Edição 294 | 25 Mai 2009

A alegoria da caverna e a barbárie da doçura

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Márcia Junges | Tradução Benno Dischinger

Considerado por Jean-François Mattéi como o texto filosófico mais importante do Ocidente, a alegoria da caverna é sempre atual, pois ilustra a condição humana, hoje, mais do que nunca, voltada às aparências. O doce torpor ao qual estamos submetidos desde a infância é a barbárie à qual Platão se refere no livro VII de A República

“O que Platão denuncia na alegoria da caverna, no livro VII de A República, não é a barbárie da violência, mas antes a barbárie da doçura: os prisioneiros não estão pressionados por guardas que os reduzem à escravidão. Além disso, eles não trabalham como escravos e não são compelidos a atividades penosas. Bem ao contrário, eles estão num doce torpor desde a infância, submetidos a um desfile de imagens que lhes agradam tanto que eles não procuram livrar-se delas”, constata o filósofo francês Jean-François Mattéi na entrevista a seguir, exclusiva, concedida por e-mail à IHU On-Line. Dessa forma, é possível percebermos a atualidade desse texto, pois hoje, mais do que em quaisquer outras épocas, estamos “voltados às aparências”. Na verdade, acentua Mattéi, “nós retornamos tanto mais à caverna por jamais a termos deixado”. As imagens que nos são impostas formam um mundo virtual que tende a tomar o lugar do mundo real em função de seu imediatismo e facilidade. A influência do pensador grego no pensamento de Emmanuel Lévinas e a rotulagem do cristianismo como “platonismo para o povo”, por Friedrich Nietzsche, são outros temas dessa entrevista.

Mattéi é professor emérito da Universidade de Nice-Sophia Antipolis e do Instituto Universitário da França. Escreveu, entre outros, L’Étranger et le Simulacre. Essai sur la fondation de l’ontologie platonicienne (Paris: PUF,  1983), L’ordre du monde. Platon, Nietzsche, Heidegger (Paris: PUF, 1989) e Platon et le miroir du mythe. De l’Âge d’or à l’Atlantide (Paris: PUF, 1996). Em português, publicou A barbárie interior: ensaio sobre o i-mundo moderno (São Paulo: Unesp, 2002).

Foi um dos organizadores do colóquio internacional Platão hoje, ocorrido na Universidade de Paris X, Nanterre, de 12 a 14 de março de 2009. Nesse encontro, pesquisadores dos mais diferentes ramos do conhecimento confrontaram suas visões de Platão, de sua obra e de sua filosofia, respondendo à pergunta “o que se entende hoje por platonismo”?

Confira a entrevista.

IHU On-Line - O senhor pode explicar a ideia que desenvolveu numa entrevista sobre Lévinas feita com nossa revista (conferir o box ao final desta entrevista), a saber, que nós podemos tornar-nos sombras e retornar à caverna de Platão, aceitando a barbárie na versão “doce, indolor e tranquilizante”?

Jean François Mattéi - A alegoria da caverna, que é uma ilustração da condição humana, é sempre atual, pois estamos hoje, mais do que nunca, voltados às aparências. Vivemos num mundo de mediação dominado pelas imagens: televisão, cinema, jogos de vídeo, publicidade, jornais, internet e ilustrações de todo tipo. Cada vez mais, as imagens impostas, e não livremente escolhidas, constituem um mundo virtual que tende a substituir-se ao mundo real, ao da política, da economia e da vida social, que é também o dos conflitos e das guerras. Identifica-se habitualmente a “barbárie” à violência brutal, aquela que os romanos chamavam de feritas ou ferocitas. Mas existe igualmente uma barbárie doce, a da vanitas, que não significa em latim a “vaidade”, mas a “vacuidade”, ou seja, o vazio da existência.

Refletindo sobre isso, o que Platão denuncia na alegoria da caverna, no livro VII de A República, não é a barbárie da violência, mas antes a barbárie da doçura: os prisioneiros não estão pressionados por guardas que os reduzem à escravidão. Além disso, eles não trabalham como escravos e não são compelidos a atividades penosas. Bem ao contrário, eles estão num doce torpor desde a infância, submetidos a um desfile de imagens que lhes agradam tanto que eles não procuram livrar-se delas. Eles até escolhem como rei aquele que chega a prever quais as novas imagens que vão aparecer na caverna. Não obstante, sua vida é uma vida de coerção e, portanto, de dependência, já que eles não chegam a livrar-se desta sucessão de imagens que os fazem viver num mundo virtual, que não é real, ou cuja virtualidade depende de causas reais que lhes escapam. Seu mundo é, portanto, totalmente “vazio”, “oco” ou “mentiroso”, o que significa vanus em latim, e sua representação de si mesmos é bem a da “vaidade”.

