Edição 290 | 20 Abril 2009

Mais do que um espaço informacional, o Twitter é um espaço social

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Márcia Junges

Para a jornalista Gabriela Zago, o microblog tende a ser ferramenta complementar para obter informações e, mais do que isso, um espaço social em rede. Caráter de agilidade é conferido ao jornalismo e à circulação de informações

“A tendência é o Twitter vir a servir como uma ferramenta complementar na obtenção de informações, como um lugar para primeiro ficar sabendo das coisas, e não como uma ferramenta para substituir outras formas de obtenção de informações. Mais do que um espaço informacional, o Twitter é também um espaço social. E esse aspecto interacional tende a prevalecer entre os usuários.” A constatação é da jornalista Gabriela Zago, na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Para a pesquisadora, além de ferramenta de microblog, o Twitter é um site de rede social: “As pessoas buscam estabelecer e manter conexões, interagir umas com as outras, e isso implica em compartilhar informações que se considera relevantes para sua rede”. Ela explica que a ferramenta dá um caráter de agilidade ao jornalismo, em função da possibilidade de “enviar e receber atualizações por dispositivos móveis”. Não existem regras especiais para seu uso jornalístico, e alguns dos usos atuais incluem cobertura de fatos e eventos, para manchetes de últimas notícias, para disponibilizar links para notícias em outros sites, para bastidores da produção jornalística, e também para interação entre jornalista ou organização jornalística com seu público.

Gabriela Zago é graduada em Comunicação Social - Jornalismo, pela Universidade Católica de Pelotas (UCPEL), e em Direito, pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL). Cursou mestrado em Comunicação e Informação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com a dissertação Jornalismo em Microblogs: o Twitter como suporte para produção e difusão de conteúdos jornalísticos.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como se dão as apropriações jornalísticas do Twitter?

Gabriela Zago - Como em toda ferramenta nova, e apesar da proposta apresentada (no caso do Twitter, a ideia inicial é que se respondesse à pergunta “O que você está fazendo?”), as pessoas, os usuários, as empresas, enfim, aqueles que se utilizam do Twitter irão procurar testar novos usos, explorar novos caminhos, buscar apropriar a ferramenta para finalidades diversas – meio que numa estratégia de tentativa e erro, a partir de experimentações. E, eventualmente, os tipos de apropriação que aos poucos vão dando certo começam a ser imitados e reproduzidos, ao ponto de servirem de base e exemplo para as demais apropriações. É mais ou menos assim, também, que surgem as apropriações jornalísticas do Twitter. Não há regras específicas de como usar a ferramenta para o jornalismo, ou para informações jornalísticas (aquelas produzidas por usuários comuns não jornalistas). Então, aos poucos, alguns indivíduos e algumas empresas estão encontrando estratégias interessantes de uso da ferramenta, e servindo de exemplo para outras instituições. As apropriações atualmente mais frequentes incluem usar o Twitter para cobertura de fatos e eventos, para manchetes de últimas notícias, para disponibilizar links para notícias em outros sites, para bastidores da produção jornalística, e também para interação entre jornalista ou organização jornalística com seu público.

IHU On-Line – O que muda no jornalismo a partir dessa ferramenta?

Gabriela Zago - O Twitter confere ao jornalismo e à circulação de informações um caráter de agilidade. Pela possibilidade de enviar e receber atualizações por dispositivos móveis (celular, PDAs  etc.), pode-se obter e passar informações simultaneamente ao acontecimento. Além disso, o caráter de rede social da ferramenta, o fato de as pessoas também a utilizarem para interagir entre si, colabora para que as informações se espalhem mais rapidamente entre os usuários.

IHU On-Line – Que atividades jornalísticas podem ser realizadas através dela?

Gabriela Zago - As possibilidades são variadas. Pode-se usar o Twitter tanto para reportar acontecimentos (coberturas de fatos e eventos em tempo real, em doses de 140 caracteres, alerta de últimas notícias, reprodução automática de conteúdos de outras fontes – como em feeds ) como também como ferramenta complementar ao jornalismo (por exemplo, para busca de fontes, para obter informações sobre acontecimentos, para realizar breves entrevistas etc.). Também dá para se apropriar do conteúdo postado no Twitter e reuni-lo de outras formas, através de tags  ou mashups,  por exemplo.

IHU On-Line – Que veículos jornalísticos estão se baseando em microblogs como o Twitter para sua produção e difusão?

Gabriela Zago - No geral, os veículos ainda tendem a usar o Twitter mais para reprodução de conteúdos de outras fontes do que propriamente para produção de conteúdos voltados para a ferramenta. Mesmo assim, é possível perceber algumas utilizações interessantes. Um exemplo é o BreakingNewsOn (twitter.com/breakingnewson), que começou como uma conta do Twitter para últimas notícias e atualmente, com mais de 150.000 seguidores, está montando um site jornalístico próprio para disponibilizar as notícias e informações que dá em primeira mão na conta do Twitter. Essa conta também sempre teve a preocupação de passar informações mais completas possíveis apesar do limite de 140 caracteres, caracterizando uma produção de conteúdo especificamente voltada para a ferramenta. Infelizmente, esse tipo de apropriação é ainda um tanto raro. No Brasil, predominam reproduções de feeds de jornais on-line (no estilo manchete seguido de link para a notícia completa) – esse é o caso do G1, do Estadão e da Folha de S. Paulo, dentre outros. Embora essa utilização direcione o usuário do Twitter para o site da publicação jornalística (é economicamente interessante para a organização jornalística usar o Twitter dessa forma, pois gera visitas), acaba-se perdendo em termos de possibilidades de apropriação.

