Edição 290 | 20 Abril 2009

Artigo da Semana - Bonjour, limites!

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Lucia Ribeiro

Recebemos e publicamos um artigo inédito, enviado pela socióloga Lucia Ribeiro, especialmente à IHU On-Line. Nele, ela fala sobre a experiência de vivenciar os limites, como algo que faz parte do aprendizado humano. A reflexão foi motivada por um tombo no ônibus, que, em consequência, lhe ocasionou traumatismo craniano e a visão dupla, com a qual vem convivendo há semanas.

Lucia Ribeiro introduz o texto agradecendo a sugestão do título à Letícia Cotrim, lembrando “Bonjour, tristesse” de Françoise Sagan, que “fez sucesso em nossa juventude, nos idos de 50”, como ela escreve. Lucia Ribeiro é doutora em Sociologia, pela Universidade do México. É também assessora de movimentos sociais, particularmente vinculada às CEBs.  É autora de Entre (in)certezas e contradições: práticas reprodutivas entre mulheres das Comunidades Eclesiais de Base da Igreja Católica (Rio de Janeiro: NAU, 1997) e Sexualidade e reprodução: o que os padres dizem e o que deixam de dizer (Petrópolis: Vozes, 2001). Em parceria com Leonardo Boff, escreveu o livro Masculino/Feminino: experiências vividas (Rio de Janeiro: Record, 2007).

Confira o artigo.

Partilhando uma experiência de limites,

com os amigos e amigas que também a vivenciam.

Vivenciar os limites faz parte do aprendizado humano. Às vezes este processo vai se intensificando, progressivamente, ao longo dos anos. Outras vezes, se radicaliza nada mais que de repente, quando sucede o imprevisto. Foi o meu caso: uma freada brusca, um tombo no ônibus, e, em consequência, traumatismo craniano e a visão dupla, com a qual venho convivendo, semanas a fio...

Uma experiência assim é sempre extremamente exigente, e coloca múltiplos desafios.

O primeiro deles é a própria aceitação da nova condição, sobretudo quando esta irrompe inesperadamente, revirando a vida e alterando todo o cotidiano. Inevitavelmente, a aceitação externa se impõe, sem discussão possível. Mas há sempre os graus da liberdade interior, que permite – pelo menos! – escolher as diversas alternativas: revolta, inconformismo, submissão passiva ou aceitação consciente diante do inevitável (não necessariamente nessa ordem nem definidas de forma absoluta e exclusiva) O desafio é permanente e cada dia precisa ser (re)conquistado. Condição básica sempre é uma enorme capacidade de paciência, já que os processos de recuperação são extremamente lentos e tudo precisa ser feito com muita calma...

Ligado a este, está o dilema da acomodação versus a autonomia possível. Em um primeiro momento, esta última parece esfumar-se por todos os lados. Ver-se, de uma hora para outra, presa a uma cama de hospital, às voltas com o choque, a dor, e ligada - muito concretamente - ao inevitável tubo do soro, é suficiente para imobilizar qualquer um...

Mas as vivências não são simples nem unívocas: brota, ao mesmo tempo e paradoxalmente, uma dimensão de alívio: nos vemos “absolvidas” de toda e qualquer responsabilidade ou obrigação – e isto para pessoas ativas, permanentemente (pré)ocupadas com múltiplos compromissos, pode significar, no primeiro momento, uma trégua bem-vinda, que nos devolve a nós mesmos/as, podendo agora dedicar-nos exclusivamente ao cuidado do próprio corpo, sem tempo marcado e sem culpa.

Hélas! Tal tarefa adquire imediatamente novas dimensões: somando-se aos cuidados considerados “normais” (ginástica, alimentação, repouso) multiplicam-se as terapias de todo tipo, os horários dos remédios, os exames, as consultas médicas... E, para responder às novas solicitações, descobrimos que a energia – tanto física quanto psíquica e emocional – baixa espantosamente, obrigando a paradas frequentes. As limitações surgem de todo lado, para caminhar, para se locomover, para assumir o cotidiano em suas menores dimensões.

A dependência se faz presente e entregar-se totalmente a ela ou, pelo contrário, tentar identificar graus de autonomia possível é um desafio constante. Até porque a situação é sempre mutável e a autonomia é uma conquista permanente, baseada em um princípio básico: descobrir a cada momento tudo o que se pode fazer por si mesmo/a - “all by myself” – e não abrir mão de nenhuma das próprias capacidades, ainda que mínimas.

Há que reconhecer, entretanto, que certas coisas já não podemos mesmo fazer. Surge, então, o desafio de aceitar ser cuidados/as ou mesmo – mais complicado ainda! – expressar as próprias necessidades e saber pedir o que se precisa. Isto é tanto mais difícil quanto mais nos encontramos em uma situação de fragilidade: esta costuma trazer uma hiper-sensibilidade a tudo que possa nos afetar, positiva ou - sobretudo! - negativamente. As exigências – objetivas e subjetivas - podem se multiplicar e nem sempre os/as outros/as conseguem responder a elas adequadamente.

