Edição 293 | 18 Mai 2009

IHU Repórter - Silvia Benetti

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Patricia Fachin

Sorridente, bem-humorada e descontraída, Silvia Benetti, professora da graduação e do PPG em Psicologia, já viveu experiências bem interessantes ao longo de sua carreira, entre elas, participou de grupos de integração em universidades dos Estados Unidos. Há quase dez anos trabalhando na Unisinos, ela faz parte de uma equipe de professores que, através de orientações estudantis, desenvolve um trabalho de inserção nas comunidades do Vale do Sinos. Confira a seguir a entrevista concedida à IHU On-Line

 

Família – Minha mãe nasceu no interior em Santana do Livramento. Através dela, conheci os hábitos gaúchos e a tradição do estado. Meu pai é de Porto Alegre e a família veio da Argentina e São Paulo. Eu nasci em Porto Alegre e moro lá até hoje. Sou casada e tenho duas filhas que já são quase adultas: Fernanda, de 23 anos e Lúcia, de 25. Uma estuda Física e a outra está cursando Música. O Antonio Benetti, meu esposo, também é professor universitário, e trabalha na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Interesse pela Psicologia - Sempre me interessei pela área das Humanas. Na ocasião do vestibular, pensei que a Psicologia seria uma possibilidade de estudar de forma mais próxima as questões do ser humano.

Graduação – Quando concluí o curso de Psicologia - na ocasião, meu marido também se formou em Engenharia -, já havia o interesse em fazer doutorado. Nos organizamos e cursamos o mestrado. No início da década de 90, começou a se delinear uma oportunidade para ele ir fazer um curso nos Estados Unidos. Nessa época, eu trabalhava em hospitais. Trabalhei no Hospital da Criança Santo Antônio e depois passei para o Hospital de Clínicas, em Porto Alegre. Como ele conseguiu uma bolsa de estudos, fomos para os Estados Unidos.

Quando cheguei lá, me envolvi com alguns projetos educativos. A grande população minoritária do país fala espanhol, e, devido a uma confusão deles - porque achavam que os brasileiros também falavam espanhol -, fui convidada à trabalhar com os espanhóis - mal sabiam eles que eu também não falava espanhol, e sim o portunhol -, numa equipe de apoio universitária.  

Nas universidades americanas, existe um serviço de apoio ao aluno, que tem como objetivo integrar os estudantes ao ambiente universitário. Eles consideram que a permanência do aluno na instituição se dá por uma identificação com a comunidade universitária. Então, investem muito na construção de laços e redes sociais entre os alunos. Acontece que os estudantes estrangeiros têm dificuldade de fazer esse processo, pois não pertencem àquela cultura. Ao ingressar nessa equipe, me candidatei ao doutorado, consegui aprovação e também comecei a estudar. Depois, passei a trabalhar em um Centro de Família do município, que proporcionava trabalhos de apoio e atendimento clínico para indivíduos e grupos em necessidades. Durante o tempo em que permanecemos lá, moramos no Estado de Nova York, que era muito progressista e agradável. Quando terminei o doutorado, retornamos para o Brasil e passei a me dedicar exclusivamente à vida acadêmica. As minhas filhas participaram dessa trajetória, pois, quando mudamos para os Estados Unidos, elas eram crianças e chegaram aqui sem falar uma palavra em português.    