Mas a vaidade da existência pode conduzir à violência quando se procura denunciá-la: eis por que o filósofo liberado, que Platão identifica com Sócrates, que expõe o relato da caverna, será levado à morte por seus companheiros, quando ele retornar para o meio dos seus. Toda existência submetida a imagens ou a simulações, o que Platão chama de “ídolos”, eidola, e “fantasmas”, phantasmata, corre o risco de desembocar numa violência não mais doce, porém brutal.

IHU On-Line – Tomando esses fatores em consideração, qual é a atualidade da alegoria da caverna em nossa sociedade midiática?

Jean François Mattéi - Embora seja um homem do século IV a. C., Platão pinta a condição humana em sua permanência e suas análises de modo atual. Crê-se hoje, com frequência, que a evolução das ciências e das técnicas, bem como as mudanças históricas, transformaram a humanidade, que desde então estará à procura de novos princípios e de novos valores. Isso é mais do que um erro; é uma ilusão. Mesmo sendo o homem “ondulante e diverso”, segundo a expressão de Montaigne,  mesmo sendo “o animal ainda não fixado”, segundo a imagem de Nietzsche,  o homem mantém sempre uma mesma condição que é definida por sua finitude e sua mortalidade. Heidegger  mostrou-o de maneira decisiva. O que o prova no plano teórico é a Declaração Universal dos Direitos do Homem, que não considera diferenças de tempo e de espaço e, no plano prático, é nosso julgamento sobre a história que condena os colonialismos do século XIX ou os fascismos do século XX, embora os homens que os praticaram tenham sido diferentes de nós. Se a história humana pode mudar, e ela não faz mais que mudar desde a aparição do homem, o que acaba assegurando a permanência da mudança, os princípios que regem os homens – sejam eles de ordem moral ou política – não mudam.

Esta permanência nos autoriza a falar de humanidade sempre que estivermos em presença de um homem que não conhecemos, mas em quem reconhecemos a parte de universal que ele traz em si. Segue-se que a alegoria da caverna é sempre atual em nossa sociedade midiática que é uma sociedade dedicada, mais ainda que a de Platão, a uma sucessão ininterrupta de imagens, edificantes, sedutoras, violentas, desejáveis, cruéis, pornográficas, voltadas todas à submissão daqueles a quem se dirigem. Consequentemente, elas correm o risco de substituir-se à realidade por causa de seu imediatismo (a imagem não é mediada, sendo a mediação uma característica da razão, ela é imediata) e de sua facilidade (a imagem não exige nenhum esforço e impõe, ao contrário, àquele que lhe é submetido, uma passividade: pensemos na televisão).

A série dos três filmes dos irmãos Wachowski,  Matrix,  filmes que são claramente inspirados pela alegoria da caverna, junto com seu sucesso mundial, mostra a que ponto estamos na mesma situação dos prisioneiros da caverna platônica. Paradoxalmente, estamos hoje votados ao primado do imediato numa sociedade midiática, cujas mediações reais nos escapam.

IHU On-Line - Esta possibilidade de retorno à caverna é plausível em nossa sociedade? Por quê?

Jean François Mattéi - Nós retornamos tanto mais à caverna por jamais a termos deixado. Quero dizer com isto que sempre habitamos o mesmo mundo e que a condição humana não mudou mais que os princípios que a comandam, ou que deveriam comandá-la. Uma das ilusões mais tenazes da modernidade, desde o século XVIII e mesmo na pós-modernidade, desde meados do século XX, é a da criação de um homem novo. Vimos os resultados nos regimes autoritários, fossem eles fascistas ou comunistas, nos quais as mesmas cegueiras produziram as mesmas catástrofes.

