Edição 286 | 22 Dezembro 2008

A redescoberta de Paulo pela pós-modernidade

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Márcia Junges | Tradução Luciana Cavalheiro

Inspiração para fi lósofos ocidentais, sejam ateus ou crentes, Paulo de Tarso continua nos “forçando à refl exão”, pontua Alain Gignac. Para ele, Nietzsche dissocia Jesus e Paulo, opondo-os, atacando Paulo e “se servindo de um Jesus que lhe convém”

Alain Gignac é enfático ao dizer que a redescoberta de Paulo de Tarso pela pós-modernidade se dá em dois sentidos. “Paulo alimenta a (pós)modernidade, e esta permite redescobrir Paulo”. Um mestre que faz os filósofos ocidentais pensarem, mesmo os ateus. “Para todos esses filósofos, a leitura das cartas foi determinante como catalisador de seu próprio pensamento – que não se situava necessariamente na linha de Paulo e, mesmo seguidamente se opunha a ele”. E Paulo nos confronta na época de individualismo e consumismo exacerbados em que vivemos, provoca Gignac: “Na história da literatura, trata-se do primeiro escritor a se expressar em ‘eu’ com tal força. Mas o ‘eu’ de Paulo é livre e inscrito em uma comunidade, não é individualista e isolado, nem escravo e alienado”. Enquanto forem ligadas, suas cartas continuarão nos forçando a refletir. Por isso, “não há momento propício para ler Paulo, mas ao contrário, a leitura de Paulo pode criar um momento propício, o momento capaz de criar o novo”. Analisando as críticas de Nietzsche a Paulo, Gignac aponta que o filósofo alemão “dissocia Jesus e Paulo para opô-los e para atacar o apóstolo se servindo de um Jesus que lhe convém”. E completa: “O cristianismo não está fundado em Jesus, mas no Cristo – ou seja, uma interpretação pascal da vida e da morte de Jesus”. A respeito da morte na cruz, o teólogo destaca que Paulo sabe que esta é uma “morte vergonhosa, mas ele está longe de dizer que se trata de uma morte gloriosa. Paulo não exclui o sofrimento nem o escândalo da morte. Sua retórica não visa à sublimação, mas marca fortemente o paradoxo”.

Gignac é professor assistente na Faculdade de Teologia e Ciências da Religião da Universidade de Montreal, do Canadá, desde 1999, onde leciona Novo Testamento. Especializado no corpus paulino, ele interessa-se pelos métodos de análise sincrônica (retórica, estrutural, narratológica e intertextual) e os seus impactos hermenêuticos. A sua investigação Ler a Carta aos Romanos hoje, subvencionada pelo governo canadense, propõe-se reler os romanos com estes métodos, mas também sobre o horizonte do questionamento moderno/pós-moderno: como o escrito paulino propõe uma identidade e um agir no seu leitor? De sua produção acadêmica, citamos Juifs et chrétiens à l’école de Paul de Tarse. Enjeux identitaires et éthiques d’une lecture de Rm 9-11 (coll  Sciences bibliques  9, Montréal, Médiaspaul, 1999, 342 p.). A entrevista foi concedida por e-mail, com exclusividade à IHU On-Line.

IHU On-Line - Como a leitura das Cartas aos Romanos propõe uma identidade e um agir em seus leitores?

Alain Gignac - Para além dos efeitos retóricos, as cartas de Paulo se apresentam como um discurso que constrói a realidade. Constantemente, Paulo trabalha dois eixos que devem se coordenar: identidade e agir, indicativo e imperativo, visão do mundo e valores que se ligam uns aos outros: “Eis o que sois – o que somos! Agis em conseqüência”. Este jogo de linguagem pode ser analisado sobre dois planos: a enunciação e os enunciados.

