Edição 289 | 13 Abril 2009

Perfil Popular - Sergio Rodriguez

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Greyce Vargas e Graziela Wolfart

Um artista com alma de artista. Este é Sergio Rodriguez, 32 anos, artista urbano que a IHU On-Line encontrou na estação do Trensurb, em São Leopoldo, onde ele faz suas obras em muros e pilares. O objetivo: humanizar e embelezar o espaço público, motivando que as pessoas passantes zelem mais pelo local onde cruzam diariamente, pois, para ele, “a rua é a extensão do nosso quintal, da nossa casa”. Acompanhe, a seguir, o fruto da conversa que ele teve com a redação da IHU On-Line, onde descreveu sua trajetória de artista e sua visão sobre arte urbana e cultura.

Depois de adquirir uma formação no mundo das artes por meio de muitas visitas a exposições, Sergio Rodriguez começou a tomar contato com a arte urbana, o que, segundo ele, interferiu diretamente no seu trabalho. Em 1996, cursou desenho e pintura no Atelier Livre de Porto Alegre e atualmente faz graduação em Artes Visuais (licenciatura) na Ulbra. Sergio conta que, em suas obras, muito no início, teve uma influência de pop art  e do próprio graffiti,  que é algo que lhe chama muita atenção visualmente, no sentido do fascínio que tem pela intervenção na cidade. Sergio fez trabalhos relacionados a isso e inclusive ganhou um prêmio, chamado outdoor, que representava um outdoor imenso. “Meu trabalho difere muito da estética desse graffiti mais discriminado. Posso até dizer que faço graffiti, considerando que essa arte seja caracterizada como todo o trabalho feito na rua, porém em suporte não específico para isso. Posso me considerar um grafiteiro, portanto, mas prefiro me ver como um artista urbano. Admiro a arte do graffiti e a cultura hip-hop, que foi onde ele nasceu, mas meu trabalho é um pouco diferente disso”, explica.

Sergio conta que gosta muito de trabalhar na rua. “Ela sempre me fascinou, porque é de todos. Quando comecei a trabalhar na rua, vi que as pessoas tinham uma proximidade comigo e com o meu trabalho.” Ele lembra que, quando se faz uma exposição artística em uma galeria e a porta está aberta, as pessoas que passam na calçada muitas vezes se constrangem em entrar, mesmo que achem o trabalho interessante, porque talvez não seja o ambiente delas. Para ele, a arte sempre teve uma visão elitizada. E conta que já viu situações absurdas como, por exemplo, pessoas dentro de um museu olhando “torto” para outras, como se dissessem “o que essas pessoas estão fazendo aqui?”, como se aquilo não pertencesse a elas também, ou como se elas não estivessem entendendo. “Mas cada um faz a sua leitura, conforme a sua cultura”, defende. No entanto, o artista sente que esse clima não se estabelece na rua. “Meu trabalho pode ser visto até por quem não quer ver e está só passando. Se vem um cara e se sente livre de fazer um trampo em cima do meu, eu acho legal, porque nós somos iguais. As pessoas têm essa proximidade comigo; elas param, olham, elogiam, criticam, falam comigo, dão sugestões, pedem coisas. Essa relação entre artista e pessoas que observam é muito edificante, enriquece o trabalho. O que a arte urbana faz é justamente quebrar a rotina da pessoa, quebrar o campo visual que está viciado em alguma coisa.” Sergio acredita que a ideia do trabalho artístico na rua é humanizar o espaço, “fazer com que o cidadão valorize o ambiente em que ele está, que ele cuide e se aproprie também disso e queira cuidar. A rua é a extensão do nosso quintal, da nossa casa”.