Pode-se mesmo falar de uma dupla cegueira. Os governos totalitários, de base política ou religiosa, querem mudar a sociedade e os homens que dela fazem parte pela força e até mesmo pelo terror. Lembremo-nos da frase de Robespierre  na Convenção Nacional em fevereiro de 1794, por ocasião da Revolução Francesa: “Se a mola propulsora do governo popular na paz é a virtude, a mola do governo popular em revolução é, ao mesmo tempo, a virtude e o terror: a virtude, sem a qual o terror é funesto: o terror, sem o qual a virtude é impotente. O terror nada mais é do que a justiça pronta, severa, inflexível; ela é, portanto, uma emanação da virtude: ela é menos um princípio particular do que uma conseqüência do princípio geral da democracia, aplicado às mais prementes necessidades da pátria”. Robespierre, que inventa, em nome da democracia, o que nós chamamos de “terrorismo”, já que a virtude política estava para ele ligada ao terror, mostra, assim, que a necessidade de criar ex nihilo um homem novo numa sociedade nova impõe destruir, com a sociedade antiga, o homem antigo, ou seja, o homem real tal como ele existe. Assim, a caverna corre o risco de tornar-se uma prisão e, em breve, uma tumba.

Cegueira nas sociedades democráticas

No entanto, há outra cegueira, não mais nas sociedades totalitárias, mas nas sociedades democráticas. Submetidas, desta vez, não mais à violência visível da feritas, mas à violência invisível da vanitas, nossas sociedades que, ademais já não conseguem conter sua própria violência (atentados terroristas como as do 11 de setembro, guerras civis do Afeganistão e do Darfour, guerrilhas urbanas nas favelas brasileiras ou nos subúrbios franceses etc.), impõem aos seus membros novas formas de totalitarismo, tão bem denunciadas por Albert Camus  como por Jan Patocka  ou George Steiner.  Falo disso mais longamente no último capítulo de minha obra Le Regard vide. Essai sur l’épuisement de la culture européenne .

IHU On-Line – Por que o senhor considera a alegoria da caverna como o texto mais influente de toda a história da filosofia?

Jean François Mattéi - Eu penso que este é o texto mais influente da história da filosofia e, sem dúvida, da cultura ocidental, porque, de uma parte, ele pinta a condição humana voltada às aparências num mundo em que os homens não escolheram nascer nem morrer, e onde eles devem padecer sua finitude e sua mortalidade. O que quer que façamos ou que digamos, não escaparemos da existência que nos foi imposta, nem do mundo no qual vivemos. Podemos tentar “mudar a vida”, com Rimbaud,  ou “mudar o mundo”, com Marx,  mas nós apenas mudaremos modalidades de vida e modalidades de mundo. A própria vida, em sua passividade muito bem iluminada pela fenomenologia, notadamente por Michel Henry, não pode ser mudada como se os humanos tivessem outras vidas em reserva, segundo a imagem das nove vidas dos gatos! Quanto ao mundo, aquela loucura de querer mudá-lo, mesmo em pensamento: ela é totalmente indiferente aos nossos desejos e aos nossos temores. O poeta francês Henri Michaux sublinhou-o muito bem no prefácio de Ailleurs (Alhures. Paris: Gallimard, 1947): “Ainda traduz o mundo quem quisesse dele escapar. Quem poderia escapar? O vaso está fechado”.

Não é somente a filosofia, mas também a literatura, o teatro e o cinema que retomaram o tema da alegoria da caverna, sem dúvida porque os autores compreenderam que Platão utilizara o melhor símbolo da condição humana. Pode-se pensar em Kafka,  cujos personagens, quer se trate de Joseph K. em O processo, ou de K. em O castelo, são incapazes de se desligar, um do mundo judiciário que o conduz à morte, ou outro do mundo da aldeia aos pés de um castelo onde ele jamais entrará. Ninguém pode desvincular-se completamente do mundo no qual ele está encarcerado, ou, como dizia Sartre,  “enviscado”. Mas o exemplo mais esclarecedor é, sem dúvida, o pequeno relato romano de Adolfo Bioy Casares, A invenção de Morel. Neste relato, o narrador se encontra numa ilha, após um naufrágio, onde ele vislumbra, sem poder alcançá-los, personagens virtuais em três dimensões que foram registrados anos antes e que máquinas reproduzem indefinidamente, como se as sombras da caverna platônica tivessem adquirido espessura ao ponto de substituir-se à realidade. Mas o herói de Casares, diversamente do prisioneiro de Platão, não poderá sair desta nova caverna que é a ilha encantada habitada pelos simulacros.

IHU On-Line – Há alguma relação entre a alegoria da caverna e a sedimentação da querela dos universais versus o nominalismo, que surgiu posteriormente?

