Edição 285 | 09 Dezembro 2008

Última parada 174

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André Dick

O filme comentado nessa edição foi visto por algum/a colega do IHU e está em exibição nos cinemas de Porto Alegre, como o Center, do Shopping João Pessoa.

O menino Sandro Barbosa do Nascimento resolve sair da casa de pais que o adotaram, indo para as ruas do Rio de Janeiro. Aos poucos, ele se envolve com drogas e assaltos, enquanto é procurado por uma mulher que pensa ser sua mãe. Confira.


Ficha Técnica
 

Título original: Última parada 174

Gênero: Drama

Tempo de duração: 114 minutos

Ano de lançamento (Brasil / França): 2008

Direção: Bruno Barreto

Elenco: Michel Gomes (Sandro), Marcello Melo Jr. (Alê Monstro), Gabriela Luiz (Soninha), Cris Vianna (Marisa), Anna Cotrim (Walquíria), Tay Lopes (Jaziel), Jana Guinoud (Maria)

Sinopse:  O menino Sandro Barbosa do Nascimento resolve sair da casa de pais que o adotaram, indo para as ruas do Rio de Janeiro. Aos poucos, ele se envolve com drogas e assaltos, enquanto é procurado por uma mulher que pensa ser sua mãe.

 

Realidade sem demagogia

O filme Última parada 174, de Bruno Barreto, chegou aos cinemas brasileiros com uma carga desnecessária: ser representante do Brasil na lista inicial de indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiro de 2009. Como ele nem havia estreado em rede nacional quando foi escolhido por um júri do Ministério da Cultura, quando lançado acabou tendo seu raio de alcance diminuído, uma vez que se esperava um filme do nível de Cidade de Deus, por exemplo, indicado, há alguns anos, a vários Oscars.

No entanto, se não é uma obra excelente, o filme de Bruno Barreto tem uma qualidade indiscutível: não é exagerado nem demagógico. O diretor, que vem alternando filmes falados em inglês (como Voando alto) ou em português (O casamento de Romeu e Julieta), ou com a mistura entre os dois idiomas (como é o caso da comédia romântica Bossa Nova, com Antônio Fagundes e Amy Irving), sabe como filmar uma história depois de muitos anos de experiência atrás da câmera. Ou seja, Barreto sabe como tornar, por exemplo, o cenário que foca num elemento tão importante da narrativa que parece um personagem à parte. Desta vez, ele volta suas lentes para o Rio de Janeiro, filmando a cidade como poucos cineastas. Se havia uma certa melancolia nas praias e ruas de seu filme Bossa Nova, menos ensolarado do que a cidade em que se passa, com personagens situados em meio a um mundo de executivos, em Última parada 174, Barreto reproduz a carga de uma cidade situada entre o centro, carregado de meninos de rua, e as favelas, onde se situa o tráfico de drogas, que parece movimentar toda a cidade. O movimento de câmera, no início, da favela para a cidade representa bem isso.

É possível até pensar que Barreto mostra a realidade de maneira mais crua, por exemplo, do que o bélico Tropa de elite,  que procura engrandecer a ação policial sob a ótica de que bandido bom é bandido morto. Em Última parada 174, não há esse maniqueísmo. Há, isto sim, uma visão mais simples e mais decadente do que, também, outro referencial do gênero, Cidade de Deus, que mostrava a violência do indivíduo desde a infância, mas evitava revelar melhor a crueza das drogas, preferindo tornar alguns de seus personagens em seres mitológicos, apresentando traços bem-humorados, digamos, por meio da violência. Isso quer dizer que enquanto Cidade de Deus tentava despistar a realidade com a trilha sonora dos anos 1970 – não deixando de ter qualidade por isso –, Barreto filma tudo com uma certa distância, mas que não lembra um documentário, com depoimentos ou algo do gênero – o que se deve, também, ao roteiro de Bráulio Mantovani, curiosamente o mesmo de Cidade de Deus. A primeira seqüência é exemplar, porque reproduz uma realidade sem querer encobri-la com idéias demagógicas. É um retrato cru e forte, sem nenhuma piedade. Nesse sentido, ele lembra, ism, o documentário Ônibus 174, feito por José Padilha, de Tropa de elite. Ele consegue, mesmo assim, ficcionalizar uma história real, utilizando, sobretudo, uma fotografia de alta elaboração (assinada por Antoine Heberlé), uma montagem ágil (de Letícia Giffoni), que nunca deixa lacunas entre os vários níveis narrativos do filme, e a música de Marcelo Zarvos, que evidencia um conflito que é eminente.

