Edição 286 | 22 Dezembro 2008

Uma tentativa de restaurar o cristianismo genuíno na Europa

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Graziela Wolfart e Márcia Junges | Tradução Moisés Sbardelotto

Se Lutero queria ou não fundar uma nova igreja, não há como saber. No entanto, na opinião do professor Scott Hendrix, do Princeton Theological Seminary, “os reformadores protestantes não pretendiam começar uma nova igreja, mas recuperar um cristianismo renovado que estivesse mais próximo da Bíblia e da igreja primitiva”. E ele explica sua posição: “Na visão dos reformadores, o Papa e os bispos apoiavam práticas religiosas que tornavam inútil o trabalho de Cristo”.

Se Lutero queria ou não fundar uma nova igreja, não há como saber. No entanto, na opinião do professor Scott Hendrix, do Princeton Theological Seminary, “os reformadores protestantes não pretendiam começar uma nova igreja, mas recuperar um cristianismo renovado que estivesse mais próximo da Bíblia e da igreja primitiva”. E ele explica sua posição: “Na visão dos reformadores, o Papa e os bispos apoiavam práticas religiosas que tornavam inútil o trabalho de Cristo”. Na entrevista que concedeu por e-mail para a IHU On-Line, Hendrix também tem ressalvas em relação à figura do reformador: “Lutero tinha pouca consciência do mundo fora da Europa e da expansão do poder e da religião europeus aos outros continentes. Esse processo de globalização foi, na minha opinião, da perspectiva européia, uma marca do mundo moderno”.

Scott H. Hendrix é presidente do Comitê de Continuação do Congresso Internacional de Pesquisa sobre Lutero e professor emérito de História da Reforma no Princeton Theological Seminary, dos Estados Unidos. Dentre outros, é co-autor de As confissões luteranas: introdução (São Leopoldo: EST/Sinodal, 2002). A tradução da entrevista é de Moisés Sbardelotto.

 

IHU On-Line - Qual foi o principal impacto na Igreja Católica a partir do surgimento do protestantismo?

Scott Hendrix - O impacto foi duplo: interno e externo. Primeiro, o desafio do protestantismo levou a Igreja Católica Romana a reformar o seu próprio culto, seu próprio clero e a piedade do seu povo. Novas ordens, como os jesuítas, foram fundadas para implementar ministérios mais efetivos. Os papas e o Concílio de Trento (1545-1563) decretaram e aprovaram muitas dessas reformas. Em segundo lugar, ao mesmo tempo, a Igreja Católica defendeu sua própria teologia e suas práticas contra as críticas feitas de fora. Os protestantes eram, então, competidores pela lealdade do povo na Europa e além dela, e a Igreja Romana impulsionou uma estratégia missionária de reconverter os protestantes na Europa e de tornar cristãos católicos os não-cristãos da Ásia e das Américas.

IHU On-Line - Como podemos compreender o surgimento da religião luterana visto que Lutero não queria criar uma nova religião, mas reformar a Igreja?

Scott Hendrix - Lutero e seus companheiros não queriam estabelecer ou criar uma nova religião, mas restaurar o cristianismo genuíno na Europa, em substituição ao que eles viam como uma religião supersticiosa e corrupta, ensinada pela Igreja Romana. Na verdade, os reformadores protestantes não pretendiam começar uma nova igreja, mas recuperar um cristianismo renovado que estivesse mais próximo da Bíblia e da igreja primitiva. A proposta luterana de restaurar esse cristianismo genuíno (chamado pelos luteranos de evangélico ou movimento evangélico) foi rejeitada pelo Papa, pelos bispos romanos e, finalmente, na Alemanha, pelo Imperador Carlos V na Dieta de Worms, em 1530. Os luteranos, por isso, instalaram o seu próprio cristianismo reformado nessas cidades e nesses territórios que aceitaram a Confissão de Augsburg.  Quando esse cristianismo renovado foi organizado com pastores, catecismos e culto evangélicos, o resultado foi uma Igreja Luterana em toda a área que aceitara a referida Confissão.

IHU On-Line - Qual é a importância de se considerar o contexto da crítica de Lutero à Igreja?

Scott Hendrix - Lutero e seus companheiros se recusaram a ceder ao Papa e à hierarquia romana, porque a Igreja Romana não ensinava nem praticava mais um cristianismo centrado em Cristo. Na visão dos reformadores, o papa e os bispos apoiavam práticas religiosas que tornavam inútil o trabalho de Cristo. Todas as indulgências, peregrinações, orações a santos, missas, jejuns etc. eram apresentados ao povo como formas pelas quais eles poderiam ganhar a sua salvação, enquanto que Lutero defendia, de acordo com o Novo Testamento, que a salvação vinha apenas por meio da fé em Cristo. Antes de Lutero, reformadores medievais criticaram vários aspectos da teologia e da prática romana, mas nenhum deles defendeu, tão inteiramente como Lutero, que a Igreja Romana medieval havia deslocado Cristo do centro de sua religião.

IHU On-Line - Quais foram as mudanças sociais mais importantes surgidas a partir da Reforma?

Scott Hendrix - Na Europa, as pessoas começaram a se identificar não apenas pela sua nacionalidade, mas também se eram protestantes ou católicas. Essa identidade religiosa se tornou parte da sua cultura, e os soberanos usaram dessas afinidades protestantes ou católicas para competir por poder e territórios. Em algumas áreas, os governadores foram capazes de exercer mais controle sobre seus sujeitos, mas, em outras, os sujeitos conquistaram mais direitos por eles mesmos e mais influência sobre os seus soberanos. Em alguns países, o resultado foi as guerras religiosas.

IHU On-Line - Concorda com a afirmação de que Lutero, por reformar a teologia e a Igreja, seja o pai da modernidade? Por quê?

Scott Hendrix - Não, eu não concordo. A resposta depende do que se entende por modernidade. Eu acredito que a modernidade na Europa começou com o Iluminismo, que veio muito tempo depois de Martinho Lutero e da Reforma. Lutero acreditava que o Papa era o anticristo e que a Reforma era o começo do julgamento de Deus sobre uma Europa não-cristã. Ele desejava uma Europa cristã renovada, mas nunca previu uma Europa secular, que foi o resultado final do Iluminismo e a marca da modernidade. Além disso, Lutero tinha pouca consciência do mundo fora da Europa e da expansão do poder e da religião europeus aos outros continentes. Esse processo de globalização foi, na minha opinião, da perspectiva européia, uma marca do mundo moderno.

IHU On-Line - Como é possível pensar em diálogo inter-religioso a partir de uma perspectiva luterana?

Scott Hendrix - Martinho Lutero não pensava que o luteranismo era a única forma verdadeira do cristianismo. Toda assembléia de fiéis que se reunia para ouvir as boas notícias que Cristo pregou e ter a sua fé fortalecida pelos sacramentos era verdadeiramente cristã. Apesar de que alguns luteranos realmente pensem que são a única igreja verdadeira, muitos luteranos e outros cristãos podem se engajar no diálogo sobre o significado do Evangelho e de como praticar sua fé sem condenar uns aos outros. Muitos luteranos podem também se engajar no diálogo com grupos religiosos não-cristãos. Mesmo que a Reforma tenha tentado converter os judeus europeus ao cristianismo e tenha atacado o judaísmo, quando eles se recusavam a se converter, as igrejas luteranas que pertencem à Federação Luterana Mundial  hoje repudiaram esses ataques e acolheram o diálogo com o judaísmo e as outras religiões.
 
IHU On-Line - Como o senhor avalia o Congresso Internacional de Pesquisa de Lutero,  realizado no Brasil no ano passado?

Scott Hendrix - Foi o primeiro congresso que ocorreu fora da Europa e da América do Norte e deu destaque tanto ao forte interesse global em Martinho Lutero, quanto às contribuições que os estudiosos da América do Sul, da Ásia e da Austrália deram à pesquisa sobre Lutero. O tema foi “A visão de Lutero sobre a vida cristã”, e as conferências e os seminários focaram sua atenção sobre a relevância dos escritos de Lutero para os desafios que os cristãos irão enfrentar no século XXI.

Leia mais sobre Martinho Lutero na revista IHU On-Line número 280, de 03-11-2008, cujo tema de capa é Lutero. Reformador da Teologia, da Igreja e criador da língua alemã.

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