Jean François Mattéi - Não penso que Platão tenha procurado por em causa o nominalismo que ainda não existia em sua época, embora se possa sustentar que o nominalismo medieval estava em germe em Aristóteles e, talvez, entre os sofistas. No entanto, a perspectiva universalista de Platão, fundada na hipótese de ideias inteligíveis que constituem a verdadeira essência das coisas, implica globalmente a rejeição de uma doutrina para a qual só existem os entes singulares, sendo os “universais” apenas “nomes” sem outra consistência a não ser a verbal. É preciso compreender a aposta de Platão, e eu falo de aposta no sentido em que se fala da aposta de Sócrates quanto à existência da alma ou da aposta de Pascal  quanto à existência de Deus. Platão procura a razão da existência das coisas que aparecem e desaparecem sem que o homem compreenda as causas dessas aparições e dessas desaparições, nem os mecanismos de suas regularidades (nascimentos, mortes, estações, trajetórias das estrelas). Se as “aparências”, ta phainomena, só remetem a si mesmas e têm nelas mesmas a razão de suas aparições e de seus desaparecimentos, neste caso, como explicar a regularidade dos fenômenos do mundo? Ainda haveria leis, mesmo que fossem leis regendo os objetos no universo ou leis regendo os homens na cidade? Se somente existisse uma poeira de fenômenos aos quais seríamos submetidos como todas as coisas, se o próprio homem fosse apenas esta poeira fenomenal, tudo se dissiparia como num sonho em farrapos de realidade. Não haveria cosmos, ou seja, tal é o significado profundo do termo grego, de “ordem do mundo”. O conhecimento seria impossível e, com o conhecimento, a ação numa perpétua mudança que se faria e se deferiria sem regra.

Pode acontecer o contrário: as “aparências” remeterem a algo diverso delas mesmas, sendo sua presença a dissimulação do que existe na realidade. Em outros termos, não são as aparências que aparecem, mas é o ser que aparece sob múltiplas aparências, permanecendo ele próprio uma entidade permanente. Platão extrapola aqui uma experiência corrente: um comediante, por exemplo, pode encarnar diversos personagens sem deixar de ser ele mesmo e sem se confundir com suas aparências; um indivíduo pode jogar com as aparências, seja mudando de maquiagem ou mudando de vestimentas, seja mentindo sobre a realidade ou mantendo discursos diferentes. A hipótese platônica procura sustentar que há uma essência única e permanente de todas as coisas e do próprio homem, sua humanidade, e que todo o resto, que de fato possui uma realidade que vem do ser, não é senão uma série de aparências singulares.

IHU On-Line - A intolerância ao outro, expressa por guerras e conflitos em nossa sociedade, é a configuração moderna da barbárie à qual se referia Platão?

Jean François Mattéi - Uma das grandes novidades de Platão, em ruptura com seus predecessores, é certamente a insistência colocada sobre a alteridade. Contrariamente ao que sustentavam Gilles Deleuze  e outros filósofos contemporâneos, Platão jamais é prisioneiro do Mesmo, em grego tauton, isto é, de uma figura que só remeteria à sua imagem num espelho. Quer seja sob o ângulo metafísico, sob o ângulo moral ou o ângulo político, em todos os seus textos Platão põe em destaque a figura do que hoje chamamos de alteridade e que ele nomeia como thateron, o “outro”. É curioso que se continue, com frequência, a praticar este contrassenso maior sobre o pensamento platônico, que se confunde com a ontologia de Parmênides. Darei dois exemplos:

Em O sofista, a grande descoberta de Platão é a da alteridade indispensável à troca regrada dos mais altos gêneros do ser, “Mobilidade”, kínésis, “Estabilidade”, statis, “Mesmidade”, tauton, e “Alteridade”, thateron, sendo estes dois pares o predomínio do “Ser”, to on. Cada um destes gêneros, num total de cinco, é idêntico a si mesmo e sob este título participa da “Mesmidade”, mas ele é igualmente diferente dos outros e, sob este título, participa da “Alteridade”. Além disso, pode-se perceber, sob o ângulo dos personagens, que esta análise é conduzida pel’O estrangeiro de Eléia, e não por Sócrates. Ora, desde o início do diálogo, este estranho estrangeiro, que acaba de chegar a Atenas, é qualificado por Platão, na linha 216 a 3, como heteron segundo certos manuscritos, anotando outros hetairon, ou seja, “amigo” ou “condiscípulo”. É interessante constatar que quem introduz em filosofia o conceito de alteridade é o outro de Parmênides, contra o qual ele vai, aliás, cometer um “parricídio” (241 d 3). Quando Platão fala dos estrangeiros e dos “bárbaros”, já que tal era o nome que os gregos davam aos outros povos, ele os reconhece como participando da humanidade. Além disso, no momento de fundar sua cidade perfeita, Platão se coloca sob a guarda de “Apolo, o deus de Delfos” para as disposições legislativas e diz que ele não escutará outra voz nem outro “instrutor”, exegetes, senão este deus que é “instrutor ancestral (pátrios exegetes) para toda a humanidade, ele que, assentado no centro da Terra, dá suas instruções no lugar que é o umbigo da mesma” (A República, IV, 427 c). A barbárie, para Platão, é a ausência de reconhecimento da alteridade que se descobre tanto nos outros homens, quanto em si mesmo.

