Edição 283 | 24 Novembro 2008

A misericórdia move e habilita a justiça

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Patricia Fachin

Na percepção do teólogo norte-americano James Keenan, precisamos de consciências vigilantes para criar alianças mais responsivas ao sofrimento no mundo de hoje. Precisamos, aconselha Keenan, demonstrar um interesse maior “em nos tornarmos pessoas mais vigilantes e corajosas em relação à vida moral”. Para ele, esse é um dos grandes desafios da humanidade. Confortáveis, aponta, muitos cristãos são mais influenciados por “psicologia barata do que pela moralidade verdadeira”.

Em entrevista concedida por e-mail para a IHU On-Line, o teólogo norte-americano James Keenan reflete sobre os desafios da teologia moral e aponta três preocupações para o século XXI: a falta de obediência à consciência, a injustiça com o próximo e a busca por uma ordem mais justa. A Igreja, garante, pode ajudar nesse sentido, compreendendo em que o fiel realmente acredita. “Penso que em muitas partes do mundo os bispos precisam conhecer melhor quais são as necessidades de seu povo. Isso provém de uma escuta humilde e da graça da dúvida em relação a si mesmo”, avalia.

Keenan fez mestrado e doutorado em Teologia Moral na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma. Professor de Teologia Moral na Weston Jesuíta Escola de Teologia em Cambridge, Massachusets, Kennan é autor, entre outros, das obras Church ethics and its organizational context:  learning from the sex abuse scandal in the catholic church (Lanham, Md.: Sheed and Ward, 2005), Catholic theological ethics in the world church: The plenary papers from the first cross-cultural conference on catholic tehological ethics (New York: Continuum, 2007) e Toward a global vision of catholic moral theology: reflections on the twentieth century (Bangalore: Dharmaram Vidya Kshetram Press, 2007).

IHU On-Line - Quais são hoje as principais, preocupações, desafios e possibilidades da teologia moral?

James Keenan - Há três preocupações principais, que são igualmente importantes. Primeiro, ajudar as pessoas a compreender que elas têm uma consciência à qual devem obedecer e que devem formar. As pessoas pensam atualmente que a consciência é algo ao qual podemos apelar sempre que discordarmos do ensinamento da Igreja. Isso é uma noção muito empobrecida da consciência.

A consciência é a fonte de nossa autocompreensão de sermos pessoas chamadas à vida moral por Deus como discípulos de Cristo na Igreja. Portanto, precisamos obedecer a nossa consciência a cada momento de todos os dias. Ela deve ser entendida como o lugar onde Deus nos inspira a encontrar a conduta certa e agir de acordo com ela.

O chamado para ser moral não é uma conclamação ocasional, mas contínuo e eterno. Por essa razão, penso que a melhor maneira de se formar a consciência é praticar a vida virtuosa. Aqui eu recomendaria: fé, esperança, caridade, e prudência, justiça, força e temperança. Acrescentaria fidelidade, espírito de reconciliação, humildade, misericórdia e cuidado de si. Acho que a melhor forma de se formar a consciência é crescer nessas virtudes.

Segundo, a abrangência da injustiça no mundo é completamente intolerável. A injustiça econômica e a injustiça de gênero significam que as pessoas mais pobres são mais doentes, menos instruídas e têm menos acesso aos bens da Terra. Além disso, num meio ambiente progressivamente desestabilizado, elas têm menos acesso à água potável e à irrigação, menos acesso aos mercados e vivem em áreas com maior risco de ocorrer despejo de resíduos. A dignidade da pessoa humana, tão forte em nossa tradição, perde-se para um mundo globalizado excessivamente injusto.

Terceiro, ao buscarmos uma ordem mais justa, tanto na sociedade quanto na Igreja, somos bloqueados por ideólogos que não passam de conseqüencialistas. Às vezes, essas pessoas são líderes religiosos, mas às vezes estão entre os principais secularistas; ainda assim, um ideólogo continua sendo um ideólogo. Precisamos reconhecer nossa necessidade de maior colaboração, de discussões mais respeitosas e posições menos excludentes.

