Edição 286 | 22 Dezembro 2008

Fraternidade judaico-cristã: a busca pelo diálogo

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Márcia Junges

O diálogo inter-religioso não era um costume da época de Paulo de Tarso, situação que, felizmente, é diferente em nossos dias. A base teológica comum pode reaproximar judeus e cristãos, apesar das diferenças, aponta Diane Kuperman

Como compreender a postura de Paulo de Tarso anterior à fundação do cristianismo? De acordo com a jornalista Diane Kuperman, em entrevista por e-mail à IHU On-Line, os conflitos entre as diferentes visões do mundo irão colocar o apóstolo diante de uma encruzilhada: “Como seguir as leis rigorosas e já milenares do judaísmo diante das alternativas da sabedoria grega e das oportunidades de vida romana? Ao optar pelo judaísmo, torna-se um antinazareno ferrenho, combatendo seus seguidores e perseguindo-os, participando, inclusive, da lapidação de Estevão que irá se tornar o primeiro santo cristão”. E continua: “Sem dúvidas quanto ao caminho a seguir, surge repentinamente um novo: tem uma epifania durante viagem a Damasco. A visão de Jesus muda a vida de Saul, que se torna Paulo e adota o cristianismo que irá defender com o mesmo ardor com que o combateu”.

Kuperman é graduada em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), mestre em Comunicação Social com a dissertação Anti-semitismo, novas facetas de uma velha questão (Rio de Janeiro: Notrya, 1992), e doutora em Comunicação Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) com a tese Das manchetes às entrelinhas: guerra e paz no Oriente Médio. Repórter do Jornal do Brasil várias vezes premiada, editora de house organs, é hoje ativista dos diálogos interreligioso e interétnico. Professora e palestrante de numerosas instituições no Brasil e no exterior, fundou a linha de pesquisa sobre Estudos Judaicos na UFRJ, onde organizou os primeiros congressos voltados exclusivamente para a questão judaica. Também escreveu, entre outros, Judaísmo, memória e identidade (Rio de Janeiro: UERJ, 1997).

IHU On-Line - Quais são as maiores contribuições de Paulo de Tarso para a consolidação de uma religião e identidade judaicas?

Diane Kuperman - Em relação ao judaísmo e à identidade judaica, não podemos dizer que  Paulo de Tarso tenha trazido alguma contribuição, a não ser pelas polêmicas desencadeadas com a mudança de rituais ou pelas perseguições ao povo judeu, muitas vezes baseadas em frases proferidas por ele. Dizem que uma das principais causas da sobrevivência do povo judeu foram as perseguições sofridas. Embora reconheça que perseguições e adversidades estimulam o espírito de coesão e solidariedade, prefiro computar o fato singular do judaísmo - a única religião/etnia/civilização que tenha atravessado milênios - continuar pujante e vivo, com valores que têm a obrigação de transmitir a todos, por todos os tempos.

IHU On-Line - Como compreender sua postura anterior à fundação do cristianismo, quando perseguia os judeus?

Diane Kuperman - Antes de sua adesão ao cristianismo, Paulo não perseguia os judeus, mas os cristãos! Paulo de Tarso, Saul para os judeus, nasce em uma família judia, social e financeiramente bem situada, 15 anos depois da morte de Jesus. Cidadão romano, recebe a formação judaica do Grão-Rabino Gamaliel, um dos maiores sábios da época, mas sua origem judaica não o impedia de usufruir as benesses da sociedade em que vivia, nem de sofrer as influências das culturas helênica e romana.

Os conflitos entre as diferentes visões do mundo irão surgir mais adiante, colocando-o diante de uma encruzilhada: como seguir as leis rigorosas e já milenares do judaísmo diante das alternativas da sabedoria grega e das oportunidades de vida romana? Ao optar pelo judaísmo, torna-se um antinazareno ferrenho, combatendo seus seguidores e perseguindo-os, participando, inclusive, da lapidação de Estevão que irá se tornar o primeiro santo cristão.

