Edição 290 | 20 Abril 2009

“Não se pode, hoje, falar em cultura alternativa”

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Márcia Junges

César Carvalho analisa contracultura como categoria para repensar a produção do conhecimento científico. Hoje a contracultura é impossível, pondera, já que o mundo contemporâneo se converteu num sistema único autofágico. Uma pergunta o fez viajar 16 mil km numa moto, visitando e conversando com o pessoal alternativo: “se esse pessoal busca um novo estilo de vida, baseado numa percepção de mundo que não é só a lógica instituída, então, talvez, posso encontrar junto a eles as respostas que pretendo para repensar a produção do conhecimento científico?”. A resposta originou o livro Viagem ao mundo alternativo: a contracultura nos anos 80 (São Paulo: Unesp, 2008).

Uma pergunta fez o sociólogo e historiador César Carvalho viajar 16 mil km numa moto, visitando e conversando com o pessoal alternativo: “Se esse pessoal busca um novo estilo de vida, baseado numa percepção de mundo que não é só a lógica instituída, então, talvez, posso encontrar junto a eles as respostas que pretendo para repensar a produção do conhecimento científico?”. A resposta, dada na pesquisa a campo que realizou, é a sua tese de doutorado Viagem ao mundo alternativo: a contracultura nos anos 80 (São Paulo: Unesp, 2008). O lançamento, ocorrido em 30 de março, aconteceu na Livraria da Vila, na Vila Madalena, em São Paulo. De acordo com sua tese, é difícil falarmos em uma contracultura no século XXI, pois esta pressupõe brechas não institucionalizadas da sociedade, quando é possível viver à margem do sistema. Como “o mundo contemporâneo tornou-se praticamente um sistema único, um sistema aberto que se autodevora de forma ininterrupta e se desenvolve com base nesta autofagia - todas as diferenças, estranhamentos, idiossincrasias são facilmente absorvidas e integradas à dinâmica desse sistema -, a própria ideia de contracultura torna-se inviável”.

Carvalho, que atualmente leciona na Universidade Estadual de Londrina, no departamento de Ciências Sociais, é autor de outros livros, como Por um Brasil contemporâneo - Arte & política (Marília: FEFCSD/UNESP, 1982), Lavras de cultura (Marília: FEFCSD/UNESP, 1982) e Popnaroma (Marília: FEFCSD/UNESP, 1983). Graduado em Ciências Políticas e Sociais, pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPS), é mestre em Sociologia, pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e doutor em História, pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquisa Filho (Unesp).

Confira a entrevista que fizemos por e-mail.

IHU On-Line - Quais são as diferenças entre a contracultura dos anos 1960, 1970 e 1980?

César Carvalho - Eu faço a seguinte distinção entre a contracultura destas três décadas: anos 60, hedonismo e pacifismo; anos 70, afirmação hedonista dos novos valores e anos 80, ecologia.

A primeira, uma herança direta da geração beat, é marcada pelo hedonismo e pelo pacifismo - momento bastante influenciado pela Guerra do Vietnã. O movimento é mais significativo nos Estados Unidos, devido às circunstâncias históricas e conjunturais que o país vivia, caracterizando a contracultura, de fato, como movimento social. Aliado às manifestações de paz, sintetizada no slogan “paz e amor”, os jovens recusam o estilo de vida dominante, buscam novas experiências e assumem o caráter hedonista do viver a vida. No Brasil, limitou-se ao campo das artes, música e poesia. 

A segunda, os anos 1970, sintetizada pela frase de John Lennon,  “o sonho acabou”, é um período marcado basicamente pelas atitudes comportamentais, religiosas e hedonistas. No Brasil, época de ditadura militar bastante inflexível, assumiu aos olhos dos críticos uma característica de “geração perdida”, porque seus militantes recusavam-se, em sua maioria, a participar da vida política, o que vale dizer, para a época, assumir a vida alienada. Todavia, foi a década marcante para a contracultura brasileira porque, ao contrário da década anterior, eram em maior número; praticavam em sua vida cotidiana os valores que pregavam - liberdade sexual, religiosa, comportamental e assumiam, como positividade, a alienação política. Tanto nos anos 1960 quanto nos 1970, a ideia marcusiana de Grande Recusa se fazia valer. Nestas duas décadas, o movimento contracultural apresentava proposta clara de recusar o sistema social.

Finalmente, nos anos 80, uma mudança importante na diretriz do movimento contracultural: não se trata mais de recusar o sistema, mas de propor-lhe alternativas de sobrevivência diante das catástrofes ecológicas que começam a manifestar-se de forma indiscutível. A proposta, então, é buscar alternativas de vida que possam de alguma maneira, contribuir para a sobrevivência do planeta. Note-se que, nesta década, a defesa ecológica que se faz presente desde os primórdios do movimento contracultural ganha importância e passa a ser uma das diretrizes fundamentais, orientando inclusive seus militantes à formação das chamadas comunidades alternativas e à prática de uma vida saudável: alimentação e medicina natural. Nesta década, a Grande Recusa desaparece da pauta para ceder lugar à negociação com o sistema. A influência da contracultura e a prática cotidiana de seus militantes junto aos poderes públicos gera intervenções ligadas, principalmente, à preservação ambiental, medicina natural, homeopatia.

IHU On-Line - De que forma essa contracultura se solidificava como um posicionamento político divergente do status quo?

César Carvalho - Não é possível generalizar um posicionamento político em relação à contracultura. Constante no ideário contracultural é a pouca importância dada à vida política institucional. Parte-se sempre do princípio que a mudança social passa, antes, pela mudança da consciência individual. Isto não significa, contudo, que a prática política está proibida. Nem no Brasil, nem nos Estados Unidos ou em qualquer outro país que a contracultura tornou-se um movimento digno deste nome há qualquer interdição à prática política.

Um exemplo norte-americano dos anos 1960, Thimothy Leary,  um dos principais defensores do uso do ácido lisérgico, LSD, como expansor da consciência, acreditava que se conseguisse eleger-se governador da Califórnia poderia implementar políticas para difundir o uso da droga. Candidatou-se, ganhou apoio de inúmeros setores sociais californianos, mas não ganhou as eleições.

Primórdios do Partido Verde

No Brasil, muitos dos militantes contraculturais alternativos desenvolveram atividades políticas em seus municípios, candidataram-se a cargos eletivos, vereadores, prefeitos, deputados e muitos trabalharam junto a órgãos governamentais para implementar políticas de preservações ambientais. Muitos destes militantes ajudaram, inclusive, a formar o Partido Verde.

Para sintetizar a resposta, pode-se dizer que qualquer atividade é válida, desde que a consciência do militante esteja em paz com seus propósitos, mesmo porque não há um programa de ação muito claro. O que existia era uma série de valores, um universo simbólico, que servia como diretriz para cada um dos interessados, enquanto indivíduos, não enquanto membros de um grupo social ou qualquer outra agremiação.

IHU On-Line - Que tipo de contracultura existe na sociedade do século XXI? Como definiria essa contracultura?

César Carvalho - É difícil concordar com a ideia de uma contracultura no século XXI. O movimento contracultural foi possível enquanto o sistema social ainda apresentava brechas não institucionalizadas. Então, era possível viver à margem do sistema, buscar alternativas de vida a esse mesmo sistema e professar valores não combatíveis com tal sistema.

A partir do momento que o mundo contemporâneo tornou-se praticamente um sistema único, um sistema aberto que se autodevora de forma ininterrupta e se desenvolve com base nesta autofagia - todas as diferenças, estranhamentos, idiossincrasias são facilmente absorvidas e integradas à dinâmica desse sistema -, a própria ideia de contracultura torna-se inviável. Isso me a responder à sua próxima pergunta.

IHU On-Line - Fala-se do fim das utopias, sobretudo após o colapso do socialismo. Nesse aspecto, como a contracultura segue fomentando a dissidência, o sonho, a alternativa de um mundo diferente, fora do padrão?

César Carvalho - Realmente, depois do colapso do socialismo o “fim das utopias” ficou bastante evidenciado. Mas, independente do colapso socialista, é a própria dinâmica do mundo contemporâneo que nos coloca a impossibilidade de qualquer utopia. Viver o presente, uma das ideias comuns ao ideário contracultural, tornou-se hoje uma realidade cotidiana. As sociabilidades que se constroem neste mundo líquido - para usar uma terminologia cara a Z. Baumann - se constroem à revelia dos sujeitos históricos, centrados na atualização do presente. O passado já foi, o futuro ainda não é, o que conta é o aqui e agora, o presente. Claro, muitos consideram esta faceta pós-moderna de nossa realidade uma tragédia exatamente porque ela dilui os sonhos românticos da construção de uma sociedade futura. Esta sociedade não existe, este sonho é quimérico. O que existe são as escolhas que se faz no dia-a-dia e, estas sim, é que constroem nossas sociabilidades e, em termos gerais, nossa sociedade global.

E, para falar em termos históricos, a sociedade contemporânea deve muito de seus valores, hoje institucionalizados, ao ideário contracultural. À medida que esse ideário institucionalizou-se, tornou moeda corrente, ele passou a constituir também os valores que norteiam o dia-a-dia de nossas ações. Assim, falar hoje, por exemplo, entre união de cônjuges do mesmo sexo já não causa nenhum constrangimento, exceto entre alguns setores mais conservadores e religiosos. No grosso da sociedade, é uma ideia aceita. Ora, o homossexualismo, liberdade sexual, e constituição de famílias não convencionais foram ideias postas e praticadas pelos movimentos contraculturais.

IHU On-Line - Quais são as principais manifestações da contracultura que identificou em sua pesquisa?

César Carvalho - Eu diria que a principal manifestação da contracultura identificada por minha pesquisa foi a descoberta de um pensamento mítico. Explico. Os jovens contraculturais nos anos 1980, também conhecidos como alternativos, foram para regiões muito distantes, de difícil acesso, com a ideia de construírem comunidades. Nelas, deveriam aprender a cultivar produtos orgânicos, estabelecer redes harmoniosas de relacionamentos e trabalhar em prol da preservação ambiental. As comunidades revelaram-se experiências fracassadas. Saídos de uma vida urbana, sem nenhuma prática rural, sofreram os revezes de uma vida árdua, rural. Muitos voltaram para as cidades, mas os que ficaram descobriram outras alternativas de vida, bastante diferente daquelas que buscavam.

Nesta experiência, o que eles aprenderam foi que a vida tem sentido, um sentido sagrado, mítico. E é esta recuperação do pensamento mítico que tornou a contracultura um movimento muito importante. Muitas destas experiências ainda continuam sendo feitas Brasil a fora. Talvez, pelas novas condições históricas nas quais vivemos, elas sejam experiências pouco significativas. Mas se elas têm ainda alguma importância, é exatamente este resgate mítico do pensamento: viver vale a pena, e faz sentido! Redescobrir, assim, o aspecto sagrado da vida de cada um, esta é a principal manifestação que encontrei na pesquisa e também a que impregnou boa parte da sociedade contemporânea.

IHU On-Line - Diria que os meios de comunicação de massa fomentaram a contracultura? Por quê?

César Carvalho - Os meios de comunicação de massa foram importantíssimos na formação do movimento contracultural. Primeiro, ajudaram a disseminar as ideias que se construíam entre os jovens contraculturais. Um simples exemplo esclarece bem a importância dos meios de comunicação. Allen Ginsberg, num depoimento dado nos anos 1980 para uma cineasta, é bastante taxativo. Não vou, aqui, conseguir reproduzir o texto literalmente, cito de memória. Diz Ginsberg, “nós éramos jovens que queríamos curtir nossas vidas, escrever poesias, viajar, não tínhamos nenhuma intenção de sermos conhecidos. Depois que nossas atividades foram veiculadas pela imprensa, tornamo-nos conhecidos e ganhamos seguidores. Não queríamos nada disso”.

Qual é, então, o papel dos media? Exatamente esse: ao divulgar uma notícia, um fato, alguns de seus receptores se identificam com os valores expressos naquela matéria e a propagam por outras formas. Estes valores podem ganhar adeptos e formar-se, assim, um mercado de ideias que, muitas vezes, como foi o caso da contracultura, produzir acontecimentos.

Mas os media não tem esse poder de fogo se as circunstâncias históricas não forem propícias. No caso do depoimento de Ginsberg, o momento histórico era propício. Numa sociedade americana extremamente inflexível, com valores morais conservadores, uma sociedade, enfim, disciplinadora, ler notícias sobre jovens que vivem de forma diferente, que contestam o regime, leva outros jovens a se identificarem com aqueles valores que, por sua vez, serão assimilados, propagados e podem, assim, ajudar a gerar um movimento da importância que foi o movimento contracultural. Por esta razão, que muitos historiados hoje colocam os media como elementos importantes da própria natureza da história. Em outras palavras, é impossível falarmos hoje em história desconsiderando o papel dos media.

IHU On-Line - E hoje, qual é a relação da mídia com essa cultura alternativa?

César Carvalho - Sua pergunta pressupõe que eu acredite que hoje tenhamos uma cultura alternativa. Mas, a esta altura, acredito, está claro que não há essa possibilidade. Não se pode, hoje, falar em cultura alternativa, pelas razões explicadas anteriormente.

IHU On-Line - Que experiências pessoais o ligam à contracultura?

César Carvalho - Meus primeiros contatos com a contracultura foram, como a de muitos outros, pelo viés da literatura e da música. Estávamos nos anos 1960 e as informações sobre o movimento hippie chamavam muito a minha atenção. Mas era uma coisa muito distante. Por outro lado, os Beatles, The Doors, os teatros experimentais, as músicas dos Novos Baianos, que então despontavam, chamavam a atenção para questões comportamentais, valores filosóficos diferentes. Mas tudo encarado mais como forma poética, do que modo ou estilo de vida. Nessa época era adolescente. Não tinha a menor ideia de seu significado social, político, ético, nada!

Depois, adulto e professor de Sociologia, comecei a defrontar-me com questões bastante angustiantes e que tinham a ver com a questão da veracidade do conhecimento. Angustiava-me o fato de que toda a construção de um pensamento científico baseava-se em pressupostos, tal como os religiosos, a-priorísticos. No caso do pensamento científico, de uma lógica centrada na racionalidade. Todos os meus trabalhos acadêmicos estavam focalizados nesse dilema angustiante: ciência é igual à razão. Como sair dele?

Não me lembrava das antigas informações sobre hippies e contracultura. O tropicalismo deixou sua marca, as poesias undergrounds dos anos 1970, idem. Mas era uma herança literária, poética. Não alcançava suas consequências.

IHU On-Line - Como chegou a esse tema de pesquisa? Que aspectos o interessaram?

César Carvalho - Até que no final dos anos 1970 os media começam a publicar notícias de jovens que, além de profetizar o fim do mundo, dirigiam-se a pontos distantes como forma de contribuir para a preservação ambiental e fugir das catástrofes ecológicas. As notícias, de certa forma, mostravam existir um continuum entre estes jovens e aqueles, dos anos 1960. Ao mesmo tempo, o Brasil vive um boom literário beatnik: Jack Kerouac, Allen Ginsberg, Burroughs, entre outros, são publicados em português.

Neste momento, eu já estava fisgado pela consciência ecológica. Vivia numa chácara, praticava agricultura natural, evitava, como evito até hoje, o uso de medicamentos. Enfim, meus valores eram bastante próximos dos valores contraculturais. Assim, as respostas às minhas angústias acadêmicas começavam a fazer sentido. E, finalmente, veio a pergunta decisiva que me levou a viajar 16 mil km numa moto, visitando e conversando com o pessoal alternativo: se esse pessoal busca um novo estilo de vida, baseado numa percepção de mundo que não é só a lógica instituída, então, talvez, posso encontrar junto a eles as respostas que pretendo para repensar a produção do conhecimento científico? Ou não? Só tinha um jeito de saber: sair a campo. E foi o que fiz.

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