Nós precisamos atualmente de uma nova humildade em que valorizemos o que Margaret Farley chama de a graça da dúvida em relação a si mesmo. Precisamos de consciências vigilantes para criar alianças mais responsivas ao sofrimento no mundo de hoje.

IHU On-Line - Quais as implicações da reivindicação de autonomia por parte do indivíduo na cultura contemporânea para a teologia moral?

James Keenan - A autonomia é muito importante nos EUA e em outros lugares do mundo industrializado.

Penso, no entanto, que às vezes confundimos a autonomia com moralidade privada, ou seja, autonomia é qualquer coisa que eu decida. Isso não tem sentido para a pessoa que crê.

O termo “autonomia” é usado menos pelos teólogos dos EUA e mais pelos europeus. Se realmente entendermos o que os teólogos morais europeus da Espanha, de Portugal, da Alemanha, França, Itália, Bélgica, Holanda e de outros lugares querem dizer com o termo “autonomia”, veremos que ela é a obrigação de seguir os ditames da consciência.

Quando esses teólogos falam de autonomia, no entanto, eles estão muito preocupados que não concebamos isso como um afastamento de uma comunidade de fé; ao contrário, a pessoa de consciência entende seu chamado para acatar a consciência justamente como membro de uma comunidade de fé.

IHU On-Line - Até que ponto é possível formar uma consciência moral autônoma sobre questões morais em meio ao bombardeio de opiniões e manipulações ideológicas e midiáticas que enfrentamos diariamente?

James Keenan - Acho que pode bem ser verdade que seja difícil compreender o que exatamente precisamos fazer hoje em dia por causa da existência de um grande número de reivindicações aparentemente contraditórias, mas penso que nosso desafio maior atualmente é que precisamos estar em primeiro lugar pelo menos interessados em nos tornarmos pessoas mais vigilantes e corajosas em relação à vida moral.

Muitos cristãos estão confortáveis demais em relação à sua vida moral. Temos uma noção empobrecida de pecado (defino pecado como não se dar o trabalho de amar). Somos mais influenciados por uma psicologia barata do que pela moralidade verdadeira. O vício da presunção nos rodeia. Achamos que já estamos fazendo o suficiente, quando estamos fazendo muito pouco.

Precisamos nos dar conta de que nossa sociedade nos protege demais de ficarmos sabendo o que acontece no resto do mundo. O nacionalismo também nos cega em relação às pessoas que têm necessidades maiores e às que sofrem em outros lugares para sustentar economias poderosas e estilos de vida do mundo industrializado.

Os jovens, no entanto, percebem que temos de trabalhar mais duro, de maneira mais colaborativa, mais criativa e mais tolerante por um mundo melhor.

Cristo está nos chamando agora. Agora é a hora de reagir a um mundo que está sofrendo terrivelmente.

IHU On-Line - Como conjugar sensus fidelium e discernimento moral?

James Keenan - Fizemos uma conferência de 400 teólogos morais católicos romanos de 63 países em julho de 2006 em Pádua, na Itália (Veja o site: www.catholicethics.com).

Num dos painéis, dois importantes pesquisadores discutiram o sensus fidelium. Acredito que eles nos deram duas respostas complementares. Da França, o Pe. Paul Valadier,  S.J., sustentou que a liderança da Igreja precisava valorizar mais o sensus fidelium e que, na verdade, atualmente muitos líderes estão mais interessados em ensinar do que em ouvir e aprender. Por outro lado, o monsenhor Giuseppe Angelini  temia que equiparássemos o sensus fidelium a uma simples pesquisa de opinião entre os fiéis, por exemplo: quantos católicos acham que o divórcio é uma opção moral? Se for uma maioria, então o sensus fidelium favorece o divórcio. Isso é um contra-senso.

Nem Valadier nem Angelini concebem o sensus fidelium tão superficialmente. Acertadamente, Angelini vê um sensus fidelium verdadeiro ligado a uma profunda busca integral para compreender os desígnios de Deus em nosso tempo. Acho que Angelini, como eu, acredita que pregamos hoje complacência demais e não o chamado crítico a seguir o evangelho. Mas, como Valadier, penso que nosso episcopado precisa compreender em que os fiéis realmente acreditam hoje. Penso que em muitas partes do mundo os bispos precisam conhecer melhor quais são as necessidades de seu povo. Isso provém de uma escuta humilde e da graça da dúvida em relação a si mesmo.

Os ensaios foram publicados originalmente em inglês, em uma coletânea de 30 textos da qual fui o editor: Catholic theological ethics in the world church: the plenary papers from the first cross-cultural conference on catholic theological rthics (New York: Continuum, 2007). A edição brasileira será lançada em breve.

IHU On-Line - Em que sentido o que é certo ou errado moralmente falando tem a ver com o que é bom ou mau?

James Keenan - Esta é uma distinção muito técnica, mas quer dizer simplesmente que quando amamos, procuramos viver e agir corretamente, só que às vezes não compreendemos adequadamente qual é a ação certa. Na busca da conduta certa, podemos nos enganar, errar em vez de acertar.

Penso aqui nos pais. Ser um pai ou uma mãe amorosa não significa necessariamente que ele ou ela terá sempre a orientação certa. É por isso que precisamos das virtudes. Pela caridade nos tornamos bons e amorosos. (Para receber a caridade, no entanto, precisamos também da fé e da esperança.) Pela prudência, justiça, força e temperança, somos capazes de perceber o que é certo.

São Paulo nos diz que, se fizermos tudo certo, mas não tivermos caridade, não somos nada. Portanto, se agirmos corretamente, mas não amarmos a Deus, a nós mesmos e ao nosso próximo, somos maus.

A maldade que é pecado é quando não nos preocupamos em amar e deixamos de procurar fazer o que é certo. Penso que é por isso que podemos dizer que há muito pecado no mundo, não simplesmente por causa do que fazemos, e sim mais pelo muito que não nos damos o trabalho de fazer. Se lermos Mateus 25, entenderemos o critério de nosso juízo final, ou seja, se procuramos alimentar os famintos, vestir os nus, visitar os doentes etc., isto é, se nos preocupamos em amar.

IHU On-Line - Sabemos que o senhor dá uma importância capital para a misericórdia no seu modo de desenvolver a teologia moral. Como o senhor situa a misericórdia no tratamento de questões morais?

James Keenan - Acho que a verdadeira marca registrada do catolicismo romano é a misericórdia, que defino como a disposição de entrar no caos de outra pessoa. Penso que toda a nossa tradição teológica se baseia na misericórdia. Por exemplo, de acordo com um relato bíblico, Deus criou o mundo a partir do caos. Tanto na encarnação quanto em nossa redenção Cristo entra em nosso caos. Lucas nos diz que o próximo é aquele que mostrou misericórdia, e Mateus 25 nos diz que seremos julgados de acordo com nossa prática da misericórdia.

A maior parte de nossos movimentos ascéticos, ordens religiosas e fraternidades leigas se baseavam na prática de exercícios espirituais e das obras de misericórdia.

Por essa razão, acho que a misericórdia nos reivindica de maneira especial. (Mas observe que os muçulmanos chamam Alá de o misericordioso; os judeus acreditam na hesed de YHWH.)

Acredito que toda virtude se torna “católica” quando é formada pela misericórdia. A justiça se torna verdadeiramente católica quando é formada pela misericórdia. Uma justiça que nos leva a entrar no caos de outras pessoas nos ajuda a perceber por que temos uma opção pelos pobres, por que precisamos defender a justiça para as pessoas que recebem tão pouca justiça. A misericórdia não silencia a justiça, mas move e capacita a justiça para que esta seja conquistada pelos oprimidos.

De modo semelhante, a fidelidade moldada pela misericórdia percebe que toda amizade e todo relacionamento é medido pelo caos e necessita com freqüência de reconciliação e perdão.

