Edição 285 | 09 Dezembro 2008

Invenção - Fernando Paixão

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André Dick

Editoria de poesia

O poeta Fernando Paixão nasceu na pequena aldeia de Beselga, de Portugal, em 1955. No início de 1961, veio morar no Brasil. É formado em Jornalismo, pela Universidade de São Paulo (USP), mestre em Teoria e História Literária, pela Unicamp, e doutor em Comunicação e Semiótica, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Organizou a obra Poesia de Mário Sá-Carneiro (São Paulo: Iluminuras, 1995), acompanhada de uma análise. Sobre esse poeta português, também publicou o estudo Narciso em sacrifício: a poética de Mário de Sá-Carneiro (São Paulo: Ateliê Editora, 2003). Publicou os livros de poesia Rosa dos tempos (São Paulo: Pau Brasil, 1980), Fogo dos rios (São Paulo: Brasiliense, 1989), 25 azulejos (São Paulo: Iluminuras, 1994), Poesia a gente inventa (São Paulo: Ática, 1996) – este com poemas para crianças -, Poeira (São Paulo: Ed. 34, 2001) e A parte da tarde (São Paulo: Ateliê Editorial, 2005).

Se em Fogo dos rios, o poeta se baseia, para compor seus versos, nos textos filosóficos deixados pelo grego Heráclito de Éfeso (c.544-484 a.C), em 25 azulejos, Paixão continua a mostrar uma poesia com toques de filosofia, mas sempre baseada em observações direcionadas ao cotidiano. O rio, de certo modo, continua dando à poesia de Paixão um passo metafórico, como percebemos no poema “Incêndio”: “À margem deste rio / curva-se / a árvore em forma oblíqua / de pergunta. / Surpreendida na imagem / apura / o arco até o confim. / Embaixo as águas picotam / o verde / emprestam-lhe a dança. / Era o que incendiava a lógica da tarde”. Ou quando compara a multidão a um rio, em “Anônimo”: “Caminho sob o lençol da multidão / a obscurecer imagens. / Caminhar: desfazer-se em líquidos / passos que decidem / o jogo ternário das esquinas. / [...] / Vou me banhar no rio das casas”. Em “Ilha”, por sua vez, mostra a força da água contra a pedra, que pode ser vista também como uma pessoa: “Na orla de curvas ásperas / a água bate / rebate marolas cansadas / deixa o limo. / A pedra recebe o visgo / em visita / remoendo a forma. / Depois da pele em musgos / vem a carne / completar-lhe os ossos. / E a pedra se fez animal”. No poema inicial do livro Poeira, surge novamente a imagem do rio, desta vez como símbolo que não passa: “Nas guerras de antigamente / os rios seguiam a batalha / com o seu bordão triste. / Soldados feridos e curvados / vinham morrer na quietude / das margens acolhedoras”.

Objetos que ganham vida

Existe também, nos poemas de Paixão, além dessa analogia entre humanidade e água (representada pelo rio), a composição de um contexto familiar, de presenças e ausências. Os objetos, ao mesmo tempo, ganham vida, como no poema “Aleijadinho” (de 25 azulejos): “[...] a pedra humanizada / respira / o silêncio das colinas, ou em “Azuleijista”: “A parede crua desaparece lenta / submetida ao capricho / de uma pele de esmalte e infinito”. No poema “Anunciação” (de Poeira), lemos: “o pêssego oferece / a pele em seda / à espera dos dedos”. A amada também surge em meio ao versos, assim como pistas da leitura da tradição. Acompanhado de uma certa metalingüística, o modelo de Paixão para seus versos é a imagética que cerca os passos do dia-a-dia. Em “Praça maior”, Paixão atinge a melhor descrição de sua poética: “Um corte de sombras / esquece da geometria. / / Só as bicicletas insistem / na vontade oblíqua / por dobrar esquinas. / Nenhum sol ausente: / / - luz a pino”. No fechamento desse poema, há uma contenção que impressiona: “Cada pessoa guarda o pensamento / entre os dedos. Há um nome / um corpo a levar / sob a curva dos pombos” – como se o corpo ficasse leve e pudesse voar. Com isso, é comum existir, na poesia de Paixão, um afastamento para um ambiente que parece longínquo, preso na recordação, como em “Três assobios”: “Atento às linhas do horizonte / ao alfabeto casual das árvores / o camponês lê as ovelhas / arrancando as vírgulas da tarde”. Ou na série de poemas intitulada “Poeira de areia”. Isso porque existe, nessa série, uma rememoração do poeta para imagens que remetem sobretudo à infância e à família, no quinto fragmento: “Adultos e crianças vão guiados / por um andor branco e comovente. / Formam / duas fileiras de mãos atenciosas. / [...] / Até que o vento apaga / o dedo em luz. / Soluço. Desamparo. / / Como um segredo / a avó me repassa o fogo”. A ligação do sujeito com a natureza também é destacada: no sexto fragmento dessa série, Paixão descreve a noite como “pálpebra escura e grave / sobre as casas”; e, no sétimo, o fogo traz brasas que contam histórias. Até que no décimo argumento, Fernando Paixão volta a um dos aspectos mais fortes em sua obra: o que liga o sujeito à água. Nesse fragmento, podem ser lidos os seguintes versos, depois de o poeta falar em mulheres nas águas e meninos correndo: “O rio alivia um depósito de almas”. Veja, a seguir, um poema inédito que Paixão enviou à IHU On-Line.

 

MODO DE VER

Repentinos amanheceres
brotam na contenda das cores.

As coisas postas em seu reino
de inumeráveis, múltiplos eixos.

Detalhes de velhas árvores anunciam
uma aquarela de abandonos.

A morte se esconde no incenso.
Bumerangue do sentimento.

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