O clímax de qualquer filme é prejudicado quando se conhece ou se antevê o fim da história. No caso da obra de Barreto, o interessante é justamente acompanhar os passos do menino que causou a comoção em 2000, no ônibus 174, Sandro Barbosa do Nascimento, que, órfão, resolve sair da casa de pais que o adotaram, indo para as ruas do Rio de Janeiro. Logo ele se envolve com drogas, sendo ajudado por uma ONG, que o leva para o abrigo de uma favela depois da chacina da Candelária. No entanto, ele acaba sendo preso por porte de drogas e vai para a cadeia, onde reencontra Alessandro, que cobrava o dinheiro de drogas usadas por ele e de seus amigos. Ali, eles se tornam amigos. Ao mesmo tempo, Barreto mostra a vida de uma mulher que perdeu o filho, ainda pequeno, chamado Sandro, para um traficante de morro. Namorada de um pastor, ela está atrás do filho e acredita que seja o Sandro recolhido pela ONG e depois levado para a cadeia. Sandro também acaba se envolvendo com uma mulher que conheceu ainda criança, e tornou-se prostituta, não querendo estabelecer nenhum compromisso.

O personagem não é esquemático em nenhum momento, e Barreto sabe como, aos poucos, desenvolvê-lo. É ajudado, claro, pela excepcional atuação de Michel Gomes. Sabendo filtrar as mudanças de seu personagem, Gomes atinge uma interpretação caracterizada pela mudança de comportamento, o que imprime muito realismo ao personagem, de maneira irretocável. A seqüência em que Sandro conta como gosta de viver em meio ao chafariz e que há um resquício de sol sobre o Cristo naquela manhã mostra o quanto sua interpretação é excelente. Essa ligação com a possibilidade de mudança de vida é sempre ligada, no filme, à figura feminina: não por acaso, em determinada cena, Sandro está nos braços de uma mulher como o personagem do Pixote de Hector Babenco nos braços de Marília Pêra. A situação é diferente, mas o enfoque dado, além da sensibilidade para reproduzir essa seqüência, é a mesma: Sandro, para Bruno Barreto, é um Pixote que veio à tona por meio de um acontecimento que chamou a atenção de toda a mídia, revelando a via de escape para um universo que se encontra asfixiado pelo sistema. E a única alternativa para ele é a figura feminina, seja na figura da mãe, da namorada ou da mulher que o ajuda na ONG. Isso porque a figura masculina é a do “irmão” que o leva a assaltar para ganhar a vida, ou lhe oferece drogas, ou o castiga (como no caso dos policiais). Não há, nesse caso, tranqüilidade para o personagem Sandro: situado nessa divisão, ele não consegue responder ao que se espera de sua vida.

Nesse sentido, a obra de Barreto é sobre a crescente perda pela qual Sandro passa. Mesmo com chances reais de se inserir na sociedade, é como se houvesse um passado que sempre o prendesse no mesmo lugar. Como o outro personagem, Alessandro, que não consegue se desviar do mundo do crime. Barreto, acostumado a pintar seus personagens de forma colorida, desta vez parece não neutro, mas confiante em revelar sua percepção, mostrando-se um cineasta mais maduro. Como o incidente com o ônibus 174 é apenas desculpa para mostrar o restante – não há um clímax, como não há apelos ao longo do filme –, o cineasta Bruno Barreto parece ignorar o que tornou o caso de Sandro tão conhecido: a mídia. Esta é vista apenas como o sinal da propagação de desespero e de manipulação para ganhar ibope. Como não é o desespero que interessa a Barreto, e sim a forma de encará-lo, Última parada 174 acaba sendo mais do que pretendia: uma obra ficcional capaz de trazer o espectador à realidade como poucos filmes já feitos no Brasil.

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