Edição 291 | 04 Mai 2009

Você está demitido! Os impactos psicológicos do desemprego

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Graziela Wolfart e Cesar Sanson

Marcelo Afonso Ribeiro explora o tema do impacto psicológico do desemprego na vida das pessoas e garante que uma parte considerável dos trabalhadores hoje vive sob constrangimento

O professor Marcelo Afonso Ribeiro é especialista no tema do impacto do desemprego na vida das pessoas. Professor doutor do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho da Universidade de São Paulo, ele é também coordenador do Centro de Psicologia Aplicada ao Trabalho (CPAT/USP). Na entrevista que concedeu por e-mail para a IHU On-Line, ele aponta, como os principais impactos do desemprego, o isolamento social, a culpabilização individual por sua situação, as perdas identitárias e a falta de reconhecimento social. Isso tudo pode, inclusive, explica, “gerar um estigma de desempregado como um papel social associado a ser ‘vagabundo’ ou ‘não gostar de trabalhar’". Marcelo acrescenta que “a atual estrutura do mercado de trabalho deixa todas as pessoas em estado de tensão e sob a ameaça de perder seu emprego ou seu trabalho, o que influencia no cotidiano de trabalho, gerando, por exemplo, uma maior submissão dos trabalhadores em muitas situações ou abusos por parte das chefias, com exigências exageradas de dedicação e mesmo situações constantes de humilhação, que podem configurar assédio moral”.

Marcelo Afonso Ribeiro possui graduação em Psicologia, mestrado em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano e doutorado em Psicologia Social e do Trabalho, pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, é professor e pesquisador do Instituto de Psicologia da universidade.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - A crise econômica mundial tem sido responsável pela demissão de milhares de trabalhadores. Qual é o impacto da demissão na vida de um trabalhador?

Marcelo Afonso Ribeiro - A demissão é, em geral, uma transição não esperada na carreira e, como todo imprevisto, gera um ciclo de reações. Quando a pessoa se recoloca no mercado de trabalho num curto período de tempo, os efeitos danosos da demissão tendem a não se instalarem na pessoa que vivenciou tal experiência, apesar de que, a partir de então, há a possibilidade de uma nova demissão se tornar mais real, o que pode levar a: uma reflexão e replanejamento do projeto de vida, uma paralisia seguida de uma negação do ocorrido, ou uma vivência constante de um fantasma de descartabilidade (a crença que poderá ser demitido novamente a qualquer momento, mesmo que nada indique isso). Entretanto, se a situação de desemprego se prolonga significativamente, no chamado DLD (Desemprego de Longa Duração), poderá se iniciar um ciclo de reações com quatro momentos e duas possibilidades existenciais. Os dois primeiros momentos são semelhantes, a saber: (1) Choque (negação do ocorrido e culpabilização do outro seguido de um sentimento de traição); e (2) Transição e confusão (autoacusação com raiva de si e do contexto de trabalho no qual estava inserido, vergonha, incerteza sobre o futuro e busca incessante de um novo trabalho sem critérios definidos).

Na primeira possibilidade, pode se instalar a chamada Síndrome do Desemprego de Longa Duração, conforme descrito por Marie Jahoda  e Edith Seligmann-Silva,  gerando dois momentos finais: (3) Adaptação patológica (afastamento social e apatia); e (4) Resignação fatalista (abandono da busca de trabalho e da esperança de trabalhar). Na segunda possibilidade, conforme descrito por Nancy Schlössberg,  a pessoa faz: (3) Autoavaliação de sua carreira; e (4) Elabora estratégias para voltar a trabalhar e se manter trabalhando. De forma resumida, os principais impactos do desemprego seriam: isolamento social, culpabilização individual por sua situação, perdas identitárias e falta de reconhecimento social, podendo, inclusive, gerar um estigma de desempregado como um papel social associado a ser “vagabundo” ou “não gostar de trabalhar”.

IHU On-Line - A crise instaura uma ameaça permanente de cortes. Como se sente o trabalhador numa situação dessas? O seu cotidiano de trabalho e as relações sociais sofrem mudanças?

Marcelo Afonso Ribeiro - A atual estrutura do mercado de trabalho deixa todas as pessoas (empregados, desempregados e subempregados – pessoas que estabelecem vínculos precários e instáveis com o trabalho) em estado de tensão e sob a ameaça de perder seu emprego ou seu trabalho (lembrando que uma parte das pessoas não tem emprego, mas mesmo assim estão submetidas à conjuntura atual de trabalho), o que influencia no cotidiano de trabalho (gerando, por exemplo, uma maior submissão dos trabalhadores em muitas situações ou abusos por parte das chefias, com exigências exageradas de dedicação e mesmo situações constantes de humilhação, que podem configurar assédio moral) e também na vida como um todo (falta de distinção clara entre o tempo de trabalho e o tempo livre; necessidade de envolvimento em ações de aprendizagem continuada, que também reduzem o tempo livre; adiamento de projetos de longo prazo, como adquirir uma casa própria, casar ou ter filhos; ou até mesmo dificuldade de planejar o futuro, ficando muito preso ao presente).