Sobre o plano da enunciação, o leitor é convidado a tomar partido, em um jogo de pronomes particularmente perigoso. Há um “eu” (1a pessoa) que se dirige a um “tu” ou a um “vós” (2a pessoa, singular ou plural) em relação a um terceiro ao mesmo tempo ausente e muito presente: Cristo (que ocupa o lugar da 3a pessoa). Para complicar as coisas, “eu” se faz algumas vezes solidário de “vós” e passa assim ao “nós”. Ainda que se saiba, historicamente, que “vós” corresponde aos destinatários de Paulo (as comunidades que ele fundou), não impede que o leitor que abre o texto hoje seja influenciado por este dispositivo enunciativo. Ainda que ele possa resistir, ele é interpelado a se sentir concernido por este “vós”, ainda mais que o “eu” que toma a palavra o faz com grande intensidade. Ao longo das cartas, o “eu” paulino busca expressar a força, a profundidade do pertencimento de “vós” ao Cristo: “Vós estais em Cristo, viveis em Cristo, o Cristo está em vós”. Isto revela a intensidade. Em outras palavras, o leitor é conduzido pela enunciação do texto a identificar-se com este tipo de retrato-falado de “vós” que se constrói pouco a pouco ao longo da leitura. Ora, se o “eu” que se exprime nas cartas indica a “vós o que eles são, este “eu” não se constrange de lhes formular uma série de imperativos, de recomendações, de sugestões para balizar seu agir.

Novidade da experiência cristã

No plano dos enunciados, Paulo procura falar da novidade da experiência cristã.  Como falar da inédita novidade da ressurreição com velhas palavras, gastas? Paulo não tem vocabulário adequado para descrever o que deve descrever. A partir dos materiais extraídos da cultura do século I, das escrituras judaicas e das tradições orais das primeiras comunidades cristãs ele vai criar uma nova linguagem.  Isto feito, ele vai ainda contribuir para a construção de uma nova identidade para seus interlocutores. Por assim dizer, Paulo retrabalha o material, o desconstrói e compõe assim uma nova mensagem.

Romanos 3,21-26 é um bom exemplo do procedimento. Esta passagem fala da justificação pela fé. Paulo encadeia quatro metáforas saídas de quatro registros diferentes: 1) Registro jurídico: a justiça de Deus se manifesta sem a lei, fora da lei. Esta primeira metáfora é também um oxímoro,  pois uma justiça é inconcebível sem uma lei. A justiça de Deus é estranha, ela se situa para além de nossas concepções humanas da justiça. Ainda mais que, para ouvidos gregos, “ser justificado” tem conotações de condenação (equivalente à expressão francesa “passar em justiça”), enquanto que em Romanos 3, 21-26, isto se torna sinônimo de salvação;  2) Registro litúrgico: esta manifestação da justiça é análoga (ao mesmo tempo semelhante e diferente) ao ritual do Yom Kippour  descrito em Levítico 16. A morte de Jesus funciona como um rito anual de renovação da aliança inscrito no Antigo Testamento, enquanto o Grande padre irrigava o arco da aliança de sangue; 3) Registro socioeconômico: a justiça de Deus revelada pela fidelidade de Jesus até a sua morte lembra a alforria do escravo pelo seu dono. Paulo utiliza um exemplo comum da vida cotidiana na Antiguidade para descrever a ação de Deus em relação a “vós”. Metaforicamente, a identidade cristã é descrita como uma libertação da escravatura; 4) Registro da contabilidade: a justiça de Deus perdoa os erros como um banqueiro perdoaria repentinamente a dívida de alguém que se tornou superendividado.

Esta sucessão de metáforas tem um efeito estranho, ainda que sejam tiradas da linguagem de pessoas comuns. As quatro imagens se encadeiam rapidamente e se entrechocam. Elas dizem todas a mesma coisa e, ao mesmo tempo, não são perfeitamente compatíveis entre elas. Provocam um curto-circuito que convida a refletir, a se questionar e a redefinir, diante da nossa concepção de Deus. Para construir uma identidade nova (ou renovada), é preciso antes desconstruir a identidade primeira.

