Edição 286 | 22 Dezembro 2008

Perfil Popular - Família Vargas

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Graziela Wolfart

Na última edição do ano, a revista IHU On-Line optou por inovar no Perfil Popular, entrevistando uma família ao invés de uma pessoa. Afinal, Jesus, Maria e José, tão lembrados nessa época natalina, representam a sagrada família, exemplo para aqueles que ainda acreditam nesta instituição. E podemos dizer que encontramos uma família especial, que ainda aposta na união, no amor e no respeito entre seus membros.

Para Rogério, Eva e as filhas Camila e Gisele, o Natal é um momento de oração e de valorização do núcleo familiar. A redação da IHU On-Line visitou a casa da família Vargas, que fica no Bairro Feitoria, em São Leopoldo. Interligada com a moradia, encontra-se a empresa que é o sustento de todos que ali vivem: a Farol Produtos Pedagógicos, empresa de indústria e comércio de produtos em E.V.A. . O negócio, que existe há dez anos, comercializa hoje quase 200 produtos para mais de 350 clientes ativos em vários municípios do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e até no Nordeste brasileiro. Entre os principais produtos confeccionados pela família Vargas estão jogos educativos e artigos de decoração. 

Acompanhe, a seguir, um pouco da agradável conversa que tivemos com Rogério Machado de Vargas, 45 anos, Eva Maria Schenatto de Vargas, 43 anos, e Camila Schenatto de Vargas, 19, estudante de Pedagogia na Unisinos. A filha mais nova do casal, Gisele Schenatto de Vargas, 18, e que pretende ingressar na faculdade de Arquitetura no ano que vem, chegou mais tarde em casa, e acabou não participando da entrevista. 

Na frente de copos de guaraná gelado e de um prato de waffer, gentilmente oferecidos à repórter da IHU On-Line, o casal Rogério e Eva conta como se conheceram. Ele nasceu em São Leopoldo e ela no interior de Passo Fundo. Mas sua família veio para a terra natal de Rogério e o destino fez com que os dois se aproximassem. Namoraram durante dois anos, e depois foram mais dois anos de noivado até o casamento, realizado em 1987. A primeira filha, Camila, veio depois de dois anos, em 1989. “Desde a época do namoro nós planejamos ter dois filhos”, lembra Eva.

Para Camila, primeiro fruto dessa união, a família é tudo. Ela está grávida, esperando pelo Bernardo, mas conta que a gravidez não estava nos planos. “No entanto, foi assim que pude ver que eu posso contar com a minha família. Eles estão do meu lado e me ensinaram com isso a dar valor ao que antes eu não dava.” Quando lembra os ensinamentos dos pais, Camila destaca o respeito pelo próximo, o respeito pela diferença. “Eu tenho um gênio complicado. Tento trabalhar esse meu lado com o que meus pais me ensinaram, com esses valores. É preciso saber que tudo tem um limite na vida.” O pai frisa que sempre procurou ensinar a importância da honestidade, o que ele aprendeu desde pequeno também. “Os meios de comunicação hoje enfatizam muito a parte financeira, e os valores da família acabam sendo colocados em segundo plano”, acrescenta Rogério.

No decorrer da entrevista, o telefone tocou diversas vezes. Pessoas também chamavam do lado de fora da casa. É o preço de morar junto ao local de trabalho. “Tudo o que planejamos, nós conseguimos fazer, dentro do possível”, conta a mãe Eva. Ela aponta a dificuldade de marido e mulher trabalharem juntos, como donos de empresa e como sócios. “Procuramos separar as coisas depois do horário de trabalho, para preservar nosso casamento, mas não é fácil.” Rogério concorda, mas lembra que eles cuidam muito para não extrapolar os limites. “A gente tenta não gritar um com o outro, mas, se acontece, tentamos deixar o conflito aqui na empresa, do lado de cá da porta. Não é fácil, mas conseguimos administrar isso. A gente até que se dá bem, né Eva?”, pergunta ele para a esposa. Ela balança positivamente a cabeça, sorrindo para ele. 

A mãe garante que sempre procurou conversar abertamente com as filhas, sobre todos os assuntos, procurando mostrar a verdade, sem esconder nada. “Eu sempre disse para elas que a vida é assim; se fizerem algo, tudo tem seu preço, é preciso arcar com as conseqüências, mesmo que o pai e a mãe sempre estejam aqui para apoiar, como aconteceu agora com a gravidez da Camila”, exemplifica.

Um verdadeiro lar

O pai Rogério lembra da luta pela construção do lar. Quando ele e Eva constataram que um dia iriam casar, ainda na época do namoro, Rogério já providenciou a compra da casa e, aos poucos, foram mobiliando e preparando a morada da futura família. “Sempre busquei proporcionar essa segurança e planejar as coisas”, conta Rogério, o que ele atribui aos valores ensinados na sua família. No entanto, nem tudo é estático e a vida apresenta surpresas. Foi o caso do nascimento da segunda filha, a Gisele, que foi concebida um pouco antes do que o casal imaginava, e acabou chegando logo depois da irmã Camila. “Isso me deu um medo”, lembra Rogério, que pensava: “Será que vou conseguir educá-las, sustentá-las? Isso me abalou um pouco na época, mas nunca deixamos de desejar e amar nossas filhas por isso”. No fim das contas, eles descobriram que até foi bom ter as duas mais cedo, para poderem aproveitar mais a vida ao lado delas.