IHU On-Line - As profundas mudanças em curso no mundo do trabalho – reestruturação produtiva, introdução de novas tecnologias, adoção de novos métodos da gestão da força de trabalho – estão mudando o comportamento dos trabalhadores na sua relação com o trabalho e com os seus colegas de trabalho?

Marcelo Afonso Ribeiro - O principal resultado da flexibilização do trabalho e da reestruturação produtiva, em termos comportamentais e relacionais, seria a individualização das relações com trabalho com consequente degradação do laço social e impossibilidades de cooperação entre os trabalhadores; e instauração de uma relação direta com o trabalho e a organização do trabalho, na qual o colega de trabalho não é reconhecido como alguém que pode ajudar e se transformar num rival em potencial, deixando todos muito sozinhos e sem referências às quais se remeterem para construir sua vida no trabalho. Isto acarreta um não-questionamento do cotidiano de trabalho e uma aceitação quase total deste cotidiano pela dificuldade de mobilização coletiva pela mudança, gerando o que Dejours  nomeou de cinismo viril (crença de que tenho que enfrentar toda e qualquer situação no trabalho e sair vencedor, independente das condições que me são oferecidas e das consequências geradas por esta postura).

IHU On-Line - A sociedade industrial foi responsável pela construção de uma metanarrativa de vida: centralidade do trabalho, identidade social construída a partir do trabalho, estabilidade no emprego, rotina cotidiana, laços de forte companheirismo entre os trabalhadores. Como o senhor caracterizaria esse “novo trabalhador” exigido por um mercado de trabalho cada vez mais flexível? Quais são os seus traços psicológicos?

Marcelo Afonso Ribeiro - O novo trabalhador flexível é alguém levado a achar que a mudança constante é a nova regra do jogo e que qualquer tipo de constância, permanência e estabilidade devem ser evitadas, ou seja, a multifuncionalidade e a identidade múltipla seriam os principais traços deste novo trabalhador contemporâneo. Devemos ponderar, entretanto, que este novo perfil não vale para a totalidade do mercado de trabalho, que muitas vezes exige o trabalhador mais tradicional, e que a flexibilidade sempre é relativa e a mudança constante, sem permanência, nem apropriação, é extremamente danosa à subjetividade e à identidade humanas. Desenvolvimento e mudança são fundamentais à vida, mas, se realizados sem critérios e sem permanência, são desprovidos de sentido e podem fazer mal às pessoas.

IHU On-Line - Alguns autores, entre eles Cristophe Dejours, afirmam que a nova realidade do mundo de trabalho é permeada pelo sofrimento e constrangimento. O senhor concorda com essa interpretação?

Marcelo Afonso Ribeiro - Eu diria que uma parte considerável dos trabalhadores vive sob constrangimento e que o trabalho, como o próprio Dejours afirma, gera sofrimento, mas que este sofrimento pode gerar o desenvolvimento humano, quando favorece a inventividade e a criatividade, ou, então, a paralisia e a doença. A atual estrutura do mundo do trabalho não está claramente definida, se apresentando de forma ambígua e ambivalente, e esta falta de compreensão do que fazer pode gerar o constrangimento, cabendo aos contextos de trabalho apresentarem de forma clara suas demandas com relação ao trabalho e aos trabalhadores, o que, se não é feito, pode acarretar na transformação do trabalho em algo gerador somente de um sofrimento que não leva a nenhuma forma de desenvolvimento.

IHU On-Line - A identidade e a constituição psicológica de um trabalhador do mercado informal se distinguem de um trabalhador do mercado formal?

Marcelo Afonso Ribeiro - Se entendermos que tanto a identidade quanto a subjetividade são construídas, no caso de um trabalhador, na relação com seu trabalho, há diferenças neste processo entre o mercado formal e o informal, principalmente no tocante ao reconhecimento social dado a cada vínculo estabelecido (informal ou formal). Entretanto, tanto a construção subjetiva quanto a construção identitária necessitam do outro para serem validadas e ganharem sentido para as pessoas e se estabelecem através de processos semelhantes, que gerarão resultados diferenciados. Eu não diria que não é o fato do vínculo do trabalho ser formal ou informal que produz identidades e subjetividades diferentes, mas sim a representação social que cada um apresenta que geraria uma possível distinção, até porque a identidade no trabalho se constrói na relação entre a pessoa, o trabalho e o outro, e o que é diferente nesta relação é o tipo de reconhecimento gerado pelo outro.

IHU On-Line - Em sua opinião, e considerando-se as suas pesquisas, a partir de que idade se inicia a disputa para o mercado de trabalho nos dias de hoje?

Marcelo Afonso Ribeiro - Depende do grupo social ao qual estamos tentando entender, pois não existe um mercado de trabalho genérico, nem um comportamento comum do trabalhador. Um jovem mais favorecido socioeconomicamente tenderá a ingressar no mercado de trabalho mais tarde, após ter concluído um curso superior e uma pós-graduação, por volta dos 25 anos, enquanto que um jovem mais desfavorecido socioeconomicamente poderá ingressar no mercado de trabalho aos 15 anos, por necessidade de ajudar sua família nas questões de subsistência, sendo que um não disputará lugar com o outro. Qualquer generalização, sem levar em conta classe social, gênero, raça, local de moradia etc. tende a ser equivocada, inclusive havendo variações significativas no interior das próprias classes sociais.

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