IHU On-Line - Qual é o principal desafio em ler Paulo de Tarso?

Alain Gignac - O principal desafio é ler Paulo tomando um distanciamento em relação às grandes leituras do passado, como a leitura luterana  e a sua justificação pela fé – sem, todavia jogar esta herança na lixeira. Podemos ler o texto de Paulo sem um parâmetro preconcebido que aplica ao pé da letra uma dogmática ou uma ideologia predefinida? Podemos fazer de Paulo não um mestre de pensamentos prontos, mas um mestre que faz pensar? De toda forma, Paulo não tem um bom vocabulário, como eu disse acima. Ele é o primeiro cristão a colocar palavras sobre a sua fé, e precisa tudo reinventar. Além do mais, procura responder aos problemas concretos que vivem as comunidades. Não se trata de um teórico ou alguém que vive na abstração. Paulo de Tarso responde a perguntas difíceis – mas não tem as respostas. Tenta encontrá-las, mas chega somente a vestígios parciais. Seu pensamento se constrói e se elabora diante de nós. Não é fácil entendê-lo. A “imperfeição” pode provocar certas frustrações, mas pode tornar-se uma maravilhosa escola. Como podemos fazer o mesmo trabalho criativo, para reinventar o vocabulário cristão possível de expressar hoje a identidade cristã? E como articular esta identidade com um agir de transformação?
Confesso aqui, tomando consciência de meus propósitos, que há talvez uma perspectiva (pós)moderna na minha resposta: minha preocupação em entender o questionamento de Paulo, aceitando antecipadamente que tudo não será coerente, que não poderei encontrar um centro em sua teologia, que não terei a resposta perfeita para as minhas questões sobre o humano e sobre Deus lendo Paulo...

Para ilustrar o que eu exprimo aqui, pode-se novamente retornar aos Romanos 3, 21-26 – um texto- chave de Paulo e da história da interpretação. As quatro metáforas utilizadas por Paulo, das quais somente uma é verdadeiramente tirada de sua formação teológica farisaica (referência ao Yom Kippur), foram soldadas juntas, chocadas violentamente, homogeneizadas. E elas deram origem a uma linguagem teológica: justificação, sacrifício expiatório, redenção, perdão dos pecados, palavras que transportam agora com elas sua bagagem de conceitualidade. Como ler imagens de Paulo, não mais como uma linguagem técnica teológica, que acreditamos captar de imediato, mas em sua vivacidade original? Como redescobrir o choque que sua amálgama constitui? Como perceber com acuidade que o texto procura primeiro dizer... que ele não sabe como dizê-lo? Eis todo um desafio.

IHU On-Line - Podemos falar em uma redescoberta de Paulo de Tarso pela pós-modernidade?

Alain Gignac - Esta descoberta se faz em dois sentidos. Paulo alimenta a (pós)modernidade, e esta permite redescobrir Paulo. Um livro recentemente publicado no quadro dos trabalhos do Romans Through History and Cultures Seminar é esclarecedor a este respeito.  De um lado, pensadores, no movimento direto ou não da (pós)modernidade, lêem as cartas de Paulo – os nomes mais marcantes são Jacob Taubes, Slavoj Žižek, Giorgio Agamben, Alain Badiou. O mínimo que se pode dizer é que estes autores muito perspicazes e muito penetrantes – que têm a sorte de não terem feito estudos em teologia (!) – nos fazem redescobrir Paulo! De um lado, utilizam-se muito do pensamento de um Jean-François Lyotard ou de um Jacques Derrida,  ou ainda da filosofia do processo  (process philosophy) para reler-se de outra forma as cartas de Paulo.

