Edição 292 | 11 Maio 2009

Movimento indígena: mais organizado e combativo

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Patricia Fachin | Tradução Benno Dischinger

Possibilidade de firmar acordo de livre comércio com Estados Unidos dificulta ainda mais as relações da Colômbia com a América Latina, assegura Alfredo Molano

“O assassinato de dirigentes de um lado e o desemprego de outro têm arruinado a luta sindical”, afirma o pesquisador Alfredo Molano, ao comentar a atual situação das lutas sociais reprimidas pelo governo colombiano. As manifestações ganham forma através do movimento indígena, sobretudo os do sul do país. “O assassinato de indígenas, que é muito alto, não conseguiu derrotá-los. Pelo contrário, fortaleceu-os em sua luta por seus territórios, sua cultura e sua autoridade territorial”, assegura. E constata: “Não há nenhum outro movimento social que tenha a capacidade de mobilização nacional e que possa desafiar o poder do estabelecimento”. Por outro lado, o movimento camponês que teve destaque nos anos 1970 tem sido reprimido pelo Estado e pelos paramilitares. “De maneira indireta, o movimento camponês se expressa hoje na luta dos cultivadores de folha de coca e na ideologia da guerrilheira”, assinala.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Molano apresenta uma radiografia da Colômbia e aborda os impasses vividos no país que busca uma aliança com os EUA. Segundo ele, na medida em que “Obama mantenha a prometida política de abertura democrática, o governo de Uribe com o do México estarão cada vez mais sós no cenário regional, enquanto representam a direita tradicional”.  

Nascido em Bogotá, o sociólogo Alfredo Molano tem se dedicado aos estudos das origens e do desenvolvimento de fenômenos sociais colombianos, em especial aqueles que têm origem nas minorias sociais. Ele cursou Sociologia na Universidad Nacional del Colômbia e também foi aluno da École Pratique de Hautes Études de Paris. Foi professor em várias universidades, colaborar de revistas como Eco, Cromos, Alternativa, Semana e Economia colombiana. Em suas obras, ele discute os sentimentos de uma sociedade dividida profundamente pelo regionalismo, pelos distintos movimentos sociais, e os conflitos históricos que envolvem o país nos últimos anos. Entre seus livros, citamos Del llano llano: relatos y testimonios (Bogotá: Santafé de Bogotá, 1996) e Desterrados: crónicas del desarraigo (Bogotá: El Ancora Editores, 2001).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como descreve a atual conjuntura colombiana? Quais são as expectativas diante das eleições do próximo ano? 

Alfredo Molano – Estamos num período eleitoral e isso agita toda a vida política. Uribe busca a segunda reeleição e é o candidato mais forte, embora sofrendo a dura competição de seu Ministro da Defesa Juan Manuel Santos,  um representante clássico do estabelecimento e da aristocracia de Bogotá. O Congresso teria de aprovar uma reforma constitucional para que Uribe possa ser candidato. Ele tem contra si o desgaste de dois períodos de governo, uma situação econômica que tende a piorar e uma deterioração de seu prestígio pelos crimes de estado que são denunciados por dois ex-presidentes, pela intervenção telefônica realizada pelo serviço civil de inteligência aos magistrados da Corte Suprema de Justiça, e os negócios de sua família, especialmente de seus filhos. Mas a oposição – o partido liberal e a esquerda social-democrata – está dividida e confundida.

IHU On-Line - O que a trajetória trabalhista e sindical colombiana representa atualmente no país?

Alfredo Molano – Até fins dos anos 1980, o sindicalismo, tanto operário como camponês, era forte. As reformas neoliberais - fundamentalmente a flexibilidade laboral - e a violenta repressão a dirigentes sindicais anularam de fato o Código do Trabalho. O partido Democrata norte-americano se negou a aprovar o Tratado de Livre Comércio (TLC), enquanto se continue matando sindicalistas. Porém, o que na realidade tem sido matado é o sindicalismo. Os últimos desfiles de 1º de Maio são espetáculos lamentáveis. O desemprego declarado pelo governo volta a ser de 14% e o desemprego disfarçado alcança 35%. O assassinato de dirigentes de um lado e o desemprego de outro têm arruinado a luta sindical.

IHU On-Line - Qual é a capacidade de manifestação do movimento indígena na Colômbia?

Alfredo Molano – O movimento indígena, sobretudo do Sul do país, é o mais organizado e combativo de todos os movimentos sociais. O assassinato de indígenas, que é muito alto, não conseguiu derrotá-los. Pelo contrário, fortaleceu-os em sua luta por seus territórios, sua cultura e sua autoridade territorial. Não há nenhum outro movimento social que tenha a capacidade de mobilização nacional e que possa desafiar o poder do estabelecimento.

IHU On-Line - O que dizer dos camponeses e trabalhadores rurais? Como eles se manifestam na Colômbia?

Alfredo Molano – O movimento camponês, muito forte nos anos 1970, também tem sido brutalmente reprimido pelo Estado e pelos paramilitares. De maneira indireta, o movimento camponês se expressa hoje na luta dos cultivadores de folha de coca e na ideologia guerrilheira.

IHU On-Line - Por que o governo colombiano tem interesse em fazer acordos com os EUA através do Tratado de Livre Comércio (TLC)? É interessante para o país manter relações comerciais com os EUA?

Alfredo Molano – O TLC convém a alguns grupos empresariais de grande poder político, mas tem opositores também muito fortes em setores como os grandes proprietários de terras, que se veriam seriamente limitados pela competição de setores agropecuários. A classe média é partidária do TLC pela importação livre de mercadorias norte-americanas de consumo. Os operários se opõem com algum êxito, porque os democratas os apóiam.

IHU On-Line - Neste sentido, como fica a relação da Colômbia com os outros países da América Latina?

Alfredo Molano – Na medida em que a maioria dos atuais governantes da América tenha um tímido divórcio da direita e que Obama mantenha a prometida política de abertura democrática, o governo de Uribe com o do México – e talvez agora com o Panamá -, estarão cada vez mais sós no cenário regional, enquanto representam a direita tradicional.

IHU On-Line - Com a eleição de Obama, que possibilidades se abrem para o país?

Alfredo Molano – Se Obama defender uma política forte e intransigente em defesa dos Direitos Humanos, as possibilidades de um acordo negociado entre as guerrilhas e o governo colombiano se fortalecem.

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