Edição 286 | 22 Dezembro 2008

Um plantador de igrejas

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Márcia Junges

A urbanidade paulina foi crucial para o início do Cristianismo, analisa Eduardo Pedreira, embora haja outros elementos presentes. Plantador de igrejas, Paulo organizou suas estruturas de funcionamento formalmente

A presença de Paulo “nas grandes cidades o levou a ter contato com as três grandes matrizes culturais daquele tempo: a judaica, a grega e a romana. Ele usa essas matrizes na sua pedagogia, recorrendo muitas vezes a raciocínios complexos se comparados àqueles utilizados por Jesus”, assinala o pastor presbiteriano Eduardo Pedreira na entrevista que concedeu por e-mail, com exclusividade, à IHU On-Line. Ele complementa: “Jesus viveu um movimento relacional com um grupo de doze discípulos e nitidamente não se via nele a preocupação com aspectos institucionais, ao passo que Paulo foi um plantador de igrejas, as quais ele organizou formalmente suas estruturas de funcionamento. Obviamente que não se pode justificar as igrejas que Paulo plantou por conta da influência da sua urbanidade somente, mas sem dúvida, este era um elemento presente. Ou, por outras palavras, o movimento rural de um grupo se transforma em um movimento eclesiástico urbano, posto que, Paulo planta as igrejas em cidades estratégicas do império”.

Mestre e doutor em Teologia, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Pedreira é presidente do Renovare Brasil, organização que existe para divulgar o conceito e a vivência da formação espiritual (www.renovare.org.br). Atua, também, como pastor da comunidade Presbiteriana da Barra da Tijuca no Rio de Janeiro.

IHU On-Line - Que aspectos destacaria a respeito da vida rural de Jesus em contraposição à  mentalidade urbana de São Paulo?

Eduardo Pedreira - Eu destacaria dois aspectos. O primeiro é o pedagógico. Percebe -se na maneira de Jesus ensinar a simplicidade advinda do mundo rural. O uso recorrente de metáforas ligadas ao cotidiano das pequenas vilas rurais é um forte exemplo disso. Em Paulo, sua urbanidade também o leva a entrar em contato com a complexidade característica do mundo urbano. Sua presença nas grandes cidade o levou a ter contato com as três grandes matrizes culturais daquele tempo: a judaica, a grega e a romana. Ele usa essas matrizes na sua pedagogia, recorrendo muitas vezes a raciocínios complexos se comparados àqueles utilizados por Jesus. O segundo refere-se à tensão existente entre informalidade e institucionalização. No campo, a vida tende a transcorrer de maneira mais informal, apoiada nos afetos e relacionamentos, enquanto no ambiente mais urbano a impessoalidade leva a formalização das relações. Jesus viveu um movimento relacional com um grupo de doze discípulos e nitidamente não se via nele a preocupação com aspectos institucionais, ao passo que Paulo foi um plantador de igrejas, as quais ele organizou formalmente suas estruturas de funcionamento. Obviamente que não se pode justificar as igrejas que Paulo plantou por conta da influência da sua urbanidade somente, mas, sem dúvida, este era um elemento presente. Ou, por outras palavras, o movimento rural de um grupo se transforma em um movimento eclesiástico urbano, posto que Paulo planta as igrejas em cidades estratégicas do império.
 
IHU On-Line - Essa características de São Paulo ajudou-o a moldar as bases do cristianismo? Em que sentido?

Eduardo Pedreira - Sem dúvida. A base cristã que Paulo ofereceu ao cristianismo nascente era globalizada. Pela via da sua paixão missionária Paulo leva o cristianismo para além das fronteiras da palestina, expondo a mensagem cristã nos grandes centros nervosos do seu tempo. A urbanidade paulina foi fundamental para o início do cristianismo.
 
IHU On-Line - Por que você considera difícil a mudanças pela qual Paulo passou e que o fizeram escrever a Carta aos Romanos?

Eduardo Pedreira - A conversão de Paulo não se explica a partir de horizonte puramente humano. Ele foi preparado para o zelo profundo ao judaísmo, o que certamente excluía em muitos aspectos a nova abordagem trazida por Jesus. Corria em suas veias a defesa da cosmovisão judaica no seu seguimento mais radical. Ora, com este histórico, sua mudança somente poderia vir pela via sobrenatural, o que de fato acontece, quando da experiência que tem com Jesus a caminho de Damasco. Esta mudança não apenas se deu no âmbito pessoal, mas sobretudo no teológico. Romanos foi a carta que ele escreveu para explicar e fundamentar sua nova teologia, que tinha na relação lei e graça um dos seus pontos fulcrais: a salvação se dá agora em Cristo, oferta de amor de Deus e não pelo cumprimento zeloso da lei, que nada pode fazer parar resolver o pecado, problema essencial do ser humano.

IHU On-Line - Quais são os principais traços do pensamento paulino no protestantismo?

Eduardo Pedreira - A ênfase na salvação pela fé. Por influência de Paulo, o protestantismo entende que o mistério da salvação ancora-se na graça de Deus e que encontra na cruz do calvário sua mais plena manifestação histórica. Boas obras não salvam, a lei não salva, a caridade não salva, somente a fé no Cristo encarnado e na eficácia do seu sacrifício pode salvar, decreta o protestantismo pela lente paulina. Outro traço do pensamento paulino no protestantismo se dá ênfase na mediação exclusiva de Jesus. Fora de Jesus não há salvação, diz Paulo e o protestantismo repete. Qualquer outro personagem religioso ou qualquer outro mediador é relativo ao único e suficiente salvador: Jesus.

Apontaria, ainda, o pecado como a doença mais essencial do ser humano e sua mais radical necessidade de superação. A visão paulina herdada pelo protestantismo vê o ser humano como fruto da desobediência de Adão e portanto, essencialmente manchado pelo pecado. O pecado instaura uma guerra civil interior no ser humano o que o leva a desejar e fazer coisas que detesta como pecaminosas. Jesus é a solução de Deus para esta radical mancha humana.

A ênfase no poder do evangelho como sendo o dínamo de Deus para a salvação de todo aquele que crê é outro traço paulino no protestantismo. Paulo “cria” assim o protestantismo. Sua missão era espalhar esta mensagem por todo mundo, tendo como estratégia a plantação de novas igrejas que abrigariam localmente a igreja universal de Jesus, uma comunidade na qual as barreiras étnicas cairiam todas, um corpo com muitos membros, governado pela cabeça que é Jesus.

Leia Mais...

Confira o artigo “Ano paulino. A cidade é o tecido do cristianismo de Paulo”, de autoria da teóloga Ana Maria Formoso, publicado nas Notícias do Dia de 29-06-2008, do site do Instituto Humanitas Unisinos - IHU (www.unisinos.br/ihu).

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