Por que se fala de redescoberta? Talvez por que há um eclipse (passageira) após a Segunda Guerra mundial? Na época em que o marxismo e depois o estruturalismo ocupavam toda a cena? Todavia, os “novos” leitores de Paulo não são tão inovadores, uma vez que eles se inscrevem em uma longa tradição a exemplo de John Locke,  Friedrich Nietzsche, Soren Kierkegaard,  Max Weber  ou Martin Heidegger.  Os filósofos ocidentais, mesmo ateus, leram Paulo em seu tempo. Para todos esses filósofos, a leitura das cartas foi determinante como catalisador de seu próprio pensamento – que não se situava necessariamente na linha de Paulo e, mesmo seguidamente se opunha a ele. Isso prova que Paulo é um mestre... que faz pensar!

IHU On-Line - Em entrevista anterior à nossa revista, o senhor equipara Paulo a Agostinho, Kant  e Hegel  como um dos fundadores do Ocidente. Quais são suas maiores contribuições a nós, homens e mulheres que vivem a pós-modernidade e suas contradições?

Alain Gignac - Começando a refletir sobre a sua questão, percebo que seria necessário um livro para respondê-la. Eu levantaria brevemente quatro pontos: ética, antropologia teologal, universalismo, ecologia.

Primeiramente, em uma época de individualismo e de consumismo exacerbados, Paulo nos confronta. Na história da literatura, trata-se do primeiro escritor a se expressar em “eu” com tal força. Mas o “eu” de Paulo é livre e inscrito em uma comunidade, não é individualista e isolado, nem escravo e alienado. Paulo é radical e exigente: a liberdade é preciosa e não poderia ser vendida. Além disso, todas as exortações paulinas convergem a isso: tudo o que se faz deve edificar, construir o indivíduo e a comunidade – indissociáveis. Creio então que a ética de Paulo seria uma herança a ser adotada – apesar de sua má reputação, Paulo não é um moralista, mas um liberal. 

Em segundo lugar, creio também que sua concepção segundo a qual somos filho e filha de Deus, amados pelo criador do universo e co-herdeiros do Cristo – e então que podemos fazer esta experiência da filiação, que é a experiência do sopro de vida (espírito santo) em nós –, esta concepção é simplesmente revolucionária. Esta experiência de participar da própria vida de Deus funda também a fraternidade humana. Poder-se-ia repensar os direitos do homem (tão seguidamente desrespeitados) à luz de Paulo? 

Em terceiro lugar, creio que a palavra de Paulo ainda não está ultrapassada: “Já não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas 3, 28).

Em quarto lugar, nesta época de desequilíbrio ecológico e de aquecimento climático, é preciso reler a passagem, em Romanos 8, em que Paulo afirma a interdependência entre a humanidade e o cosmos, dos quais ele compara os sofrimentos a um trabalho de gestação.

IHU On-Line - Por que considera Paulo o maior pensador messiânico de todos os tempos?

Alain Gignac - Não sou o autor desta idéia: trata-se mais precisamente do tema de Agamben, que tem uma visão bastante especial, pós-comunista, do messianismo, na linha de Walter Benjamin.  Agamben “descristologisa” o messianismo de Paulo, o esvazia do alcance experiencial (crer no Cristo aderir ao Messias, lhe dar a sua fé), para manter somente a estrutura. Para Agamben, o messianismo é uma postura e uma atitude política. É claro, minha leitura “messiânica” de Paulo é a de um teólogo, e não a de um filósofo. Para mim, Paulo é o primeiro que articulou uma cristologia – um discurso sobre Jesus Messias. Para o Apóstolo, a morte/ressurreição do Cristo constitui o pivô da história do mundo, do momento chave em que tudo se transforma em que se manifesta a justiça de Deus, no qual a idade de uma nova criação advém e substitui a idade antiga. Se tivéssemos somente os evangelhos, nossa reflexão sobre o Cristo seria amputada. Paulo é o primeiro pensador messiânico – foi nisso que ele contribui para fundar a Igreja.

IHU On-Line - Poderia explicar por que a nossa época seria o momento propício para compreender Paulo, e por que ele seria um dos textos maiores para compreender nossa época?

