Edição 277 | 14 Outubro 2008

Uma filosofia da alteridade radical

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Márcia Junges e Greyce Vargas

Obra levinasiana não é filosofi a moral, ou filosofi a edificante, mas tentativa de pensar a alteridade de forma radical, analisa a filósofa argentina Mônica Cragnolini

Na opinião da filósofa argentina Mônica Cragnolini, “a importância concedida ao ético sobre o ontológico não significa que se possa dizer que o pensamento levinasiano é uma ‘filosofia moral’ ou uma filosofia edificante. Deveríamos dizer, pelo contrário, que é uma intenção de pensar a questão da alteridade de uma maneira mais radical”. E continua: “Creio que, apesar das distâncias, Nietzsche e Lévinas podem aproximar-se em sua crítica radical ao modo de conceber ao homem nos humanismos ou nas filosofias do Mesmo”. A íntegra da entrevista exclusiva que concedeu à IHU On-Line por e-mail pode ser conferida a seguir.

Cragnolini é doutora em Filosofia e, desde 1983, professora adjunta da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires. De suas obras, citamos Razón imaginativa, identidad y ética en la obra de Paul Ricoeur (Buenos Aires: Editorial Almagesto, 1993), Nietzsche: camino y demora (Buenos Aires: Editorial Biblos, 2003) e Moradas nietzscheanas (Editorial La Cebra: Buenos Aires, 2007). É diretora da revista Instantes y azares. Escrituras nietzscheanas, bem como sócia-fundadora da Sociedade Iberoamericana Nietzsche. Lecionou como professora convidada em dezenas de universidades pelo mundo. A entrevista a seguir foi concedida por e-mail.

Confira.

IHU On-Line – Qual é a atualidade do pensamento de Emmanuel Lévinas?

Monica Cragnolini – Lévinas é um ator muito presente em diversos debates contemporâneos, como aqueles que dizem respeito a toda a problemática da alteridade nas figuras do estrangeiro, no refugiado, no diferente. Sua presença é inevitável também no debate em torno da comunidade. A crítica que ele realizou sobre o pensamento heideggeriano é fundamental para entender as premissas deste debate a partir de autores como Blanchot,  Nancy, Derrida , Esposito  e outros. No sentido de que o pensamento de Heidegger tentou, com a noção da existência humana como Dasein, ir mais além da “metafísica da subjetividade”, na medida em que o Dasein é basicamente abertura e projeto, não posso diminuí-lo, no entanto, a um tipo de violência do ser e de si mesmo frente ao outro. Ante a importância concedida à “própria morte” no pensamento de Heidegger e de Lévinas, parte a pergunta da morte do outro, aquele que morre ao meu lado. Neste sentido, a importância concedida ao ético sobre o ontológico não significa que se possa dizer que o pensamento levinasiano é uma “filosofia moral” ou uma filosofia edificante. Deveríamos dizer, pelo contrário, que é uma intenção de pensar a questão da alteridade de uma maneira mais radical. Neste sentido, o outro é o que chama, e cujo chamado deve responder “tens-me aqui”, antes de toda configuração de mim próprio.

Hospitalidade levinasiana

Como dizia, esta problemática tem sido retomada também pelo debate em torno da comunidade, e com isso me refiro àqueles autores que, mais além de uma concepção sociológica da comunidade, pensam a mesma como modo do “ser-com” (o Mit-sein heidegeriano). A comunidade, nesta linha de pensadores, não é a organização social do modo de “ser humano”, senão aquela que possibilita a dita organização. A noção de comunidade permite apresentar a pergunta pelo cum que somos, cum que não pode reduzir-se a um “comum” de pertencimento. Desde as idéias levinasianas acerca do outro privado de sua alteridade na obra de Heidegger (e nas filosofias do Mesmo), os autores participantes neste debate expõem o interrogante acerca de um Cum possível que não seja o resultado da necessidade de um sujeito ou de um individuo de completar-se, encontrar a outra parte de si, curar suas falhas etc. Para estes pensadores, a relação do homem deixa de ser a do “o Mesmo com o Mesmo”, interrompendo o outro como irredutível, incalculável, imprevisível. É por isso que outra temática levinasiana, a da hospitalidade, é um conceito constantemente aludido no seio do debate, por exemplo, nas obras de Derrida e de Massimo Cacciari.

Estes autores não pensam a comunidade nem como propriedade nem como atributo, porque a existência humana não é pensada como “sujeito” que entra na “relação” com outros sujeitos. Nietzsche  havia se perguntado acerca da “comunidade” dos além-do-homem. Esta temática é retomada por Georges Bataille  na noção de “a comunidade dos que não têm comunidade”, expressão cara a Blanchot, Nancy e Derrida, como modo de pensar o “ser-com”, dando lugar às noções de “comunidade não atuante”, “comunidade afrontada” (Nancy), “comunidade inconfessável” (Blanchot), “comunidade anacorética dos que amam afastar-se” (Derrida). No âmbito italiano, Agamben  e Esposito apresentam a noção da comunidade a partir do “não-comum” (ausência de signos de pertencimento ou propriedade), e Cacciari o faz a partir da idéia de “arquipélago”, que indica que o único comum é o que “separa” ou diferencia. Estes modos de pensar a comunidade supõem uma forte crítica aos modelos que consideram a mesma em termos de projetos fusionais ou operativos, neles que os “sujeitos” (livres, racionais e autônomos) entram em “relação” com outros sujeitos e geram “o comum”. Para estes autores não “formamos”, mas “somos comunidade”, e neste sentido, a explicação levinasiana crítica do modelo heideggeriano do ser-com é fundamental.

IHU On-Line – Como você faz a aproximação de Nietzsche e Lévinas, tomando em consideração que você questiona sobre a possibilidade de aproveitar o pensamento nietzschiano para pensar a “alteridade” sob uma radical diferença?

Monica Cragnolini – Creio que, apesar das distâncias, Nietzsche e Lévinas podem aproximar-se em sua crítica radical ao modo de conceber ao homem nos humanismos ou nas filosofias do Mesmo. Para esta aproximação, é preciso desfazer-se da imagem nietzscheana da interpretação do final do século XIX ou começo do XX, que considerou Nietzsche como um pensador individualista. Nietzsche criticou a subjetividade moderna e os modos socioeconômicos do desenvolvimento do mesmo no mundo capitalista, e o que fez na figura do “último homem” que aparece em Assim falou Zaratustra, figura do homem do mercado, proprietário, que exige “tudo para mim”. Como tal, esta é uma figura da mesmicidade auto-satisfeita do homem moderno. Frente a essa figura, o além-do-homem (Übermensch) é a figura da doação de si que não pode ser pensada sem o outro. Neste sentido, eu tenho interpretado certas figuras da subjetividade na obra de Nietzsche em termos do “entre” (Zwischen), e assim, o caminhante (Wanderer), o além-do-homem (Übermensch), o filósofo-artista não podem ser pensados como entidades fechadas em si mesmas que “logo” entram na relação com o outro. São também modos de ser “entre”, atravessadas pela alteridade. A partir deste ponto de vista, para mim Nietzsche é um pensador da alteridade no nível do pensamento de Lévinas.

IHU On-Line – Como as idéias desses pensadores podem basear a construção da subjetividade e, ao mesmo tempo, da autonomia em nossos tempos?

Monica Cragnolini – Quando Lévinas se refere ao humanismo, se trata do humanismo “do outro homem”. Não acredito que seja possível aproximar a obra levinasiana a uma proposta humanista ou neo-humanista, que revaloriza a construção de uma subjetividade “autônoma”. Quando Lévinas expôs a assimetria do interpessoal, o conceito “pessoal” da identidade com dignidade, autonomia, se desconstrói. Também não se pode mostrar em Nietzsche a idéia de “construção de subjetividade em torno da autonomia”, já que a autonomia é uma das propriedades básicas do modo de conceber ao homem na filosofia moderna que Nietzsche critica neste aspecto.

Tanto Nietzsche como Lévinas são autores que não podem ser utilizados para pensar modos de ser do homem com “novas características”, como exigem uma desconstrução dos modos habituais de pensar o homem nos humanismos e nas filosofias do Mesmo, que esquecem ao outro. Frente à exigência da perseverança no “próprio” ser – autonomia incluída –, Lévinas resgata o chamado da Torá a prestar atenção “ao estrangeiro, à viúva e ao órfão”, quer dizer, ao outro homem (que é outro “modo de ser” radicalmente outro).

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