Hoje em dia, nossas igrejas, escolas e paróquias precisam promover a misericórdia. Devemos tratar os outros como Cristo nos tratou.

IHU On-Line - Recentemente o jornalista John Allen Jr., da Revista National Catholic Report (18.07.2008), publicou uma fala de Papa Bento XVI de que o problema da pedofilia tem como uma de suas causas o propocionalismo na ética. Em que consiste a questão do proporcionalismo? É esta uma tendência vigente na moral atual?

James Keenan - Nos anos 70 e 80, o proporcionalismo se desenvolveu como reação à controvérsia a respeito do controle da natalidade. Ele foi um método de raciocínio moral de curta duração que primeiro negou que houvesse males intrínsecos (como o controle da natalidade) e depois nos conclamou a ponderar os valores e desvalores de modo a agir com respeito proporcional para promover o valor maior. Normalmente, os proporcionalistas falavam sobre a paternidade responsável, vendo a contracepção como um desvalor, mas a paternidade responsável como um valor, e sugeriram que, para criar uma família sadia e bem cuidada, o controle da natalidade poderia ser usado como último recurso.

Embora negassem o mal intrínseco, os proporcionalistas também falavam sobre ações que nunca deveriam ser feitas (eles queriam, por razões metafísicas, evitar o termo “mal intrínseco”). Especificamente, as ações que consideravam sempre erradas eram: tortura, estupro e o abuso de crianças. Então, sugerir que eles teriam permitido a pedofilia não é digno de crédito. Podem-se conferir os escritos de Richard McCormick,  que escreveu especificamente que o abuso de crianças era sempre errado.

Quanto ao assunto em si, os sacerdotes pedófilos atingiram um pico antes dos anos 70. Isto é, a maioria dos casos no meu país onde ocorreu a prática de pedofilia envolvia sacerdotes formados de 1940 a 1970. Não havia proporcionalismo naquela época. Eles estudaram os manuais de moral.

Se eu penso que a pedofilia surgiu por causa do material usado nos cursos de teologia moral? Não, mas acho efetivamente que precisamos saber por que algumas dioceses tiveram incidências tão altas de pedofilia. O que aconteceu nesses seminários entre os anos 40 e 60 que fez com que esses homens pensassem que podiam abusar de crianças? Parece que não sabemos.

A propósito, existem bem poucos moralistas atualmente que sejam proporcionalistas.

IHU On-Line - Como o senhor vê a moral católica a respeito da prevenção da AIDS? Em que esta problemática desafia a moral católica a avançar em suas posições?

James Keenan - Desde 1987, os teólogos morais católicos têm escrito sobre o uso de preservativos e o programa de troca de agulhas como sendo compatíveis com os ensinamentos da Igreja sobre controle da natalidade e uso de drogas. Qualquer pessoa pode ver isso na coletânea que editei: Catholic Ethicists on HIV/AIDS Prevention [Eticistas católicos e prevenção da AIDS, São Paulo: Edições Loyola, 2006], com a assistência de Lisa Sowle Cahill,  Jon Fuller  e Kevin Kelly  (Continuum, 2000).

Ali temos argumentos cuidadosos e respeitosos de muitos moralistas diferentes que permitiriam que os bispos percebessem que apoiar uma estratégia abrangente de prevenção do HIV que destaque a abstinência e a fidelidade matrimonial também pode incluir o uso do preservativo em contextos apropriados.

IHU On-Line - Nesta mesma perspectiva, o que o senhor pensa da posição da moral católica sobre o tema da homossexualidade?

James Keenan - A “questão da homossexualidade” faz parte de uma questão maior. Nós precisamos de uma ética sexual abrangente que dê atenção à castidade, mas também a outras virtudes, como a justiça, fidelidade, prudência e cuidado de si. Precisamos de uma ética sexual mais realista e responsável. Ao longo do caminho, precisamos compreender melhor não só a homossexualidade, mas também outros importantes temas afins, como o sentido de gênero, a importância da justiça de gênero e o sentido da sexualidade.

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