Alain Gignac - Trata-se novamente de uma intuição (ou mesmo de uma obsessão) de Agamben: alguns momentos da história permitem melhor captar e atualizar as potencialidades de um texto. Nossa época seria a primeira a poder realmente captar a complexidade decisiva do pensamento paulino. Ora, isto é ou pretensioso ou milenarista. Acredito mais que o sentido de um texto, ou seja, sua orientação, está sujeito ao longo das idades e em função das épocas, a interpretações múltiplas, ou mesmo infinitas. Estas interpretações se acumulam e valorizam sem cessar as potencialidades de um texto do qual não se tinha tomado consciência até então. Cada geração pode então reler Paulo com proveito – e de fato, releu-se Paulo há 20 séculos. Por que não a nossa geração? Mas não temos o monopólio da interpretação correta de Paulo!

As cartas de Paulo constituem um grande texto? Neste aspecto, desconfio de mim mesmo, pois um crente acha o texto bíblico... inspirador. As cartas de Paulo possuem um poder intrínseco, ou se vêem investidas pelo leitor deste poder? Tudo é a ambivalência da noção de “clássico”: isto supõe uma seleção que, ao mesmo tempo, se impõe a nós e continua apesar de tudo arbitrária. Um clássico (o que se lê em classe... como leitura escolar obrigatória) será uma fonte, se o abrirmos. Um livro que não se lê, tenha ele tido o maior poder de subversão do mundo, continuará morto, à espera de ser atualizado.

Cartas que nos forçam a refletir

As cartas de Paulo, enquanto forem lidas (pois podem cessar de serem lidas: o que é um clássico pode cair em abandono), saberão nos sacudir, nos confrontar, nos forçar a refletir. A história da interpretação antes de nós mostra isso amplamente. Não há momento propício para ler Paulo, mas, ao contrário, a leitura de Paulo pode criar um momento propício, o momento capaz de criar o novo. Por quê? Essencialmente por três razões – provavelmente interligadas. Primeiramente, a temporalidade paulina é construída sobre o modo do kairós  que surge e vem interromper o chronos (cronologia): Bultmann  o salientou bem (e, paradoxalmente, cada um a sua maneira, Badiou e Agamben). O “agora” e o “doravante” são muito fortes em Paulo e colocam constantemente o leitor diante da urgência de uma decisão. (Mais uma vez, pode-se reler Romanos 3, 21-26, que começa por um sonoro “mas agora”.) Em segundo lugar, há um poder, uma veemência em Paulo – mas sou talvez influenciado pelo meu status de crente, para quem se trata de um texto canônico de referência. A poesia, a retórica, a implicação impetuosa de uma personalidade excepcional: parece-me que o texto paulino possui uma grande eficácia performativa. Em terceiro lugar, as cartas paulinas – e é provavelmente a razão pela qual os cristãos as conservaram – mantêm a marca da experiência da ressurreição.

IHU On-Line - Qual é seu parecer sobre a acusação de Nietzsche a Paulo de que ele deturpou o ensinamento de Cristo?

Alain Gignac - Não sou um especialista em Nietzsche, mas, à maneira do filósofo alemão, permitam-me jogar com as palavras. De sua parte, não se trata de uma maledicência (fundamentada), mas de uma calúnia (inventada). Nietzsche dissocia Jesus e Paulo para opô-los e para atacar o apóstolo se servindo de um Jesus que lhe convém. Nietzsche fabrica uma imagem de Jesus para, em seguida, provar sua tese segundo a qual Paulo inventou uma forma religiosa aberrante, o cristianismo, que toma o exato contrapé do ensinamento do fundador, do qual Paulo se proclama, no máximo da desonestidade, o mensageiro. Sobre isso, duas coisas. De um lado, para o apóstolo, Jesus não é uma mensagem, um ensinamento, um conjunto de valores mais ou menos humanistas, mas uma experiência (isto, Badiou entendeu melhor do que Nietzsche). Nós nos lembraríamos da personalidade e da sabedoria de Jesus, se os primeiros cristãos não tivessem feito a experiência de um encontro libertador do Vivo? Por outro lado, Nietzsche não soube ver que as cartas de Paulo são o eco do ensinamento de Jesus de Nazaré – mesmo se este é citado somente em caso raro (e, nestes casos raros, jamais de maneira muito clara, inclusive). O amor fraterno, a doçura, o ideal de perfeição evangélica que impulsiona o humano para o alto sem esmagá-lo sob uma moral do dever – tudo isto é muito presente em suas cartas.