IHU On-Line - Podemos dizer que a relação ética do Mesmo e do Outro foi inaugurada por Platão? Por quê?

Jean François Mattéi - A relação “ética” do Mesmo ao Outro, de que fala Lévinas,  foi realmente inaugurada por Platão de maneira implícita e de maneira explícita. Implicitamente, porque Platão escreve no plano formal dos diálogos literários, e não dos tratados científicos, nos quais personagens de carne e de sangue, cuja maioria é real e contemporânea de Platão, entram em conversação. O diálogo é, então, de maneira concreta, a realização da passagem do Mesmo ao Outro. Isso acontece a todo momento, por exemplo: a alteridade de Sócrates revelando a Teeteto sua própria identidade como a alteridade de Teeteto revela a Sócrates sua própria identidade. Todos os dois, além disso, se assemelham num fundo de alteridade.

Explicitamente, sobretudo - e aí nós abandonamos a forma do diálogo por seu conteúdo -, porque Platão insiste sem cessar na possibilidade, para o logos, de aproximar a identidade de um ser ou de uma coisa daquilo em que ela se diferencia e que constitui sua alteridade. E é somente a palavra, em grego logos, que está em condições de assegurar o elo entre um e o outro, entre Sócrates e Cálicles, embora sejam eles diferentes, embora eles não estejam de acordo em seu debate e sejam mesmo opostos. O logos, como mostra O sofista, é um “elo” que, assegurando o acordo das pessoas, mesmo no seio de seu desacordo - “desafinado”, diria Tom Jobim  -, inscreve-os numa relação ética. Com efeito, o que é a ética, e Lévinas nada mais fez do que teorizar uma verdade cotidiana da qual todos participamos, senão o tornar presente uma pluralidade de homens que devem escolher em comum sua vida? E como poderiam escolher o sentido a dar à sua vida sem mediar suas relações pela palavra? Todo encontro humano é ético enquanto é palavra, e a palavra, como bem o mostrou O sofista, é a junção do Mesmo e do Outro, relação propriamente humana, onde o outro par do mesmo diálogo, Mobilidade e Estabilidade, é uma relação propriamente cósmica. No conjunto dos cinco gêneros supremos do Sofista, a ordem do mundo, ou seja, a física, é manifestada pelo par “Mobilidade” e “Estabilidade” das coisas, sua estática e sua dinâmica, se assim se quiser, e a ordem da cidade, ou seja, a ética, é encarnada pelo par o “Mesmo” e o “Outro”. O primeiro par é o do conhecimento e da theoria, o segundo o da ação e da praxis.

IHU On-Line - O senhor poderia explicar por que Nietzsche dizia que o cristianismo era um platonismo para o povo?

Jean François Mattéi - Nietzsche sempre esteve obcecado por Platão e, através dele, por Sócrates, o que o conduziu por diversas vezes a definir seu pensamento como um “antiplatonismo”. Mas é preciso compreender o equívoco deste antiplatonismo, que é paralelo ao seu anticristianismo. O que Nietzsche põe em causa, com dificuldade, porque ele jamais abandonou Platão, a quem ele chamava “a mais bela planta humana da Antiguidade”, como ele também não abandonou Jesus Cristo, ao ponto de assinar suas cartas no final de sua vida com o nome do “O Crucificado”, é a hipótese de outro mundo. Quer se tratasse do “mundo das ideias”, do qual cada um fala, embora Platão jamais tenha utilizado esta expressão, as “ideias” não formando um “mundo”, ou que se tratasse do mundo divino após a morte, ou seja, do Paraíso, Nietzsche simplesmente não crê nisso. Por quê? Ninguém poderia dizer quanto esta crença ou descrença é profunda, seja em Platão ou em Nietzsche. Não somente não sabemos qual é a verdade última do mundo e, portanto do homem, mas nós ignoramos igualmente por que cremos ou não cremos em tal ou tal teoria. Podemos desenvolver os raciocínios mais complexos, porém em última instância, como o observava Pascal, é o coração que escolhe, e “o coração tem suas razões que a razão desconhece”.

