Edição 289 | 13 Abril 2009

Produção imaterial como o centro da produção política

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Patricia Fachin

Rodrigo Guéron comenta a transformação do capitalismo e aponta a bioeconomia como opção à conjuntura econômica atual. Na entrevista que concedeu à IHU On-Line, ele ainda aborda a transformação do capitalismo para capitalismo cognitivo que produz não só mercadorias, mas também “modos de vida”.

Para o Prof. Dr. Rodrigo Guéron, do Instituto de Artes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), a bioeconomia é uma boa alternativa à crise financeira internacional. Ao relacionar os temas, ele diz que “se trava agora uma disputa política contra uma forma de organização produtiva que ajudou a gerar a crise, e que quer simplesmente se reorganizar”. As medidas adotadas pelos governos como forma de salvar grandes corporações poderiam ser utilizadas antes da crise, no sentido de evitá-la. Exemplificando, Guéron cita o continente africano que há anos é considerado sinônimo de pobreza. “Ao mesmo tempo em que se dá bilhões às montadoras, vemos a pobreza no país. Ora, o que é a pobreza e a miséria a não ser uma imensa potência de vida que não consegue se realizar. Não há dúvida que aí está uma alternativa à crise”, aponta. Contrário à injeção de dinheiro público para salvar instituições que ajudaram a provocar a crise, ele propõe uma enorme bolsa família para a África, ou seja, “uma monetarização daquele continente que seria, até para o capitalismo mais tradicional, uma abertura de mercados”. Por outro lado, nos países ricos, continua, “me pergunto se é o caso de dar dinheiro às montadoras, ou de dar algum tipo de apoio financeiro para os que perderam ou perderiam o emprego para estes fazerem novos cursos e encontrarem novas alternativas de vida que seriam alternativas econômicas”.

Na entrevista que segue, concedida por e-mail à IHU On-Line, Rodrigo Guéron ainda aborda a transformação do capitalismo para capitalismo cognitivo que produz não só mercadorias, mas também “modos de vida”. Nessa nova estrutura, os meios de comunicação ganham destaque, pois têm o poder de construir culturas e estilos de vida. No Brasil, entretanto, o pesquisador percebe “um movimento extremamente conservador”, mas a internet, garante, tem causado uma mudança. Isso aponta, segundo ele, “para a superação do modelo de grandes corporações de comunicação, e também para uma situação onde o lugar passivo diante dos meios de comunicação pode ser substituído (mas não necessariamente) por uma ação que pode ser inventiva, o que significa dizer inventiva também de uma determinada forma de vida”.

Guéron participou do colóquio Resistência e criação: mídia, cultura e lutas no capitalismo cognitivo, no dia 26-03-2009, realizado na Fundação Casa de Ruy Barbosa, em parceria com a Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Universidade Nômade. Docente também na Universidade Estácio de Sá, Rodrigo Guéron é mestre em Filosofia, pela UFRJ, e doutor na mesma área, pela UERJ. Além de filósofo e professor, é diretor e roteirista de cinema, com destaque para direção de dois curta-metragens: Clandestinidade, premiado em festivais no Brasil e no exterior, e Eu estou bem cada vez melhor (inédito). Em 2005, foi presidente da Associação Brasileira de Documentaristas e Curtametragistas do Rio de Janeiro, trabalhou como roteirista para a Fundação Roberto Marinho, e é membro dos conselhos editoriais das revistas Global/Brasil e Aisthé.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como ocorre a interface entre cultura e mídia no capitalismo cognitivo?

Rodrigo Guéron - Eu diria que o capitalismo cognitivo abre uma perspectiva de superação desta diferença entre cultura e mídia, no bom e no mal sentido. Para entender o que estou dizendo, é necessário precisar o que estamos chamando de capitalismo cognitivo. Esta ideia de que viveríamos este momento do capitalismo parte da constatação de que a produção imaterial, a produção criativa, incluindo aí a produção artística e a produção de conhecimento e, sobretudo, ambas instalando um grande campo de interseção, é o que caracteriza o capitalismo contemporâneo. Não se trata de nenhuma visão triunfalista do capitalismo, mas uma constatação fundamental para entendermos como as formas de resistência e produção da vida, de um lado, e as novas formas de poder, captura e controle, do outro, funcionam. Aquilo que antes Marx chamava de uma superestrutura e que estaria a serviço de uma “base econômica”, ou seja, a ideologia compreendida na produção de discursos (imprensa, por exemplo), na produção artística e em grande parte da produção científica e acadêmica, e que estaria a serviço dos “proprietários dos meios de produção” (a base econômica), se transformou no próprio centro da produção. Trata-se da produção imaterial e cognitiva como o centro da produção não só de mercadoria, mas também de uma produção de mercadoria que tem uma forte dimensão de produção política, na medida em que ela se agencia como um modo de vida. Quer dizer, se entendíamos o capitalismo como um modo de produção, agora poderíamos dizer que ele é uma “produção de modos de vida”.