IHU On-Line - Nessa perspectiva, qual sua posição sobre a pretensa teologia do ressentimento que Paulo teria fundado?

Alain Gignac - Para responder corretamente sua questão, ser-me-ia necessário reler Nietzsche. Pelo que sei, esta imagem forte do ressentimento classifica o cristianismo como uma religião de ódio. Desconhecendo o ensinamento de Jesus, os cristãos teriam desejado vingar não somente a sua morte, mas também a sua própria exclusão (diante dos Judeus, do Império etc.) Eles não teriam compreendido as motivações que animavam Jesus na aceitação de seu destino. As conseqüências deste ressentimento teriam sido a exaltação da pequenez e a fuga do mundo.

Parece-me que Nietzsche erra totalmente o seu alvo. Não reconheço Paulo na caricatura que ele faz. Além disso, ele ataca Paulo ou o cristianismo de seu tempo?  Na minha leitura, Paulo não é nem raivoso nem animado pela vingança. Como Jesus, ele está ao lado dos excluídos e dos fracos (o que não agrada Nietzsche). Paulo não foge para um outro mundo: ao contrário, este mundo de Deus já é vivido. A ressurreição não é para amanhã, ele é hoje no centro de nossa existência.

Entretanto, o filósofo alemão apontou um ponto extremamente importante: “São Paulo desloca simplesmente o centro da gravidade de toda a existência, por de trás desta existência - na ‘mentira’ de Jesus ‘ressuscitado’” (O anticristo, § 42). A ressurreição está bem no centro da cristologia de Paulo – mas não se trata de uma fuga da vida presente, mas de sua transfiguração do interior! Se ele contesta tão fortemente Paulo, é porque o leu atentamente. E quem sabe por que vê nele um rival? Em Paulo, tudo passa pelo prisma da morte/ ressurreição – a cruz, por assim dizer. Então, tudo está “desfigurado”. Mais uma vez, jogando com as palavras, Paulo não tem necessidade de desfigurar o ensinamento de Jesus. O Cristo que ele propõe está desfigurado, uma vez que ele passou pela cruz – como ele lembra rudemente em Gálatas (3,1).

IHU On-Line - Essas críticas poderiam ser compreendidas como uma forma de apreendermos o cristianismo em sua versão mais primordial, sem a interferência paulina?

Alain Gignac - Sim, há uma interferência “paulina” entre nós e Jesus de Nazaré, e mesmo entre nós e a experiência pascal fundadora, mas ela é inevitável. Nós conhecemos Jesus somente através do testemunho situado e orientado dos primeiros cristãos – como Paulo. Neste sentido, creio que não há forma mais primordial do cristianismo que aquela que nos transmite, em sua diversidade plural, o Novo Testamento. A busca histórica pode tentar reconstruir, fora dos textos, o Jesus histórico ou a vivência dos primeiros cristãos em Jerusalém ou na Galiléia, mas isso continua sendo uma construção hipotética... e muito (demais) seguidamente sujeita ao “imaginário” do historiador (ou do filósofo). Paulo está também no princípio do cristianismo! Ele se torna cristão no máximo cinco anos após a morte de Jesus. Seria mais justo, ao invés de buscar como uma miragem uma versão “primordial” de um cristianismo puro e não deformado, de valorizar o pluralismo dos cristianismos durante o século I – ou seja, a diversidade das correntes na Igreja primitiva. Pode-se criticar Paulo, mas não se pode acusá-lo de deformar o cristianismo, de desfigurá-lo. A identidade cristã passa pela Páscoa.