IHU On-Line – O Twitter vai possibilitar uma mudança de comportamento dos leitores?

Gabriela Zago - O Twitter pode vir a provocar uma mudança de comportamento dos leitores – talvez com a velocidade e a brevidade da ferramenta eles possam passar a exigir informações cada vez mais breves e objetivas, busquem obter informações mais instantaneamente, mais simultaneamente ao acontecimento. De qualquer modo, a tendência é o Twitter vir a servir como uma ferramenta complementar na obtenção de informações, como um lugar para primeiro ficar sabendo das coisas, e não como uma ferramenta para substituir outras formas de obtenção de informações. Mais do que um espaço informacional, o Twitter é também um espaço social. E esse aspecto interacional tende a prevalecer entre os usuários.

IHU On-Line – Em que medida há uma readequação de linguagem em função da brevidade exigida pelas micropostagens?

Gabriela Zago - Em termos jornalísticos, 140 caracteres podem ser insuficientes para, por exemplo, responder às clássicas perguntas do lead jornalístico (O quê, quando, onde, como, por quê). Então, de certa forma, é preciso ser ainda mais sucinto que isso, respondendo, por exemplo, apenas às perguntas que realmente sejam importantes para compreender o assunto. Uma mesma informação pode ser desdobrada em mais de uma micropostagem, mas, em geral, as pessoas esperam que a informação venha em apenas 140 caracteres e, no máximo, contenha um link para onde possa encontrar mais informações. A necessidade de readequação da linguagem se dá mais no sentido de se ter de escolher que informações passar. Não basta apenas, por exemplo, reproduzir uma manchete produzida para outro meio. O ideal poderia ser produzir chamadas que contivessem o máximo de informação possível apesar da limitação de tamanho.

IHU On-Line – O que o Twitter avança em relação aos blogs que já existiam?

Gabriela Zago - A ideia básica de um blog (postagem em ordem cronológica inversa, links entre diferentes autores, facilidade de publicação por intermédio de ferramenta específica) está presente também no Twitter. Mas há outros aspectos interessantes, como a mobilidade e o caráter de rede social da ferramenta, traduzido pela possibilidade de as pessoas estarem permanentemente conectadas ao Twitter, o que adiciona velocidade à ferramenta. Há constante publicação de textos curtos e rápidos, sobre diversos assuntos. Além disso, outro diferencial em relação aos blogs é a arquitetura aberta do Twitter. A ferramenta possui a API  parcialmente liberada, o que permite a criação de centenas de sites e aplicativos derivados, que podem vir a resultar em novas apropriações possíveis para o Twitter.

IHU On-Line – Que usos sociais são possíveis tomando o Twitter em consideração?

Gabriela Zago - Alguns dos usos sociais possíveis são a interação entre as pessoas (trocas de informações e conversações públicas entre os usuários), produção colaborativa de conteúdos (por exemplo, cobertura de eventos a partir da perspectiva de vários indivíduos ao mesmo tempo, reunido através de tags), ações coletivas. Em geral, as hashtags  ajudam a organizar essas ações e utilizações. Além disso, a própria ideia de compartilhar informações ou comentários sobre determinados assuntos com outros usuários, e até mesmo de se responder à pergunta-título do Twitter “O que você está fazendo?”, também implica em utilizações sociais, na medida em que, ao conferir publicidade a essas informações, abre-se espaço para que possam ser iniciadas conversações, ou estabelecidas novas conexões, baseadas em interesses comuns entre os usuários.

IHU On-Line – Quais são as plataformas de atualização do Twitter? Elas são de fácil acesso aos internautas?

Gabriela Zago - O Twitter pode ser atualizado de diversas formas. O padrão é pela web, pelo site do Twitter. Também é possível atualizar por celular (web móvel, ou por SMS). A atualização por SMS, de forma oficial, só está disponível em alguns países. Em muitos lugares, como no Brasil, há alternativas criadas por usuários a partir da API, como o sms2blog,  por ferramentas derivadas criadas pela API (como TweetDeck,  Twhirl,  TwitterFox  etc). A atualização pela web é a mais simples e acessível. Mesmo assim, pode-se considerar não ser de fácil acesso ao usuário brasileiro, até pelo fato de a ferramenta ainda não estar disponível em português. A barreira do idioma acaba pesando muitas vezes na questão de popularização de uma ferramenta. As demais formas de atualização dependem de conhecimentos específicos, ou de ferramentas extras, então o acesso acaba sendo menos abrangente.

IHU On-Line – A maior parte das pessoas que usa o Twitter o faz para atender a uma necessidade de informação constante, interagindo sobre temas jornalísticos, ou há um desejo de produção de conteúdos dessa natureza?

Gabriela Zago - Mais do que uma ferramenta de microblog, o Twitter é também um site de rede social. As pessoas buscam estabelecer e manter conexões, interagir umas com as outras, e isso implica em compartilhar informações que se considera relevantes para sua rede. A produção de conteúdo próprio para a ferramenta ainda é pequena – até mesmo organizações jornalísticas tendem a usar a ferramenta mais para reproduzir conteúdos de outras fontes do que propriamente para produzir algo novo. Mas há exemplos de produção de conteúdo para a ferramenta, como no caso de indivíduos que usam o Twitter para realizar coberturas de eventos, ou para comentar um determinado evento que está acompanhando por tags.

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