aquela produção era palpável, por isso você percebia resultados concretos. Aqui na Unisinos se comercializa conhecimento”. A partir dessa conversa, me conscientizei de que precisava estar sempre ativo, atento, isso fazia parte da minha produção como segurança.

Quando a Unisinos enfrentou uma crise, muitos funcionários foram demitidos, inclusive eu. Fiquei sete meses fora e depois fui convidado a voltar. Gosto muito do meu trabalho, e quando estou de férias, se tenho um tempo, estou aqui dentro.

– Sou católico praticante, leio um trecho da Bíblia todos os dias e tenho muita fé em Deus. Se entregarmos na mão Dele tudo que fizermos em nossa vida, sempre vamos transparecer uma iluminação muito boa que servirá de espelho para pessoas de pouca fé; isso reflete no mundo. Quando temos fé em Deus, conseguimos auxiliar nossos semelhantes e percebemos uma transformação em suas vidas. As pessoas que não têm uma religião, são vazias, não têm um espírito forte e não conseguem se sobressair diante de alguns obstáculos. Deus é nosso alicerce.

Devoção – Também tenho fé em vários santos. Padre Reus  é meu braço direito. Quando soube da vaga para trabalhar na Unisinos, fiz uma promessa para Nossa Senhora do Caravaggio. Fui um dos quatro escolhidos entre 40 candidatos. Tudo o que eu faço na minha vida entrego na mão de Deus.

Atividades de lazer – Gosto muito de trabalhar na horta, plantar radite, beterraba, cenoura, chás – quando sinto dores, evito comprar remédios, sempre tomo um chá e melhoro. Tenho um jardim muito bonito. Também cuido dos animais, tenho um cachorro e um galo que canta para mim de manhã cedo. Nos fundos da casa, construí um galpão rústico, campeiro, onde guardo muitos objetos antigos. Lá, faço chimarrão e comida no fogão a lenha. Adoro acampamentos de CTG. Na semana farroupilha, gosto de andar pilchado, com lenço vermelho no pescoço. Numa dessas minhas andanças, me encontrei com o ex-governador, Olívio Dutra.

Sonho – Quando tinha 14 anos, uma cigana leu a minha mão e disse que eu ia ser um homem muito rico. Não sei a que tipo de riqueza ela se referiu: se é essa espiritual que carrego comigo ou a financeira. Tenho o sonho de ganhar na Mega Sena e ajudar as pessoas menos favorecidas. Não levamos nada desse mundo, então, se temos o privilégio de ter uma condição financeira mais favorável, devemos ajudar os semelhantes. Penso muito em ajudar os outros, minha comunidade, minha Igreja.

Política – Sou PT, maragato e colorado. Inclusive, na frente da minha casa tem uma bandeira do PT. Meu primeiro voto foi para o partido. Sempre observei que a classe menos privilegiada do nosso país nunca foi ouvida. Desde pequeno, percebia que quem tinha mais bens queria mais e mais. Os mais ricos querem acumular bens. Acumular para quê? Eles deviam distribuir, fazer os outros felizes. Eu só sou feliz se as pessoas a minha volta também são felizes.

Quando Lula foi candidato, torci muito para ele se eleger e mudar a história do nosso país.

No dia posterior à eleição do presidente, vim trabalhar e passei na capela da universidade para ler um trecho da Bíblia – faço isso sempre que posso. A mensagem que li mostrava exatamente o que estava acontecendo: os que foram oprimidos iriam chegar ao poder para mudar a história. Acho que nosso país nunca esteve tão bem como está hoje. Lula leva para o exterior uma imagem positiva do Brasil.

Unisinos – Desde que estou aqui, vi muitas mudanças na universidade. A Unisinos cresceu bastante, criou mais cursos e também passou por momentos de crise; me sinto feliz por acompanhar essa evolução. Aqui, conquistei muitos amigos, e sinto saudade deles. Percebo que as pessoas que visitam a universidade ficam contentes com o acolhimento que recebem dos funcionários. Ao recepcionar alguém, sempre digo: “Seja bem-vindo ao nosso câmpus e ao estado gaúcho”. Tenho certeza que as pessoas saem daqui com uma imagem positiva da nossa universidade.

Valores – Ensinei aos meus filhos que o respeito é muito importante. Quando estou no trem ou no ônibus e vejo uma pessoa mais velha, levanto e ofereço meu lugar. Sinto que falta humildade na nossa sociedade. As pessoas ficam preocupadas em prejudicar os outros ao invés de auxiliar. Se eu não posso auxiliar, não faço nada. Acho que nos tornamos mais felizes ao ajudar o próximo. A pessoa que quer o bem do outro sempre vai se dar bem na vida. 

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