Formulado de outra forma: o cristianismo não está fundado em Jesus, mas no Cristo – ou seja, uma interpretação pascal da vida e da morte de Jesus. Podem-se ver outras interpretações da experiência pascal, paralelas a de Paulo, que nos agradam mais, mas não há cristianismo primordial – somente figuras do Cristo concorrentes e finalmente contemporâneas à da desenvolvida por Paulo. 

IHU On-Line - Como compreender que a morte na cruz, então a mais ignominiosa que se podia conceber, foi interpretada por Paulo como uma morte gloriosa, sublime, e assim difundida, segundo critica Nietzsche?

Alain Gignac - Paulo não fala da cruz gloriosa. Ao contrário, ele insiste sobre o escândalo da imagem desfigurada do Cristo. A proclamação messiânica de um messias crucificado é uma loucura. Sobre este assunto, é preciso reler os quatro primeiros capítulos da Primeira Carta aos Coríntios (que Nietzsche cita inclusive três vezes em O anticristo, §45: O filósofo, do âmbito da sabedoria humana, é verdadeiramente escandalizado por esta loucura que está no seio da predicação paulina). Paulo é consciente de que se trata de uma morte vergonhosa, mas ele está longe de dizer que se trata de uma morte gloriosa. Paulo não exclui o sofrimento nem o escândalo da morte. Sua retórica não visa à sublimação, mas marca fortemente o paradoxo. A argumentação repousa então sobre uma premissa: todo o mundo está de acordo que a cruz é uma aberração, uma derrota, ou até mesmo o sinal de uma maldição divina (como lembra Paulo em Gálatas 3, 10). Todavia, foi Deus quem ressuscitou este messias, o Cristo (Romanos 1, 3-4). Em 1 Coríntios 1-4, Paulo não fala imediatamente de ressurreição. Será preciso esperar o Capítulo quinze para que ele o faça (1 Coríntios 15). Para ele, morte e ressurreição estão ligadas (Romanos 6, 1-5): a cruz fica sem sentido sem a ressurreição, mas esta torna-se triunfal e desconecta da realidade se esquecermos a cruz. Os cristãos têm dificuldade de manter o equilíbrio: a cruz pode ser exaltada e tender ao masoquismo (e, este ponto, Nietzsche tem sem dúvida razão, em sua suspeita extrema), e a ressurreição pode tender ao apologético (“olhai como a mensagem do evangelho é forte e sublime...”).

Mais uma vez, Nietzsche é um leitor perspicaz. Ele tem razão em salientar a insistência de Paulo sobre a cruz e ele tem o direito, em nome de sua lógica, de rejeitar a linguagem paulina. Mas, ele está errado em chamar Paulo de desonesto, ou até mesmo de manipulador. Ao contrário, Paulo é honesto e consciente do escândalo de sua pregação. Se o apóstolo não pode fazer de outro modo, é porque seu discurso repousa sobre a experiência da ressurreição: a despeito do triunfo da morte, a vida o levou. Ao próprio lugar onde a força do pecado pareceu levá-lo, a justiça de Deus triunfou (Romanos 8, 1-4). Para além das aparências, Paulo não tem escolha, uma vez que se trata de dar conta de sua experiência, de atestar e de testemunhar, e não de provar. Isto também Badiou compreendeu bem, melhor do que Nietzsche. O que distinguirá sempre o filósofo do apóstolo é justamente esta experiência. A ressurreição não é justamente uma dedução, um raciocínio, mas um encontro que se impõe a um sujeito que crê.

Leia Mais...

Alain Gignac já concedeu outra entrevista à IHU On-Line. Confira o material na página eletrônica do IHU (www.unisinos.br/ihu).

Entrevista:

• Paulo de Tarso e os filósofos contemporâneos. Edição número 176, de 17-04-2006, intitulada Améria Latina: um giro à esquerda?

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