Ingresso na Unisinos – Eu entrei na Unisinos no ano 2000. Fazia mais ou menos uns seis meses que eu havia retornado dos Estados Unidos. Quando cheguei ao Brasil, iniciei atividades profissionais na PUC e na Unisinos. Conforme foram se desenvolvendo os projetos em ambas universidades, chegou um momento em que eu resolvi optar pela Unisinos. O trabalho na instituição me trouxe muita satisfação e uma possibilidade de crescimento junto ao curso de Psicologia que, na época só tinha graduação. No início, estava mais envolvida com as atividades de ensino na graduação. Logo em seguida, passei a atuar como supervisora nos estágios. Fiquei vários anos no Pipas, que hoje é o PAAS, programa da ação social. Nesse local, tive a oportunidade de conhecer professores de outras áreas e formar com eles parcerias bem interessantes. Na mesma época, estávamos organizando um curso de especialização em Psicologia Clínica, o qual seguia uma das características da Unisinos: a inserção na comunidade com atividades e ações voltadas para populações em vulnerabilidade social. Então, juntando a graduação e as atividades da especialização, os professores começaram a se organizar e criamos o curso de mestrado que já está na sua terceira turma. Atualmente, estou envolvida no mestrado e na graduação; participo da linha de pesquisa Clínica da Infância e da Adolescência.

Psicologia como trabalho social – Considero que a Psicologia tem muito a oferecer para a comunidade. Nós podemos trabalhar tanto nas questões preventivas quanto na intervenção. Nosso interesse é aprimorar e poder desenvolver essas atividades de forma a tentar, dentro do possível, modificar as realidades mais complicadas.

Trabalho com adolescentes – Trabalho particularmente com a questão da adolescência. Esse é um período da vida humana em que a gente espera que o jovem passe, depois de adquirir uma autonomia, a transformar o seu entorno. Mas estamos observando o contrário: a adolescência está tendo características muito sérias de questões psicológicas. Para se ter uma ideia, a depressão aumentou nesse período da vida. Vários jovens também têm morrido por questões relacionadas à violência. Compreender os motivos da evasão escolar também é um dos objetivos do meu trabalho. O abandono da escola não é só uma questão de certo ou errado, mas a escola é um dos únicos contextos que os jovens têm para encontrar um projeto diferente do seu habitual. E o que observamos? Que o jovem para de estudar.

Unisinos – Fico encantada e muito satisfeita observando o crescimento da Unisinos, a preocupação com a seriedade de se fazer um trabalho consistente e principalmente de dar esse trabalho como exemplo ao aluno, não só no mestrado, mas também na graduação. Na Psicologia, os alunos têm a oportunidade de participar de projetos importantes voltados a questões de intervenção nas comunidades, desde o primeiro e segundo semestres. Toda a preocupação e o apoio que a universidade dá para que os trabalhos sociais sejam desenvolvidos atestam a qualidade da instituição.

Vida – Estar vivo é uma experiência fantástica, em que podemos conhecer as pessoas, os animais, ao mesmo tempo em que podemos transformar essa realidade. Esse exercício de refletir sobre nós mesmos e transformar o que a gente encontra é uma coisa fantástica. Talvez seja essa a referência que eu trago no sentido de ser professora, de poder estabelecer, dentro de uma vida profissional, o ensino e o estímulo aos alunos, para que eles tenham curiosidade pela vida.
 
Lazer – Adoro sair para jantar fora. Não pela comida, mas pelo fato de poder passar mais algum tempo com a família, conversar, tomar um vinho. Na minha casa, temos o hábito de ouvir muita música clássica, em função da minha filha, além de jazz e MPB. Também gosto bastante de cinema, mas ultimamente não tenho encontrado muito tempo para me dedicar a isso. Fico me policiando para assistir mais espetáculos, ir ao teatro, mas realmente não tenho investido. Além disso, gosto muito de ler e aproveito, sempre que posso, para fazer novas leituras.

Projeto de vida – Tenho vários sonhos, mas um deles é viajar pela Europa. Por incrível que pareça, conheço o Canadá, os Estados Unidos, a América Latina, mas nunca fui à Europa. Também tenho muita vontade de viajar pelo interior do Itália. Sou encantada pela História Romana. Acho fantástico ver as similaridades de questões de civilização que há dois mil anos existiam. Esse é um projeto que de repente eu faça nos próximos anos.

Religião – Minha família é católica. Aqui na Unisinos, tenho trabalhado, junto com a Susana Rocca, a importância da espiritualidade no cotidiano das pessoas. Para mim, a espiritualidade possibilita uma reflexão muito importante para o ser humano.

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