Rogério e Eva perceberam o “bombardeio” que a mídia e a sociedade em geral fazem em relação à família. Por essa razão, foram em busca de “reforços” que respaldassem os valores em que eles acreditam e sobre os quais sempre procuraram embasar a própria família. “A gente queria reforçar a nossa união e facilitar a compreensão do mundo pelas gurias”, explica o pai. A família toda acabou descobrindo um movimento da Igreja Católica coordenado pelo padre Roberto Aripe, mais conhecido como Padre Chiru, que é voltado para as famílias. Desde 1998, eles participam do Encontro de Pais com Cristo (EPC), cuja padroeira é Nossa Senhora de Guadalupe. “Ali nós vimos que outras famílias buscavam o mesmo que nós e que os filhos dos outros casais que lá estavam podiam ser bons amigos para as nossas filhas. Sabíamos que aquelas amizades eram sadias”, esclarece Rogério.

Para a mãe Eva, as crianças são o maior valor de um lar. “Os filhos impulsionam a gente, nos fazem ver o mundo de outra forma.” E o pai Rogério completa: “Os filhos é que mantêm unida a família”.  Outro ponto que eles destacam é a fé e a espiritualidade como fundamentais. “O mínimo possível tem que ter”, defende Eva. Rogério inclusive acredita que é difícil manter a família unida sem fé.

Os grandes sonhos

O maior sonho da vida de Camila era ser mãe, o que está realizando agora. A jovem conta que teve alguns problemas de saúde que a influenciaram do ponto de vista psicológico e que, por isso, não poderia ter filhos, segundo os médicos. “Eu e meu ex-namorado sempre usamos camisinha, mas um dia ela furou. Estou grávida de quatro meses do Bernardo”. “Ele é mais forte”, defende a avó Eva. Camila, pensativa, confessa: “Tenho a consciência de que a minha família será um pouco desestruturada, pelo fato de que a sociedade crê que o filho precisa do pai e da mãe juntos. Mas a minha será diferente, especial”. Agora, ela buscará realizar seu sonho profissional: se formar em Pedagogia para poder ajudar os pais na empresa e conquistar um espaço no mercado de trabalho. A jovem acaricia a barriga e desabafa: “Não era esse o mundo que eu queria para meu filho. A gente vê tanta coisa ruim... Mas vou buscar mostrar para ele o que a minha família me ensinou: que ainda tem gente boa e que é preciso olhar de forma positiva para a vida”. E lembra, com carinho, de quando a mãe Eva lhe ensinou que cada família tem um lugar e um papel importante na sociedade.      

Já o pai Rogério sonha em estruturar a empresa de forma que ela consiga se manter por si só, e que possa ser um instrumento para ajudar as pessoas. “A idéia é que a própria empresa possa ser nossa aposentadoria e que as nossas filhas possam dar continuidade a esse trabalho que iniciamos, porque queremos ver isso evoluir.” E Rogério lembra uma história emocionante, que tocou a família num período difícil, em que a empresa estava passando por dificuldades e que estavam seriamente pensando em desistir e fechá-la. Tarde da noite, eles receberam um telefonema. Era uma senhora de idade, que perguntou: “É daí a fábrica que faz as letrinhas?”. Pois ela ligou apenas para dizer: “Não parem nunca o trabalho de vocês, pois estão ajudando muitas pessoas. Foi usando o alfabeto de E.V.A. produzido por vocês que meu neto me ensinou a escrever meu nome”. Eva lembra que ficou anestesiada e não dormiu naquela noite. Foi como se fosse uma mensagem. Mudaram a postura e focaram a atividade não apenas no ganho financeiro, mas na ajuda aos outros. Cada peça é feita pensando na pessoa que vai recebê-la. “Tudo se transformou”, descreve Eva.

A “família empresa” também doa material de E.V.A. para mães da UTI Neonatal ocuparem o tempo confeccionando peças em oficinas ministradas no hospital. Também é uma forma de ajudar, de ser solidário. Outro sonho do casal é começar a investir mais na casa. Nos últimos dez anos, o foco foi a empresa e agora eles pretendem se voltar mais para o lar e separar mais a moradia do trabalho. Eles também pretendem usufruir do esforço de dez anos de tanto trabalho até então em viagens, para conhecer lugares novos.

Natal

“Para mim, Natal é família”, dispara Camila. O Ano Novo ela até pode passar com outras pessoas, mas o Natal não. Tradicionalmente, os Vargas sempre faziam a ceia de Natal entre os quatro e ainda chamavam os pais e um irmão de Eva. Recentemente, eles mudaram a forma de celebrar essa data tão importante. Vão ao litoral, onde alugam uma casa por uns dias e aproveitam para, reunidos, viver ao máximo o Natal em família, num momento de oração. “Isso recarrega a gente, fortalece as bases”, diz Eva. 

A família Vargas também aproveita para deixar sua mensagem de Natal. Para Eva, não há mensagem melhor do que essa: “confia no Senhor e tudo Ele fará”. O pai Rogério gosta de lembrar nessa época que tudo na vida tem uma razão de ser e que é preciso ser paciente e ter fé.  

Ao final da conversa, Gisele chegou em casa. Ficou no ar o sentimento de união fortalecido e a certeza de que estão no caminho certo. Que a vida representada no futuro nascimento do menino Bernardo reforce a alegria desta família.

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição