Edição 280 | 03 Novembro 2008

Lutero e a valorização do ser humano

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Graziela Wolfart

O pastor Darci Drehmer fala sobre o desafi o de traduzir as obras do teólogo alemão

"A Reforma desencadeada por Lutero representou um divisor de águas e movimentou o mundo religioso, cultural, político e econômico da Europa.” A opinião é do pastor Darci Drehmer, editor da Comissão Interluterana de Literatura - CIL, que é responsável pela coleção “Martinho Lutero - Obras selecionadas”, o maior projeto de tradução e edição dos escritos de Lutero já realizado em português. Na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line, Darci Drehmer explica que, sob o aspecto religioso, Lutero esclareceu o que significa a verdadeira espiritualidade. “Não é aquela que se vive enclausurada nos conventos, mas é a que se pratica dia-a-dia.” No entanto, esclarece, “se, por um lado, Lutero acentua a horizontalidade da piedade, por outro, ele não esquece o lado vertical, de que é preciso esfolar os joelhos, rezando. Defende que a piedade tem duas dimensões – ora et labora, ora como se tudo dependesse de Deus e trabalha como se tudo dependesse de você”. E, sobre o trabalho de tradução dos escritos do teólogo alemão, Drehmer confessa que “obras antigas nem sempre são fáceis de serem versadas para a nossa realidade. O mundo cultural de Lutero era totalmente diferente do nosso”.

O pastor Darci Drehmer é graduado em Teologia, pela Escola Superior de Teologia (EST), de São Leopoldo. Foi pastor em Santa Maria, município do Rio Grande do Sul, atuou na EST como orientador de estudos e foi capelão do Exército no quartel general de Porto Alegre, onde se aposentou como coronel. Desde então, é editor da CIL.

IHU On-Line - Qual a maior riqueza das obras de Lutero, que justificam o esforço da tradução de tantos volumes pela Comissão Interluterana de Literatura?

Darci Drehmer - A Reforma desencadeada por Lutero representou um divisor de águas e movimentou o mundo religioso, cultural, político e econômico da Europa. Lutero rebelou-se, em primeiro lugar, contra abusos que viu dentro da própria Igreja. Mas não ficou nisso. Em suas obras, como conseqüência de sua descoberta teológica, de que a pessoa é justificada pela fé e não por obras, pôs às claras uma série de distorções, denunciou-as e as divulgou para que o povo tomasse conhecimento delas. Manifestou-se, por exemplo, contra o analfabetismo, propondo que todas as crianças tivessem acesso ao ensino. Dirigiu-se às autoridades para que instituíssem e mantivessem escolas. Escreveu aos pais para que mandassem seus filhos à escola. Todas as pessoas deveriam ter condições para ler a Bíblia. Uma das suas primeiras medidas foi traduzir a Sagrada Escritura para a língua alemã, a fim de que todos pudessem lê-la e entendê-la. No campo da economia, manifestou-se violentamente contra a usura, isto é, contra a cobrança abusiva de juros. Especificamente, sob o aspecto religioso, esclareceu o que significa a verdadeira espiritualidade. Não é aquela que se vive enclausurada nos conventos, mas é a que se pratica dia-a-dia. Exemplifica: piedosa é a empregada que tira leite das vacas, é a mãe que cuida dos filhos e se dedica às panelas na cozinha; piedoso é o príncipe que governa com justiça, é o soldado que luta para defender a Pátria... Se, por um lado, Lutero acentua a horizontalidade da piedade, por outro, ele não esquece o lado vertical, de que é preciso esfolar os joelhos, rezando. Defende que a piedade tem duas dimensões – ora et labora, ora como se tudo dependesse de Deus e trabalha como se tudo dependesse de você!

IHU On-Line - Qual a especificidade e os maiores desafios que o senhor gostaria de destacar em relação ao trabalho de tradução das obras de Lutero?

Darci Drehmer - Obras antigas nem sempre são fáceis de serem versadas para a nossa realidade. O mundo cultural de Lutero era totalmente diferente do nosso. Ele próprio fala dessa dificuldade. Para compreendê-lo, nada melhor do que perceber sua própria manifestação. Interpretando Lucas 1.28 – “salve Maria, cheia de graça” – pondera: “... assim se traduziu até agora... Isso é bom alemão?... Qual é o patrício que vai entender o que significa “cheia de graça”? Ele vai pensar num barril cheio de cerveja ou num saco cheio de dinheiro; por isso eu traduzi: ‘graciosa’ [holdselige] (Obras selecionadas vol. 8, p. 212). Mais adiante, na mesma obra, propõe que, muitas vezes, “tenho que abrir mão das letras e pesquisar como é que o alemão diz aquilo...”. A linguagem de Lutero é muito plástica, falava e escrevia com os pés no chão. Como admirador de Cícero,  era um excelente orador, comunicava-se muito bem. Para ilustrá-lo, mais um exemplo. No Catecismo maior,  ele explica o oitavo mandamento – “Não dirás falso testemunho contra o teu próximo”. Neste contexto, ele usa uma expressão, em alemão da época Reuchst Du den Braten, numa tradução não muito feliz... “estás percebendo a coisa?”. Que tal se fosse assim: “Estás sentindo o cheiro do churrasco”. Quanta plasticidade, principalmente, para o povo gaúcho, dado ao churrasco de todos os domingos! Trazer essa linguagem plástica de Lutero até os ouvidos dos leitores e dos ouvintes é o nosso maior desafio. Para consegui-lo, é preciso abrir mão, muitas vezes, do sentido literal. Entendo que nenhum tradutor e nenhum orador deveria deixar de ler textos de Lutero para deixar inspirar-se por eles.

IHU On-Line - Como tem sido o retorno dos leitores em relação aos volumes traduzidos e publicados a cada dois anos? O senhor sente que o pensamento de Lutero ainda é atual?

Darci Drehmer - A atualidade das obras de Lutero é inquestionável. Se lembrarmos que o analfabetismo ainda é uma realidade no nosso país e compararmos com que insistência Lutero combatia esta praga, pode-se entender a atualidade do seu pensamento. Outros exemplos de atualidade do pensamento de Lutero podem ser mencionados. Há muito, os brasileiros se queixam da cobrança abusiva de juros e impostos. Também quanto a isso, o reformador se manifestou na época. Seu pensamento vale para hoje. O aspecto mais importante, todavia, parece-me o da valorização do ser humano. Em que consiste o valor da pessoa humana hoje? Somos valorizados pelo que temos e conquistamos. Isso leva a um consumismo desenfreado. Vale mais quem consegue comprar o último modelo de carro lançado no mercado. Neste mundo consumista contrasta a idéia central da Reforma: a pessoa é justificada pela fé e não pelas obras, pelas suas conquistas pessoais. Ela vale pelo valor que lhe é atribuído por Deus. Quando se pergunta por qualidade de vida, Lutero responde que o ser humano tem seu valor intrínseco e não depende de elementos externos, do seu consumo e de suas conquistas. Essa é a atualidade de Lutero. Quanto ao retorno dos leitores, percebe-se que as obras de Lutero despertam cada vez mais o interesse de acadêmicos e graduados de diversas áreas do conhecimento humano fora do meio teológico, na política, na economia, na cultura. Em alguns segmentos da sociedade, Lutero continua um ilustre desconhecido ou, no máximo, é considerado um monge rebelde que protestou contra a Igreja e que abandonou o convento porque queria casar. Aos poucos, ele deixa ser um ilustre desconhecido para ocupar o espaço que vem ocupando há quase cinco séculos em muitos países do mundo, principalmente na Europa.

IHU On-Line - Como o senhor faz para ser fiel à mensagem de Lutero nos momentos em que precisa adaptar sua obra na hora da tradução? Há dificuldades nesse sentido?

Darci Drehmer - Respondo com uma queixa do próprio Lutero. No seu ensaio “Da tradução e da intercessão dos santos”, ele se refere à dificuldade que ele próprio encontrou para traduzir. Escreve: “Muitas vezes nos sucedeu ficarmos quatorze dias, três, quatro semanas buscando e perguntando por uma única palavra e, mesmo assim, algumas vezes não a encontramos. Em nosso trabalho em Jó, o M[estre] Filipe, Aurogalo e eu, em quatro dias, às vezes, não conseguimos concluir três linhas. Meu caro, agora que está traduzido e pronto, qualquer um consegue lê-lo e entendê-lo, percorre três ou quatro folhas com os olhos e nem tropeça, mas não se dá conta das pedras e toras que havia ali, onde ele, agora, passa como sobre uma tábua aplainada...” (Obras selecionadas, volume 8, p. 210s.). Por que levavam tanto tempo para traduzir poucas páginas? Porque a língua alemã não estava definida. Havia, isso sim, muitos dialetos. Era preciso procurar a palavra certa para que todos os segmentos da sociedade, do mais letrado ao semi-alfabetizado – Lutero não admitia analfabetos!-, entendessem a mensagem. Saía, então, à procura, para saber como o povo falava. Olhava para a boca do povo, como ele mesmo dizia. Ouvia como se falava no mercado, nas ruas; como a mãe se comunicava com os filhos... Para trazer a linguagem de Lutero para os nossos dias e para o nosso chão, as dificuldades não diminuíram. Como na época da Reforma foi preciso auscultar, hoje é preciso, em primeiro lugar, deslocar-se para o séc. XVI, perceber a mensagem, entender o spiritus legis – para usar uma expressão do Direito – e trazer este espírito para o século XXI e, se for o caso, esquecer a letra, isto é, o sentido literal. Importante é que o povo entenda.

IHU On-Line - Qual a importância de Lutero para a língua alemã no que diz respeito ao trabalho dele em traduzir a Bíblia?

Darci Drehmer - A preocupação de Lutero em pôr textos bíblicos à altura da boca e dos ouvidos do povo desencadeou um processo de codificação da língua alemã. Lutero entrou para a história não apenas como reformador da Igreja (e não como defendem alguns, erroneamente, como fundador da Igreja luterana), que redimensionou a espiritualidade, influenciou a política, a cultura, a economia, mas também como codificador ou, como propõem algumas enciclopédias, como criador da língua alemã. O idioma oficial da Alemanha de hoje deve-se, em parte, ao reformador. Digo, em parte, porque, como toda a língua, também a língua alemã é dinâmica e passou por modificações. Diz-se que Martinho Lutero foi o criador da língua e que o poeta Johann Wolfgang von Goethe  a modernizou. A língua que se fala hoje na Alemanha é a língua de Goethe que teve sua origem em Lutero.  
 
IHU On-Line - Em que medida esse trabalho de tradução da obra de Lutero tem ajudado a conhecer mais da pessoa, do líder, do pai e esposo Lutero, para além do teólogo e do pastor?

Darci Drehmer - Lutero tinha uma personalidade forte e era impulsivo. Em alguns dos seus escritos, ele se dirige aos seus adversários de forma muito ríspida. Não mede palavras, até mesmo de baixo calão, para dizer-lhes “a verdade”. Mas, por outro lado, também sabia ser carinhoso, especialmente quando se dirigia a pessoas que estavam passando por algum sofrimento. Para confirmá-lo, basta ler suas cartas consolatórias, nas quais consola pessoas doentes ou seus familiares, ou pessoas enlutadas que haviam perdido entes queridos. Como marido e pai, foi muito meigo. Quando se dirige, por exemplo, aos filhos parece não haver pessoa mais carinhosa que ele. Um exemplo disso é uma carta que ele escreve ao seu filho Joãozinho, em 1530, quando lhe expõe as maravilhas do paraíso. Por sua esposa, tinha uma admiração e um carinho muito especiais. Chamava-a, carinhosamente de “Käte” – seu nome era Catarina –, de “minha amada do coração”. Embora vivesse numa sociedade machista e patriarcal, sabia valorizar o seu trabalho. Devido às constantes ausências, cabia à “Käte” administrar a casa. Nesse contexto, dirigia-se a ela nos seguintes termos: “Minha querida dona de casa” -  “À minha amada Käte, doutora Lutero etc., senhora no novo mercado de porcos... Querida jovem Käte, graciosa mulher de Zülsdorff (e como V.[ossa] G.[raça] mais possa chamar-se)!”. Lutero adquirira uma propriedade próxima à Wittenberg, em Zülsdorff, onde se cultivavam árvores frutíferas, criavam-se peixes e porcos, daí a referência ao mercado de porcos e à mulher de Zülsdorff). Outro aspecto importante da sua personalidade era a solidariedade. Sua casa estava sempre cheia de hóspedes. Hospedava pessoas necessitadas, principalmente estudantes carentes. Por ocasião de uma epidemia de peste em Wittenberg, por exemplo, recebeu famílias inteiras para alojá-las. Como pessoa solidária e sensível, também recebia, ingenuamente, hóspedes caloteiros. Numa de suas cartas, ele alerta um amigo a respeito de uma “senhora” chamada Rosina von Truchses. Esta apresentara-se como órfã de pai, decapitado por ocasião da revolta dos camponeses. O bom, ingênuo e hospitaleiro Lutero recebeu-a de braços abertos. Finalmente, quando interrogada, Rosina confessou que sua história era forjada e mostrou sua verdadeira face: tratava-se de uma prostituta, caloteira, que seduzira, até mesmo, hóspedes na casa do reformador.

IHU On-Line - Em que sentido a teologia de Lutero pode ser inspiradora para a missão da Igreja Cristã no século XXI?  

Darci Drehmer – Lutero é muito atual. Não há nenhum segmento da sociedade e do mundo sobre o qual não tenha se pronunciado. Tomou posição sobre a família – casamento, educação de filhos, sexualidade. Sobre economia, pronunciou-se a respeito de juros abusivos, sobre agiotagem. Sobre o governo, pleiteava que era o pai da Pátria. Por isso, devia governá-la com justiça e servir os seus filhos e não se deixar servir por eles e explorá-los. Pronunciou-se sobre o lugar e o papel das Forças Armadas e dos soldados. É admirável como suas idéias são atuais. Foi realmente um homem de visão. Não é para menos que isso lhe valeu o terceiro lugar, depois de Cristóvão Colombo  e Gutenberg,  na classificação de personagens do milênio. A nova espiritualidade, com os olhos voltados para o céu, joelhos ralados e os braços estendidos para o próximo é a especialidade da teologia de Lutero. Por sua abrangência e por contemplar a pessoa na sua totalidade, como ser espiritual, biológico e social, a sua teologia pode ser inspiradora da missão da Igreja cristã no século XXI. Além da sua teologia, também a sua capacidade de comunicação, sua linguagem plástica, à altura dos ouvidos e, acima de tudo, do coração do povo, pode inspirar e servir de modelo para o discurso das igrejas históricas.

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