Nestes casos, a mágoa ou mesmo o ressentimento podem se infiltrar (nem tão) subrepticiamente. Aqui, é importante saber distinguir os diversos tipos: se algumas mágoas são total ou parcialmente justificadas, outras podem ser resultado de exigências excessivas não correspondidas. Talvez a melhor forma de administrar esta realidade seja, sem negá-la diretamente, fazer interiormente um trabalho para minimizá-la. E não permitir que o coração se transforme em um copo repleto de mágoa, porque então, como já nos prevenia Chico Buarque “qualquer desatenção – faça não! – pode ser a gota d’água”...

Finalmente, apresenta-se o desafio da solidão. Porque, em alguns momentos, esta é inevitável. É verdade que, às vezes, pode até ser bem-vinda; o cansaço e a exaustão podem limitar ou mesmo cortar as possibilidades de diálogo com o/a outro/a: tudo o que se quer mesmo é estar tranquilo/a sozinho/a e poder descansar... Em outros momentos, entretanto, há que conviver com a ausência, mesmo indesejada. E saber encontrar-se consigo mesmo/a, sem angústia nem tristeza, em paz, é também uma conquista. E uma oportunidade para crescer interiormente.

Para os que cultivam a espiritualidade, abrem-se possibilidades únicas, que podem ser trilhadas, com maior ou menor facilidade. Porque, naturalmente, os obstáculos estão sempre presentes: as carências e a falta de energia podem dificultar a capacidade de concentração. E aqui o esforço e a disciplina – palavra que a gente odiava tanto! – são indispensáveis.

Aliás, não só nesta área: as menores decisões, nestes períodos de compromissos externos reduzidos, exigem força de vontade e a capacidade de saber administrar nosso tempo e nossas atividades; afinal, em ultima análise, somos nós mesmos os principais responsáveis por todo o ritmo da vida.

Isso não significa adotar uma posição de rigidez ou de excessivas exigências; porque o esforço cotidiano, às vezes, é sumamente cansativo. Paulo José  - que tem uma longa experiência nesse campo, enfrentando corajosamente o mal de Parkinson há mais de 15 anos - afirmava, em uma de suas últimas entrevistas, que há que manter uma séria disciplina pessoal, em termos de tratamentos e terapias, mas ao mesmo tempo reconhecia que “há momentos que isto cansa, e a gente tem vontade de chutar o pau da barraca...” Nesta hora, segundo ele, é preciso conseguir um espaço de negociação consigo mesmo/a e distinguir o que é – e o que não é - possível conceder-se.

Ou seja, em última análise, o suporte básico com o qual se pode contar, nesta hora, está em nós mesmos: em nossa força interior e – para os que creem – na Presença misteriosa que nos habita.

Mas – felizmente! – há também muitos outros apoios que se apresentam e que há que descobrir.

Sem dúvida, a presença das pessoas queridas é absolutamente fundamental. Para quem partilha a vida com um companheiro/a, este é o apoio principal. No meu caso, poder contar com este cuidado constante e incansável foi um dom inestimável.

Junto, estão a família e os amigos/as, desde os mais próximos, dividindo o cotidiano concreto – incluindo as secretárias e “cuidadoras” - até os que aparecem providencialmente. Cultivar, incentivar – e saber agradecer! – esta presença e este carinho é uma atitude básica. Cria-se assim uma rede de energia, que fortalece a dimensão da cura.

Mas há também os contactos virtuais: a internet, nestes momentos, joga um papel insubstituível (sempre que a vista esteja minimamente em condições!). E há os livros, a música, os jogos.

Outro elemento importante é retomar, na medida das possibilidades, a vida “normal” e não se colocar em uma posição marginal. Aí, para os/as que têm no trabalho profissional um eixo central da vida, reassumi-lo – mesmo que de forma inevitavelmente limitada - joga um papel central.

Enfim, cada um/a vai administrando o cotidiano a seu modo. Mas talvez o mais importante seja estar abertos/as a tudo de bom que vai acontecendo cada dia, de forma às vezes imprevista, e que pode mudar – se não nossa condição objetiva - pelo menos nosso astral para vivenciar os limites...

Leia mais...

>> Lucia Ribeiro já deu outras contribuições à IHU On-Line. Confira o material na nossa página eletrônica (www.unisinos.br/ihu)

• A situação dos migrantes brasileiros em Atlanta. Artigo publicado nas Notícias do Dia, de 18-11-2008.

• Em defesa da vida: a Igreja e a questão do aborto. Entrevista publicada nas Notícias do Dia, de 06-03-2008.

• A interrupção voluntária da gravidez: questões em aberto no interior da Igreja Católica. Entrevista publicada nos Cadernos IHU em formação, número 25, de 18-04-2008, intitulado Aborto. Interfaces históricas, sociológicas, jurídicas, éticas e as conseqüências físicas e psicológicas para a mulher.

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição