Edição 290 | 20 Abril 2009

“Já não se considera mais o ambiente off-line como separado do ambiente on-line”

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Patricia Fachin

Para a pesquisadora Sandra Portella Montardo, as redes sociais da internet possibilitam a inclusão social, o que garante entre os participantes um amparo assistencial que se “reverte na qualidade de vida de todos os envolvidos”.

Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, a professora do Centro Universitário Feevale Sandra Portella Montardo diz que a popularidade de redes sociais de relacionamento, como Facebook, Twitter e Orkut, está relacionada, entre outras coisas, ao “crescimento do uso da banda larga no país”. “De acordo com dados levantados pelo Ibope Nielsen em fevereiro de 2009, o acesso à banda larga aumentou 24% em um ano e atinge 87% dos usuários no país, o que facilita a experiência de navegação”, aponta. Para a pesquisadora, vivemos um momento em que é difícil separar o ambiente on-line do off-line, assim, assegura, relacionamentos estabelecidos na internet “podem favorecer as pessoas conforme seus interesses no uso das ferramentas de socialização, dentro e fora da web”.

Integrante da pesquisa “Inclusão social via socialização on-line de pessoas com necessidades especiais”, Sandra Portella Montardo percebe a internet como meio potencializador das relações sociais. Ao comentar a socialização de pessoas que participam de redes sociais sobre Síndrome de Asperger e Síndrome de Down, a pesquisadora diz que, “apesar de particularidades observadas em cada rede, seja pelo tema em si, seja pelas possibilidades de socialização permitidas pelas ferramentas online”, “há uma troca de informações sobre as necessidades especiais em questão (tratamentos, educação, dietas específicas) e de experiências em relação a elas”.

Sandra Portella Montardo é mestre em Inclusão Social e Acessibilidade e doutora em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Fez estágio de doutorado na Université René Descartes, Paris V, Sorbonne, em Paris. No Centro Universitário Feevale, onde é docente do curso de Publicidade e Propaganda, participa também da Comissão de Avaliação da Feira de Iniciação Científica. Além disso, faz parte do Conselho Cientifico Deliberativo da Associação Brasileira de Pesquisadores em Cibercultura (ABCiber).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - De que maneira as redes sociais servem como ambientes socializadores para determinados grupos sociais?

Sandra Portella Montardo - Conforme conceitua Raquel Recuero  (2009), redes sociais são pessoas em interação. Essas redes podem se configurar tanto no ambiente off-line quanto no ambiente on-line. Na web, verifica-se a constituição de redes sociais, ou seja, de nós (pessoas, empresas, governos etc.) conectados por links, em vários suportes: sites de relacionamento, blogs, microblogs, comunicadores instantâneos entre outros. A partir de suportes desses tipos, as pessoas entram em comunicação com as outras pelos mais diversos motivos (pessoais, educacionais, profissionais, mercadológicos, políticos, informacionais etc.). Pode-se dizer que os diferentes motivos têm em comum a questão da socialização, de trocas entre as pessoas, potencializadas por estas ferramentas.   

IHU On-Line - Por que as pessoas participam com tanto entusiasmo de redes sociais como Facebook e Twitter?

Sandra Portella Montardo - Creio que a popularidade dessas ferramentas on-line vem sendo beneficiada pela facilidade de uso das mesmas e pelo crescimento do uso da banda larga no país. De acordo com dados levantados pelo Ibope Nielsen em fevereiro de 2009, o acesso à banda larga aumentou 24% em um ano e atinge 87% dos usuários no país, o que facilita a experiência de navegação. Já não se considera mais o ambiente off-line como separado do ambiente on-line. Assim, relacionamentos que se estabeleçam na web podem favorecer as pessoas conforme seus interesses no uso das ferramentas de socialização, dentro e fora da web. 

IHU On-Line - O que as redes sociais como Facebook e Twitter revelam sobre o jovem contemporâneo e sua formação de redes sociais na web?

Sandra Portella Montardo - Sites de relacionamento em geral revelam que o mundo do jovem pode ser cada vez mais organizado, disponibilizado e acessado conforme seus interesses. Seja pelo fato de que essas ferramentas permitem que o jovem se mostre de acordo com seus gostos pessoais, através da expressão de suas preferências (entretenimento, informações, lazer), seja porque elas potencializam o acesso a pessoas que tenham interesses semelhantes aos seus, por meio de ferramentas de busca e do compartilhamento de conteúdos.

IHU On-Line - Que futuro a senhora vislumbra para a internet a partir da adesão das redes sociais?  O modo de comunicação na rede tende a mudar?

Sandra Portella Montardo - A constituição de redes sociais na web já é uma realidade. As ferramentas que permitem a constituição e a manutenção dessas redes muitas vezes têm finalidades diferentes e são apropriadas de maneiras bem particulares por diversas culturas. Frequentemente, uma rede é constituída com base em várias dessas ferramentas, em torno de interesses em comum. Acredito que a maior mudança nos modos de comunicação é que um número bem maior de pessoas têm a possibilidade de se expressar sobre qualquer assunto de modo público na web, por meio da geração de conteúdo em formatos variados (texto, imagens, fotos, vídeos etc.), o que antes só era possível para poucos profissionais, com o intermédio dos meios de comunicação de massa (jornais, revistas, televisão e rádio, por exemplo).     

IHU On-Line - A senhora realizou uma pesquisa sobre a socialização on-line de pessoas com necessidades especiais. Em que sentido a interatividade através das redes sociais garante a inclusão social real?

Sandra Portella Montardo - Meu grupo de pesquisa entende a inclusão como promoção de autonomia em busca de qualidade de vida em um sentido amplo. Também entendemos que todos nós estamos, ao mesmo tempo, incluídos sob alguns aspectos, e excluídos sob outros. Por isso, falamos em inclusão como um processo que é permanente embora não constante. Até então, mapeamos e analisamos a estrutura de redes sociais sobre Autismo e Síndrome de Asperger  (em blogs), sobre Síndrome de Down (em fotologs) e sobre deficiência auditiva (em blogs). As duas primeiras redes eram mantidas pelos pais das crianças e a terceira, pelos próprios deficientes auditivos e por profissionais interessados na temática. Apesar de particularidades observadas em cada rede, seja pelo tema em si, seja pelas possibilidades de socialização permitidas pelas ferramentas on-line, notamos que em todos os casos há uma troca de informações sobre as necessidades especiais em questão (tratamentos, educação, dietas específicas) e de experiências em relação a elas. Por meio de questionários, verificamos que as pessoas que compõem essas redes se sentem amparadas em vários sentidos pelas outras, e isso, com certeza, reverte na qualidade de vida de todos os envolvidos.  

IHU On-Line - Que novos modelos de relações se configuram através das redes sociais? A senhora acredita que as relações ganham um novo sentido?

Sandra Portella Montardo - Acredito que as redes sociais na internet possibilitam alcance nas relações tanto no tempo quanto no espaço. É possível, por exemplo, mantermos relações com pessoas geograficamente distantes durante algum tempo praticamente sem custos. Mesmo quando ficamos muito tempo sem contato presencial, as trocas sociais estabelecidas pela web garantem um certo tipo de proximidade em torno de interesses comuns que dificilmente seria possível de outra forma e com a mesma intensidade.

IHU On-Line - Que fatores explicam a procura por redes sociais? As pessoas se sentem sozinhas no mundo real ou apenas buscam, através de programas como Twitter, Facebook, interagirem com seus pares?

Sandra Portella Montardo - A internet potencializa as relações sociais e não as inibe. Com certeza, conseguimos manter mais relações, formais e informais com a internet do que sem ela.  Aliás, muitas vezes é por meio dessas ferramentas que agendamos encontros presenciais com as pessoas. Pessoas que limitam sua socialização à interações on-line e que, devido a isso, enfrentem problemas, devem ser consideradas em termos de questões individuais e não como uma generalização em torno do uso dessas ferramentas.

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