Sem dúvida, quanto ao caminho a seguir, surge repentinamente um novo: tem uma epifania durante viagem a Damasco. A visão de Jesus muda a vida Saul, que se torna Paulo e adota o cristianismo que irá defender com o mesmo ardor com que o combateu. Como compreender sua mudança de postura? A explicação deveria vir de psicólogos, mas, mesmo não o sendo, atrevo-me a considerar seu comportamento como típico daqueles que acreditam ser detentores de uma única verdade. Enquanto se sente romano e judeu, combate os cristãos que não se rendem aos seus princípios. Quando assume o cristianismo, recusa-se a aceitar que seus pares não sigam o mesmo caminho e os rejeita sem perdão. É uma pena que o diálogo não fizesse parte dos costumes de então. Muita dor teria sido evitada com a aceitação de que, com a base teológica comum, judeus e cristãos poderiam continuar sendo irmãos, apesar das diferenças.

IHU On-Line - De que modo fé e ideologia se fundem no pensamento paulino?

Diane Kuperman - Paulo de Tarso terá vital importância para a fundação dos alicerces do cristianismo. É ele que irá adotar definitivamente a denominação de cristãos para os seguidores de Jesus considerado o Messias (Cristo, em grego, que significa Ungido). É ele, também, quem introduzirá mudanças substanciais no ritual cristão que marcarão a separação entre as práticas judaicas e cristãs. E, para divulgação da religião ainda em seus primórdios, usará o conhecimento dos gentios com quem conviveu intimamente. Será nesse conhecimento, que lhe permite perscrutar a alma dos gentios, adivinhar anseios e receios, que ele buscará os argumentos necessários para atraí-los à sua doutrina.

Em primeiro lugar, é preciso abrandar as leis do judaísmo que afastam a priori o pagão da, até então, única religião monoteísta. E o empecilho maior era, sem dúvida, a circuncisão. Abolida esta exigência, que marca a carne e apavora os espíritos, a adesão se torna muito mais fácil. A circuncisão corporal é substituída pela circuncisão do coração, o batismo.

Apóstolo dos gentios

A teosofia de Paulo, aliada a rituais acolhedores como refeições comunitárias, conquista numerosos adeptos e o torna o Apóstolo dos Gentios (Romanos 11, 13). A obediência às leis também é abrandada, com a mudança de um enfoque fundamental: não é mais o cumprimento das leis que define a adesão à religião, mas a fé em si. Algumas diferenças substanciais e substantivas são introduzidas por Paulo na transmutação do judaísmo para o cristianismo, aliando fé, ideologia e práticas:

ALIANÇA - Paulo (Romanos, 9) fala de pactos, no plural, e cita o Shabat, o arco-íris e a circuncisão. Cita, ainda, os pactos com Noé, Abrão, Jacó e David. Ora, para os judeus, o Brit é único e eterno, reiterado a cada geração, coletiva e individualmente, em cada situação. A aliança para o judaísmo é um acordo de mão dupla. Não é uma vontade divina imposta ao homem – ela é oferta pelo todo Poderoso e aceita pelo homem que, com este Brit, se torna parceiro de Deus na responsabilidade de completar a obra de construção do mundo.

MISSÃO – A missão dos novos cristãos é anunciar o Messias, evangelizar. No Gênesis, Deus, criador do universo, do Homem e de todas as coisas, cria o Homem à sua semelhança. Isto é, com a capacidade de também criar. E, ao descansar no sétimo dia, Deus não dá seu trabalho por encerrado. Cabe ao ser humano completar a obra – esta é a missão do judeu.

TERRA - A promessa de terra é interpretada por Paulo como metáfora da providência divina que provê alimento, abrigo e cobertura. Ora, para nos judeus, a terra de leite e mel é promessa cumprida em tempos bíblicos e novamente na era moderna.

IHU On-Line - Como a fraternidade judaico-cristã pode promover uma nova leitura da Carta aos Romanos?

Diane Kuperman - Recomendo a leitura da obra de Jacques Ellul, Ce Dieu injuste (Arlea : Paris, 1991), que analisa praticamente linha por linha a Carta aos Romanos e deveria ser usada como roteiro para a releitura das cartas e revisão de posturas preconceituosas. Resumindo, restabelece o papel do povo de Israel e a importância de sua existência até os dias de hoje.