No caso do Brasil, as grandes corporações de comunicação ganham uma força impressionante. Neste sentido, bem mais do que os bancos, elas teriam uma função de produção e mesmo de “especulação” de valores. Elas, em alguns aspectos, diluem, em outros, capturam o que poderíamos chamar de “produção cultural” num sentido, digamos, “forte” do termo. Mas este movimento não é unilateral, embora seja desigual. Quer dizer, a mídia até pode engendrar e potencializar a produção cultural se ela for compreendida como “produção de subjetividade” (e este é o sentido forte). Agora, vejo nas grandes corporações de comunicação, em especial no Brasil, um movimento extremamente conservador, em diversos sentidos. Mas a internet, a rede, as novas tecnologias digitais, que em muitos casos nasceram de um movimento que buscava a transformação e a democratização dos meios de produção (toda a contracultura em torno do Vale do Silício), têm sido uma mudança. Neste sentido, elas apontam para a superação do modelo de grandes corporações de comunicação, e também para uma situação onde o lugar passivo diante dos meios de comunicação pode ser substituído (mas não necessariamente) por uma ação que pode ser inventiva, o que significa dizer inventiva também de uma determinada forma de vida. Assim, a “cultura” num sentido conservador, ou seja, como “grandes modelos nacionais” de identidade, se enfraquece porque as grandes corporações são absolutamente articuladas com a forma-Estado, e sempre proliferam na medida em que predomina a compreensão tradicional que o Estado legitima de “cultura do povo”. Felix Guattari  dizia, por exemplo, que “cultura é um conceito reacionário”. Enfim, eu vejo uma superação da dualidade cultura e mídia e uma perspectiva de liberação (pelo menos potencialmente) nas novas formas de produção via internet. A princípio, parece que minha visão é positiva, ou seja, vejo uma potência liberadora e transformadora na rede. Mas, se o que se espalha socialmente é uma situação onde, mesmo na rede, ficamos na pura reprodução, de repetição e servidão maquínica, onde somos reduzidos, por exemplo, a uma “senha”, sem que haja espaço para a invenção, aí o mundo se transformaria num imenso programa de variedades, onde tudo o que se evita é a diferença de cada produto como uma diferença socialmente constituída. E é exatamente esta diferença que interessa, qual seja, a que se dá como uma produção social: uma mobilização produtiva que é ao mesmo tempo política.

IHU On-Line – Em que sentido essa interface apresenta possibilidades para a construção do comum? Como essa interface entre cultura e mídia se relaciona com a bioeconomia?

Rodrigo Guéron - O comum sempre existiu, isto é, mesmo que todo mundo desista de ser comunista, e, antes que qualquer um fosse, o comum já existia. Há uma dimensão da produção que está tão imbricada socialmente que não dá para dizer nem que ela é privada nem que ela é estatal. Estas definições privado, estatal ou às vezes até “público”¬ são na verdade apropriações. Mas sempre existiu também uma disputa pela apropriação do comum, e ela é tão material quanto imaterial. Isso significa dizer que a apropriação do comum é também uma apropriação de subjetividades. No capitalismo contemporâneo, essa apropriação acontece na medida em que o desejo é ao mesmo tempo limitado e instigado a desejar algumas “subjetividades prontas”. O capital precisa convencer as pessoas que elas só podem ter uma função social preestabelecida: um posto de trabalho com uma função predeterminada pelo “mercado” e um lugar como consumidor para escolher alguns dos produtos e “estilos” que estão prontos na prateleira.

No sentido positivo que vejo na superação da distinção entre cultura e mídia, a função ativa que os sujeitos podem ganhar é também o da invenção de um novo fluxo econômico, que se produz na mesma medida em que o desejo é liberado destas subjetividades preestabelecidas. A maneira como inúmeros grupos musicais puderam escapar às grandes gravadoras e as corporações de comunicação, constituindo um novo fluxo subjetivo - que foi ao mesmo tempo um fluxo econômico na rede -, é um exemplo disso. Aliás, eis um exemplo da superação da dualidade entre cultura e mídia no bom sentido.

IHU On-Line - Que sociedade surge a partir da bioeconomia? Em que sentido ela pode ser útil nesse momento de crise financeira, contribuir para o desenvolvimento sustentável e provocar mudanças na política e na economia?

Rodrigo Guéron - Quanto à bioeconomia e a crise financeira, diria que se trava agora uma disputa política contra uma forma de organização produtiva que ajudou a gerar a crise, e que quer simplesmente se reorganizar. Por outro lado, todas estas formas de produção, mesmo que não sejam totalmente externas ao capitalismo, mas que, ao mesmo tempo, não são inteiramente submetidas a ele de maneira tradicional, eram já uma alternativa antes da crise. Veja, por exemplo, a situação da África. Ao mesmo tempo em que se dá bilhões às montadoras, vemos a pobreza no país. Ora, o que é a pobreza e a miséria a não ser uma imensa potência de vida que não consegue se realizar? Não há dúvida que aí está uma alternativa à crise. Poderíamos propor algo como uma enorme bolsa família para a África, ou seja, uma monetarização daquele continente que seria, até para o capitalismo mais tradicional, uma abertura de mercados. Por outro lado, nos países ricos, me pergunto se é o caso de dar dinheiro às montadoras, ou de dar algum tipo de apoio financeiro para os que perderam ou perderiam o emprego para estes fazerem novos cursos e encontrarem novas alternativas de vida que seriam alternativas econômicas. Penso que os atuais desempregados poderia ir para a universidade, bancado com uma parte dos bilhões que iriam para a GM ou para a Ford.

IHU On-Line - A partir da crise financeira, como podemos pensar em novas dimensões no mundo trabalho e na instituição do comum? A partir do sobressalto da economia do conhecimento, que novas políticas públicas e tecnológicas devem ser pensadas?

Rodrigo Guéron - A questão das políticas públicas é decisiva. Eu disse noutro dia que o governo brasileiro deveria se lembrar da crise política de 2005/2006 para enfrentar a conjuntura atual. Se o governo Lula cair na armadilha dualista de “o liberalismo perdeu agora devem voltar os desenvolvimentistas” - como uma parte da intelectualidade ligada ao aparelho petista quer fazer -, ele corre o risco de perder as eleições e, portanto, de frear os avanços sociais que têm sido conquistados. Há uma parte da intelectualidade (um conceito um tanto desgastado e capturado hoje), mesmo a que se diz de esquerda ou petista, que se sente ameaçada por algumas políticas do governo Lula. Primeiro porque não foram pensadas por ela, segundo porque libera novas possibilidades de produção cognitiva, artística etc., que faz por si só com que perca força esta oligarquia de poucos que domina a nossa academia e o nosso “meio cultural”. É lógico que é uma conquista colocar políticas de urbanização de favelas e de reajuste do salário mínimo no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Mas existe nas novas formas de organização econômica, e mobilização produtiva - que devem ser aprofundadas -, uma alternativa fundamental à crise, ou seja, poder enfrentar a crise avançando na perspectiva de uma transformação social e política.

Na minha opinião, a diferença da política econômica do governo Lula está na política social que, na prática, foi uma política econômica. Sinto falta, por exemplo, de um programa de democratização da internet nas favelas e periferias, embora as políticas sociais do governo tenham ajudado as pessoas a comprarem computadores. Não foi à toa que a Marta Suplicy propôs uma política destas em São Paulo e o candidato conservador se colocou frontalmente contra. O PT e a esquerda não entenderam que esta era uma disputa importante e que ela escancarava o caráter conservador, a linhagem histórica da direita oligárquica brasileira de barrar a democratização do conhecimento, do outro candidato.

Em todo caso, como disse o Professor Henrique Antoun,  as pessoas não se comportarão nesta crise como em 29, ficando apenas na fila do desemprego ou da cesta básica. Há mil e uma alternativas produtivas, inclusive de monetarização, na economia informal; as pessoas vão atrás. O problema é que mais tarde as grandes corporações capitalistas, via Estado, e tendo sido socorridas por verbas públicas, irão querer criminalizar os que agenciaram novas formas produtivas mais ou menos “por fora”. Mas, enfim, aí já vai existir uma dimensão da economia e da vida que não poderá mais voltar atrás.

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