Edição 276 | 06 Outubro 2008

Perfil Popular - Vanessa Cristina da Silva

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Bruna Quadros

“Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima.” Este verso da música “Volta por cima”, da cantora brasileira Beth Carvalho, define bem a trajetória de Vanessa Cristina da Silva, 24 anos, atendente do restaurante e cafeteria Happy Station, na Unisinos. Além do trabalho, ela divide a rotina entre as duas filhas, Maria Luiza e Marina, as quais cria, praticamente, sozinha, e ainda estuda à noite. Durante a última semana, Vanessa reservou um tempinho para conversar com a revista IHU On-Line, no intervalo do trabalho. Ela conta que aprendeu muito com as dificuldades pelas quais já passou, mas não é de desanimar. Só quando o assunto é a política, que deixa de lado investimentos importantes como educação e saúde. Acompanhe, a seguir, os relatos de vida desta mulher e mãe que tem muita força para lutar pela vida:

Nascida no bairro Rio Branco, em São Leopoldo, onde mora até hoje, Vanessa aproveitou muito a infância, brincando de boneca, de se esconder e de pega-pega. Até os nove anos de idade, ela foi filha única. Hoje, tem dois irmãos: Carina, 10 anos, e o Lucas, de 14. Seu pai é metalúrgico, e a mãe, dona-de-casa. “Eles são a minha base, me ajudam em tudo o que preciso. Meus pais me ensinaram a ser honesta, não querer abusar da inocência dos outros, falar a verdade.” Estes valores Vanessa também ensina para as filhas, Maria Luiza, 4 anos, e Marina, 1 ano e nove meses.

"Engravidei pela primeira vez aos 19 anos. Não me arrependo de nada. Minhas filhas me dão força para continuar batalhando. Não imagino a minha vida sem elas.” Quando a Maria Luiza tinha um ano de vida, Vanessa começou a trabalhar. O primeiro emprego, no qual ela está até hoje, o restaurante e cafeteria Happy Station, na Unisinos, é uma grande escola. “Quando entrei no Happy, eu era praticamente uma criança. Aprendi a respeitar as pessoas.”

Vanessa conta que não gostava muito de estudar. Atualmente, ela está freqüentando aulas em um curso supletivo para concluir o 2º Grau, na sua opinião a chave para melhores oportunidades na vida. “Voltei a estudar por causa da necessidade. O mercado de trabalho já é escasso para quem tem estudos, imagina para quem não tem?” Apesar da rotina corrida -trabalho, casa, filhas e estudos -, Vanessa ainda arruma um tempinho para passear. “Tenho muitos amigos. Então, eu sempre tenho um lugar para visitar.”

Há nove meses, Vanessa se separou do pai das suas filhas. “Foi um período difícil, mas passou. Pego as coisas difíceis que acontecem comigo e tento transformar em coisas boas para, cada vez, fazer melhor.” Batalhadora, Vanessa afirma que corro muito atrás das coisas que quer, também em função das minhas filhas. “Sempre fui muito descansada, mas mudei da pior forma, passando trabalho para aprender. Sempre tem alguém pior do que a gente e, de repente, nem reclama. As pessoas têm que batalhar mais pelo que elas querem.”

O sonho de se realizar profissionalmente e arrumar um emprego que possa levar uma vida melhor também faz parte da vida de Vanessa. Quanto a isso, ela demonstra confiança: “Vai aparecer outra oportunidade, se Deus quiser.” Para Vanessa, geralmente, quando tem um negro bem formado, ele precisa trabalhar duas vezes mais para se sobressair. “Ele tem que mostrar que é o melhor para ser reconhecido. Os gaúchos mesmo não assumem que são negros, dizem morenos. É um preconceito escondido, mascarado.”

Vanessa é católica, batizou as filhas na Igreja, mas não é praticante assídua da religião. “Acredito em Deus, tenho muita fé, mas não sou uma pessoa religiosa. É bom ter em que acreditar, porque o lado espiritual tem que estar seguro, de alguma maneira.” Já em relação à política, Vanessa afirma estar desanimada. “Não tenho muita esperança. Todo mundo se corrompe.” Para ela, em São Leopoldo, onde mora, falta investimento em áreas como educação e saúde. “Sei que lazer é importante, mas eles fizeram um investimento alto no Carnaval. Enquanto isso, passei o maior trabalho para arrumar creche para a minha filha e não nem posto de saúde. Eles voltam os objetivos para coisas que não são tão necessárias.”

Aos 24 anos de idade, Vanessa ainda tem muita vida pela frente. No entanto, ela garante que já passou por duas grandes alegrias: “O nascimento das minhas filhas”. Apesar de ter passado por algumas dificuldades, ela destaca que ainda não viveu sua maior tristeza, além das perdas na família. “Espero que este momento demore bastante para chegar.” Ao olhar para trás, se tivesse que fazer algo diferente, Vanessa só teria dado mais valor aos estudos. “O resto faria igual.”

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