Quando olhamos um copo com líquido pela metade, o que dizemos? É meio cheio ou meio vazio? Depende do olhar, da interpretação. As epístolas paulinas podem ser compreendidas de formas diametralmente opostas, dependendo essencialmente da disposição interna de quem as lê. Um espírito despojado, aberto ao outro, proporciona uma compreensão destituída de a priori. Este é o papel da fraternidade cristão-judaica: buscar os pontos em comum, ao invés daqueles que dividem e, juntos, encontrar as vias do respeito, do entendimento e do afeto.

IHU On-Line - Em que aspectos o pensamento paulino inspira um diálogo inter-religioso, sobretudo entre catolicismo e judaísmo?

Diane Kuperman - Um longo caminho de desencontros foi coroado no século XX com a coragem de judeus e cristãos que decidem enfrentar os preconceitos e reescrever a história, transformando a pedagogia do desprezo, passada de geração em geração, em pedagogia do afeto.

Falo de Jules Isaac  - historiador judeo-francês que perdeu a família no Holocausto -, que consegue convencer o Papa João XXIII  a rever as relações entre a Igreja e os judeus. O Concílio Vaticano II  aborda, apesar de todas as relutâncias, as relações da Igreja com outras religiões e culmina com a publicação da declaração Nostra Aetate, um documento revolucionário que reconhece a origem judaica do cristianismo, recomenda o estudo das fontes comuns e retira definitivamente a acusação de deicídio, responsável pelas perseguições e matanças em massa de judeus.

Somos uma geração de privilegiados por termos a oportunidade de vivenciar a queda de barreiras que separavam cristãos e judeus, a construção de pontes entre nós pela eliminação de ódios e preconceitos e a edificação de um diálogo franco e aberto que privilegie confiança e apreço.

No ensejo das celebrações do Ano Paulino, os ativistas do diálogo recomendam a releitura dos textos, contextualizando-os, salientando a origem judaica do cristianismo e dos apóstolos. E, no trabalho de evangelização, ter cautela para não deslegitimar o judaísmo nem os judeus e evitar perpetuar preconceitos milenares.

IHU On-Line - Por que a senhora afirma que as palavras de Paulo contribuíram para a formação do antijudaísmo?

Diane Kuperman - Porque a catequese cristã irá se alimentar das suas palavras (e dos Evangelhos, em geral) para afirmar a Igreja como a Nova Israel  e o cristianismo como a Nova Aliança.
Vejamos alguns exemplos: 

- Ao cunhar o nome de Antigo Testamento para a Bíblia Hebraica, Paulo a caracteriza como antiquada, ultrapassada, como sendo um texto que precisa de renovação e atualização. Os membros do Diálogo e da Fraternidade não usam mais o Velho e Novo Testamentos. Preferimos Primeiro e Segundo Testamentos, Bíblia Hebraica e Cristã, terminologias que não denotem supremacia de um sobre o outro, nem denunciem preconceitos.

- Ao pregar a Nova Aliança, Paulo irá instrumentalizar as doutrinas antijudaicas e anti-semitas. Embora em Romanos 11 Paulo enfatize que Deus não rejeitou Israel – “Teria Deus rejeitado o seu povo? De modo nenhum! Pois eu mesmo sou israelita...”, a crença popular repete à exaustão que as perseguições sofridas pelos judeus, culminando com a Shoá,  seriam conseqüência desta rejeição.

E há alguns textos que não permitem dupla explicação como, por exemplo, quando em (Coríntios 3) Paulo taxa Moisés de mentiroso por encobrir o rosto com um véu: “Não fazemos como Moisés, que punha um véu sobre o rosto para evitar que os israelitas percebessem o fim de um resplendor passageiro. Mas a inteligência deles se obscureceu! Até o dia de hoje quando se lê o Antigo Testamento, este mesmo véu permanece... Sim, até o dia de hoje, cada vez que eles lêem Moisés, há um véu sobre o coração deles...”.

Ou, em Gálatas 3, 23-29, a afirmação de que a Torá perde seu poder com o advento do Messias. Sua função seria apenas preparatória e educativa no sentido de abolir a idolatria e preparar os seres humanos para a revelação.

É difícil para um judeu ler com frieza e passividade tais acusações. Mas, como já disse acima, o diálogo busca sublinhar aquilo que une e entender, dentro do seu contexto, aquilo que nos pode dividir, com respeito pela sensibilidade do próximo e afeto.

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