O que traz o platonismo, segundo Nietzsche, aos filósofos, isto é, àqueles que sabem? Uma segurança contra a ignorância diante das ocorrências do mundo. O que traz o cristianismo, sempre segundo Nietzsche, ao povo, ou seja, aos que não sabem? Uma segurança contra a morte ante o desaparecimento dos homens. Os dois são, num certo sentido, uma consolação contra “nossas misérias”, sempre para falar com Pascal. Miséria do homem sem conhecimento, para o filósofo que é obsedado pelo desejo de saber, o que significa explicitamente seu nome, Philo-sophos, contra o desaparecimento na noite da ignorância. Miséria do homem sem Deus, para o povo que é obsedado pelo desejo de salvação, contra o desaparecimento na noite da morte. O pensamento cristão traz, portanto, a paz ao crente em lhe tirando, com a presença de Deus, o medo da morte, lá onde o pensamento platônico traz a paz à filosofia em lhe tirando, com a presença do Ser, o pavor do nada. Ambos, segundo Nietzsche, se conectam no sentido de que trazem, ao mesmo tempo, a consolação da religião e a consolação da filosofia, dando, por conseguinte, um sentido à vida humana.

IHU On-Line - Quais são os fundamentos da tentativa de Nietzsche para aniquilar as bases do pensamento ocidental cristão, Platão e o Cristo?

Jean François Mattéi - Constatamos somente que, de uma parte, Nietzsche, filho de pastor luterano, educado na religião cristã, perdeu a fé na adolescência depois de ter sido crente, mas que ele jamais perdeu seu interesse pelo cristianismo e, em primeiro lugar, por Jesus Cristo, em quem ele via seu verdadeiro cristão. De outra parte, Nietzsche sempre permaneceu ligado a Platão, como bem o demonstrou Heidegger, que vê nele o mais esquivo platônico. Ele não é platônico no sentido de retomar as teses de Platão, como o faria um zeloso discípulo como Plotino. Mas ele o é, e totalmente, enquanto toda a sua problemática se situa no terreno de Platão, ou seja, no terreno metafísico. Quer se trate do ser ou do não-ser (o que o conduz a anunciar o “niilismo” de nosso tempo), das aparências e da realidade, da ordem do mundo ou do caos, do bem e do mal, todos os pares de opostos que ele estuda e que ele renova são pares platônicos. Ele escreve, além disso, que Sócrates lhe é tão próximo que ele se bate a cada dia contra ele!

Platonismo e cristianismo sempre presentes

Mas Nietzsche procura sempre ir além do jogo platônico de oposições metafísicas, ou éticas, “além do bem e do mal”, afirmando um bem superior, o do criador, mas também “além do ser e da aparência”, reconhecendo que a destruição do ser envolve a destruição das aparências e, consequentemente, que o platonismo, mesmo lutando contra ele, está sempre presente. Vale o mesmo para o cristianismo. Nietzsche procura desconstruir não o cristianismo, mas o que resta do cristianismo em sua época, a época de Comte,  de Feuerbach  e de Marx, talvez porque ele está desesperado, como um novo Pascal, ao ver o fracasso da religião de amor que é o ensinamento do Cristo. A posição de Nietzsche é muito ambígua: de uma parte, ele saúda o “niilismo” que é, para ele, a situação natural do mundo, não vindo o cosmo de “nada”, nihil, e não se ligando a “nada”, mas sendo as religiões igualmente niilistas, quer se tratasse do budismo ou do cristianismo. De outra parte, ele reage contra esse niilismo tentando, “a golpes de martelo”, forjar um novo homem, o super-homem, que é o verdadeiro criador de novas tábuas da Lei. Nietzsche havia compreendido que o homem não vive somente de pão, mas, sobretudo, de crenças, e que somente estas podem dar um sentido à sua vida.

 

 

Entrevista:

* Um retorno à caverna de Platão? Edição número 277, de 14-10-2008, intitulada Lévinas e a majestade do Outro.

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>> Confira outra entrevista concedida por Jean-François Mattéi.

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