O começo

O que sempre incomodou Sergio é a ideia de que poucos entendem ou absorvem a arte. “Quando comecei a desenvolver o meu trabalho, eu queria que todos entendessem. E a rua veio ao encontro disso. Se eu quero que todos entendam, vou mostrar a todos. A arte está em todo mundo. Todos fazem arte de alguma maneira.” Quando escolhe um muro particular para esboçar sua arte, Sergio pede autorização do proprietário, com exceção dos pilares e locais públicos, que ele considera desnecessário, afinal procura pintar coisas bonitas, que agradam aos olhos dos passantes. Os espaços da Trensurb são de livre acesso para Sergio, que ganhou autorização da empresa para isso. E os demais são da Prefeitura de São Leopoldo.

Filha: inspiração

Sergio tem uma filha de cinco anos, a Ana Clara. “A criança renova o mundo, porque ela tem uma visão nova das coisas. Ela tem um mundo particular, alimentado pela forte imaginação”, define ele, sobre a experiência com a menina. Hoje, o artista possui um estúdio artístico próprio, chamado Estúdio Alado, cuja logomarca é uma criança correndo de braços abertos. A inspiração: sua filha. “Aprendo muito com ela. A liberdade de uma criança é algo que toca fundo.” O Estúdio Alado se propõe a fazer arte, ilustração e graffiti.

Influências

Um pintor de que Sergio gosta muito, mas pela característica do desenho, é Modigliani.  Ele também gosta de Basquiat,  pela espontaneidade e pela “loucura”. Mas, atualmente, o que mais influencia visualmente Sergio são as linhas harmoniosas da natureza. “Quando olho para a natureza, vejo que não dá muito pra viajar. Natureza é equilíbrio, tranquilidade”, explica. Ele considera seu trabalho popular, porque seus desenhos agradam aos diversos públicos, de todas as idades. “E as pessoas querem ver coisas agradáveis, não poluídas visualmente. Elas param para dar parabéns pelo trabalho e isso me satisfaz muito. Meu trabalho tem que cumprir um objetivo. Não consigo desenhar por desenhar. É claro que, quando faço coisas para mim, é um trabalho mais introspectivo e aí a criação é livre. Mas, quando eu faço para os outros verem, tem que ter um objetivo. E aqui na rua o objetivo é esse: que as pessoas se agradem do que veem, reflitam sobre a questão ecológica, valorizem mais isso”.

Dia-a-dia

O dia-a-dia de Sergio se resume em tentar se concentrar e se inspirar para produzir o que quer. E ele conta que isso nem sempre é fácil, pois há dias em que o ambiente não proporciona isso. O artista tem dificuldade para definir o que seria seu maior sonho, pois é algo que muda muito, no caso dele, quando se trabalha com a inspiração. “Isso porque todos os dias a pessoa tem uma visão nova sobre o mundo. Eu não consigo me autodefinir. Prefiro ir devagar e ver para onde os fatos vão me levar. Eu tenho um foco, mas não é nada predeterminado. Posso dizer que o meu maior sonho - e eu sei que não vou alcançar - é que meu trabalho me satisfaça. Nunca fica bom tanto quanto eu quero. Isso é algo que me impulsiona, mas que me incomoda um pouco também.”

Reconhecimento
 
Sergio defende que o artista deve ser visto como um profissional sério, assim como qualquer outro. “Sou artista plástico e sou muito bom no que faço. Por que tenho de trabalhar de graça?”, questiona. Na sua opinião, o artista tem de andar com suas próprias pernas, sem depender única e exclusivamente do poder público ou de qualquer outra instituição, mas muitas vezes nem as secretarias de cultura dos municípios querem pagar pelo trabalho do artista. “Cultura também é feita com dinheiro, assim como educação e saúde. Enquanto nossa política cultural for essa piada, o artista não for valorizado como profissional que tem um papel importante dentro da sociedade em que vive, não receber pelo seu trabalho, nunca vamos ter cultura, pois sem artistas, sem arte, não se formam apreciadores de arte e sem apreciadores de arte não temos arte. Continuaremos a ser um povo sem cultura”.

O trabalho artístico que Sergio realiza na rua é um projeto seu em parceria com as empresas Makbo e Tinta & Cor. Mais informações sobre ele e suas obras podem ser encontradas em www.flickr.com/photos/estudioalado

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição