Edição 289 | 13 Abril 2009

A razão como facilitadora do diálogo inter-religioso

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Graziela Wolfart

O autor do livro É impossível o diálogo inter-religioso? O pensamento de Bento XVI e a visão de Raimundo Lúlio sobre o diálogo inter-religioso (São Paulo: IBFCRL, 2009), Bernardo Veiga, explica que a obra se centra em uma investigação sobre a proposta de Bento XVI para o diálogo inter-religioso

Questionado sobre a possibilidade do desafiante diálogo entre as consciências em um contexto de credos e de culturas religiosas diferentes, o jornalista Bernardo Veiga, em entrevista concedida por e-mail para a IHU On-Line, dispara: “É muito mais que possível; é algo realmente muito necessário”. Mas ele acrescenta que “é preciso que as pessoas estejam sinceramente abertas à verdade e queiram buscar a verdade”. Bernardo conta que a obra É impossível o diálogo inter-religioso? O pensamento de Bento XVI e a visão de Raimundo Lúlio sobre o diálogo inter-religioso é baseada na visão de Bento XVI sobre a encíclica escrita por João Paulo II: Fides et Ratio  – Fé e Razão, na qual João Paulo II retoma uma ideia, já difundida pela Igreja Católica, desde os primeiros séculos de que a razão e a fé não são contraditórias, mas se complementam. Em suas respostas, Veiga defende que “a sinceridade resolve metade dos problemas do diálogo inter-religioso; a outra metade é resolvida com a concretização desta sinceridade de buscar a religião mais verdadeira”.

Bernardo Veiga é bacharel em Ciências da Comunicação (Jornalismo), pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ -, em 2008. É membro fundador do Instituto Aquinate com o qual vem colaborando com diversos artigos e traduções. Recebeu o prêmio que se concede à melhor apresentação oral no Congresso da UNIV, em Roma, no ano de 2007. O UNIV é um encontro universitário que o ICU (Istituto per la Cooperazione Universitaria) organiza desde 1968. O livro abordado nesta entrevista é resultado de uma pesquisa de dois anos (2007-2008), realizada na UFRJ, sobre comunicação religiosa, centrada no pensamento do papa Bento XVI e no filósofo catalão Raimundo Lúlio (do século XIII).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - De forma geral, de que maneira o senhor aborda a questão do diálogo inter-religioso no livro?

Bernardo Veiga - O livro se centra em uma investigação sobre a proposta de Bento XVI para o diálogo inter-religioso. Basicamente, podemos dividir as propostas em dois níveis: as condições e as finalidades para o diálogo. As condições são duas: 1- Somente as crenças que se submetem ao Logos podem participar do diálogo e 2- deve haver uma ação ativa para ouvir e compreender o Logos da religião do interlocutor. As finalidades são três: 1- conviver com as pessoas de outras religiões, 2- conhecer, de forma absoluta e relativa, os princípios das outras religiões e da própria, e 3- poder mudar, livremente, de uma religião para outra. E no final do livro investigamos o pensamento do filósofo Raimundo Lúlio,  do Século XIII, que defendia um pensamento semelhante ao do papa Bento XVI, mesmo em um momento histórico de forte violência religiosa.

IHU On-Line - Como avalia que se estabelece hoje o diálogo entre as religiões, na prática, no Brasil? 

Bernardo Veiga – Infelizmente, ainda existe no Brasil de hoje o problema do cristianismo fundamentalista, como vimos em junho do ano passado quando quatro jovens evangélicos, da denominação “Nova Geração de Jesus Cristo”, foram presos por invadir um centro de Umbanda e quebrar imagens religiosas. Sem dúvida, é uma covardia e uma violência sem tamanho. Mas, em geral, acho que o Brasil tem muito a ensinar para o resto do mundo. O nosso diálogo hoje faz parte de uma boa herança cultural já estudada por Gilberto Freyre  em Casa-grande & senzala. Claro que ainda temos os velhos preconceitos clássicos com relação a algumas religiões africanas, como, por exemplo, a tentativa por parte de alguns cristãos de converter os crentes dessas religiões africanas sem respeitar a liberdade de suas consciências. Mas ainda parece que temos uma disposição positiva em relação às diferenças religiosas.

IHU On-Line - O senhor defende que as bases do diálogo entre as religiões devem se fincar em algo que é comum a todos antes de optarem por uma religião. O que seria esse “algo comum”? 

Bernardo Veiga - O algo comum a todas as religiões pode ser entendido de duas maneiras: o que há de comum em todos os homens devido à sua natureza humana e o que, de fato, têm em comum as religiões. No primeiro aspecto, é preciso estudar ética, antropologia filosófica, lógica e as demais ciências relativas à natureza humana, para saber em que consiste essa base comum da humanidade que chamamos natureza humana. O segundo aspecto refere-se ao que têm em comum as religiões, para assim sabermos o que uma religião precisa ter para ser aceita em um diálogo inter-religioso. Neste sentido, é estritamente necessário defender a existência de um forte vínculo das religiões com a verdade, isto é, com o conhecimento verdadeiro. Além do mais, temos que dizer que a base comum da religião passa pela base comum do homem, porque, segundo a visão de Bento XVI, o homem é uma criatura que procura e se move pela verdade, e, portanto, deve escolher sempre a religião que entenda ser a mais verdadeira, a mais coerente.

IHU On-Line - Como a relação entre a fé e a razão é elucidativa nesse debate? A racionalidade pode ser um elo de ligação entre as diferentes religiões?

Bernardo Veiga - Praticamente todo o livro é baseado na visão de Bento XVI sobre a encíclica escrita por João Paulo II: Fides et Ratio – Fé e razão. Nesta carta, o papa João Paulo II retoma uma ideia já difundida pela Igreja católica desde os primeiros séculos de que a razão e a fé não são contraditórias, mas se complementam, porque possuem a mesma origem, que é Deus; pela razão, porque Ele deu ao homem tal potencialidade; e pela fé, quando a infunde no homem, enquanto virtude teologal. Neste sentido, a fé é uma adesão a uma verdade que nós não vemos, mas que acreditamos ser verdadeira por certa razoabilidade relativa à fé. A opção ordinária por uma fé deve se dar por uma maior compreensão da sua racionalidade; isto é, há partes na fé que são compreensíveis, como a fundação histórica dessa fé, a congruência interna da argumentação etc. Por exemplo, pode parecer óbvio, mas ninguém deveria ser cristão se pensasse que Cristo não existiu. Neste aspecto, a racionalidade da fé impele o ser humano, potencialmente religioso, a escolher a sua religião de uma forma humana, isto é, racional. E com isso podemos dizer que a racionalidade se dá como elo em dois aspectos: 1- torna possível a comunicação dos homens entre si, e 2- as próprias religiões são investigadas pela sua racionalidade.

IHU On-Line - Como o senhor caracteriza a presumível racionalidade das fés?

Bernardo Veiga - A racionalidade das fés é a explicação lógica da existência dessas fés. De certo modo, a sociologia e a antropologia foram muito importantes para trazer a fé para o nosso universo humano. Somos humanos, e, por mais que um Deus perfeito tenha se manifestado ao mundo, Ele se manifestou aos humanos. E por que Ele não obedeceria aos princípios básicos da comunicação, de se voltar cada vez mais para o receptor? Isso parece ficar mais claro justamente naquelas religiões que afirmam Deus ter-se revelado ao mundo de alguma forma. Estamos falando, portanto, de uma comunicação divina com o homem, e por isso podemos investigar a religião racionalmente. Podemos dizer que a presumível racionalidade das fés se dá por dois motivos: 1- por ser uma comunicação de Deus ao mundo, isto é, Deus disse algo ao mundo, e o ser humano quer tentar entender adequadamente o que lhe foi dito; 2- em consequência, quem deseja compreender – o homem – é o próprio objeto da comunicação de Deus. E o ser humano deseja compreender através do que o qualifica especificamente: a sua racionalidade. A ideia de um Deus bom justifica a comunicação da fé.

IHU On-Line - Qual o risco das posições fundamentalistas, no sentido de construir uma falsa mística violenta, como se Deus fosse também violento? Quais as consequências culturais das decisões religiosas fundamentais?

Bernardo Veiga – Hoje, o termo “fundamentalismo religioso” é usado em muitos casos distintos e acabou se tornando um termo equívoco e problemático. Em minha opinião, fundamentalismo religioso não é defender a verdade da própria fé, mas afirmar que as outras religiões são inimigas e devem ser atacadas de qualquer forma, como se Deus quisesse a violência no mundo. E, a partir disto, estamos falando de duas grandes visões sobre Deus: 1- um Deus racional e amoroso e 2- um Deus irracional e sentimental. No primeiro aspecto, que não é fundamentalista, encontramos um Deus que é amor e razão, que congrega em si mesmo a justiça e a misericórdia, que se inclina para o mundo porque faz questão do mundo, porque é a sua criação. Mas age assim porque vê no mundo a sua própria Beleza, pois “vê que tudo era bom” (Gn 1, 31) por ser obra dEle. A segunda visão vê a Deus separando nEle sua sabedoria e seu amor. Isto é, admite que Deus pode criar coisas que são absurdas ou irracionais se Ele assim o quiser, que é o mesmo que dizer que seu amor é maior que sua racionalidade. Há nisso uma diferença sutil, mas que no fim causa discursos totalmente opostos. Veja, quando se diz que Deus é racional e amoroso, que não é fundamentalismo, quer dizer que o próprio Deus se submete às leis da racionalidade. Não é que limitamos o poder de Deus no mundo, mas apenas dizemos que Deus não pode querer o mal, porque ele é a pura Bondade. E o fundamentalismo religioso extrapola a possibilidade de um Deus bom e diz que Ele pode querer, fazer e mandar a violência.

IHU On-Line - Em sua opinião, a partir da pesquisa e do livro, é possível o desafiante diálogo entre as consciências em um contexto de credos e de culturas religiosas diferentes?
Bernardo Veiga
- Claro. E muito mais que possível; é algo realmente muito necessário. Porque não estamos falando de algo simples, mas de algo que mexe com o âmago das pessoas, que dedicam a vida inteira a uma religião, literalmente, de corpo e alma. E, pela grande importância da religião na vida das pessoas, o diálogo deve ser conduzido de uma maneira que respeite as consciências em seus respectivos credos. O que deve ficar claro é a não-violência na liberdade religiosa. Sobre a possibilidade do diálogo, devemos dizer que é possível, sim; mas é preciso que as pessoas estejam sinceramente abertas à verdade e queiram buscar a verdade, porque, no fundo, estão buscando a Deus. A sinceridade resolve metade dos problemas do diálogo inter-religioso, a outra metade é resolvida com a concretização desta sinceridade de buscar a religião mais verdadeira. Assim, os principais inimigos do diálogo inter-religioso são três: a violência física ou psíquica; a tentativa de colocar o sentimento como algo absoluto; e a ignorância de que há um mundo depois deste para o qual iremos.

IHU On-Line - Qual a contribuição do pensamento de Bento XVI e de Raimundo Lúlio sobre o diálogo inter-religioso? Qual o paralelo que pode ser traçado entre a visão de ambos?

Bernardo Veiga - A contribuição deles é focar no aspecto da razão, da racionalidade do discurso. E sobre o paralelo entre ambos, devemos falar primeiro de duas coisas distintas. Sem dúvida, chama a atenção que um filósofo do século XIII queira estabelecer um diálogo entre as religiões, em um tempo marcado pela Inquisição e pelas Cruzadas. Neste sentido, podemos dizer que Lúlio é um pioneiro em um tempo muito adverso. Em relação ao papa, encontramos outros tempos, talvez não tão desfavoráveis quanto o medieval, mas também com os seus problemas. Há, assim, um forte mérito para os dois. Em relação ao que há de comum é o vínculo com a razão. Ambos são grandes humanistas que destacam a racionalidade do homem, sem cair em um racionalismo cego, que se coloca, a priori, contra a fé.

IHU On-Line - O senhor concorda com Joseph Ratzinger, quando ele afirma que o diálogo inter-religioso é impossível a menos que o crente ponha entre parênteses a sua fé? E o que podemos entender pela expressão “pôr entre parênteses a fé”?

Bernardo Veiga - Concordo sim. Defendemos que a segurança que o crente deve ter é a segurança de defender a verdade. A outra segurança, a que dá a fé, deve-se colocar entre parênteses, para tornar possível o diálogo. “Pôr entre parênteses a fé”, portanto, é não tomar as fés como base do diálogo, mas somente o que é comum: a razão. Se no início do diálogo inter-religioso, o crente começa expondo o seu credo como algo absoluto e totalmente inquestionável, isso mostra que ele não está aberto ao debate, que ele busca antes aquilo que lhe dá uma certa segurança, antes que a própria verdade. Assim, o papa defende que a única segurança que devemos buscar é justamente a da sincera busca da verdade e se converter para ela sempre que for necessário, mesmo que o indivíduo tenha que passar por ‘n’ religiões até encontrar a que lhe parecer a mais verdadeira. É isso exatamente o que fazia Lúlio. Colocava-se a disposição de judeus e muçulmanos e dizia-lhes: se me convencerem de que a vossa religião é mais verdadeira que a minha, eu me converterei à vossa. Isso não era uma postura fingida. Exigia-se exatamente o que pedia a aos outros: se os muçulmanos pensavam que um Deus não se podia encarnar ou não podia ser um e três ao mesmo tempo, pensavam assim por fé, não por razão, pois não tinham disso nenhuma prova racional. Então Lúlio dizia-lhes: vamos conversar em termos exclusivamente racionais. Assim era possível o diálogo inter-religioso.

IHU On-Line - Conhece a proposta da Fundação de Ética Mundial, do teólogo Hans Küng? Acha que ela pode contribuir nesse sentido em relação à impossibilidade do diálogo inter-religioso levantada pelo Papa Bento XVI?

Bernardo Veiga – Vejo a proposta da “Fundação de Ética Mundial”, do teólogo Hans Küng,   como uma tentativa de estabelecer as bases comuns entre as religiões para manter uma política de não-violências e defesa da dignidade humana. Se for realmente isto, podemos dizer que é um dos possíveis passos adiante da pesquisa deste livro. Podemos dizer também que este meu estudo sobre Bento XVI seria uma visão que antecederia a fundação de uma ética mundial, porque, primeiro, tentaria fincar a necessidade dos religiosos de falaram uma língua comum, que é a razão. O que o papa quer mostrar é isto: as religiões devem conversar na mesma língua: a razão. E essa fundação de uma ética mundial seria já o discurso da razão. Podemos dizer que Bento XVI quer defender de forma bem clara a necessidade de uma “gramática para as religiões”, enquanto que a afirmação de uma ética comum já seria o bom uso dessa língua por obedecer aos retos princípios da gramática.

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