Edição 276 | 06 Outubro 2008

Invenção - Dennis Radünz

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André Dick

Editoria de Poesia

O poeta Dennis Radünz nasceu em Blumenau (SC), em 1971. É autor dos livros Exeus (2. ed. Florianópolis: Editora da UFSC/Ed. Letras Contemporâneas, 1998), Livro de Mercúrio (Joinville: Letradágua, 2001) e Extraviário (Joinville: Letradágua, 2006). Foi criador e editor de seis edições do jornal cultural Univerbo (Blumenau, 1992-1993) e articulista do Caderno Anexo, do jornal A Notícia (Joinville), com 150 textos publicados, de 1996 a 1999, entre artigos e matérias nas áreas de literatura, teatro e artes plásticas. Também foi colunista semanal do Caderno Variedades, do jornal Diário Catarinense (2004-2008). Atualmente, é diretor-editor da editora Nauemblu Ciência e Arte, Coordenador de Patrimônio da Fundação Cultural de Florianópolis Franklin Cascaes e editor-executivo da Fundação Franklin Cascaes Publicações.  

Radünz apresenta uma poesia caracterizada pela sonoridade e pela riqueza de imagens que remetem ao barroco. Há, no entanto, na profusão de aliterações em seus poemas, uma espécie de simetria que remete ao rigor verbal da poesia concreta e da poesia oriental, concentrado em formas rápidas, mas de muito impacto. Em certos momentos, como em sua estréia em Exeus, a sonoridade acaba levando à composição da imagem. Em “O coral dos co-réus”, por exemplo, há a visualização de um ambiente de praia: “ar, aragem de algas / esvai-se em corais / co-réus e colônias / [...] / como herança, ira / arraia no erro / hidra”. Em “As metades”, há um jogo de palavras: “mistério da matéria / a medula do minério / na miséria / / mistério da miséria / a medula do minério / na matéria”. Radünz também lida com a metalinguagem, como na segunda parte de “Metapoesia” (“o poema / incende / insula / / música / em miniatura”), ou em “Poem”, no qual se faz presente a integração entre a matéria poética e a natureza: “acudam-nos selo / endereço / casa / / casulo da metáfora / morre a larva”. No entanto, em sua poesia, a natureza sempre acaba se construindo pela linguagem simétrica, como nos versos de “Do ido”: “o rio na artéria sangria / [...] / ira a fluir se iria (se / de senha sonha-se a sina) / rio no vau se apraz ia / / água viva do vale, a via”.

Minério subjetivo

No segundo livro de Radünz, Livro de Mercúrio, essa sonorização de elementos selecionados nos versos recebe uma certa influência mais direta da observação do poema oriental, em poemas como “O jardim japonês”: “o girassol latente no chão de meteoritos / coágulos de chuvisco ou chuva escrita em carvão líquido / o breu e a ravina e a neblina de arenito”. Por sua vez, “Fases da noite” é um haicai: “relógio de sol / ao luar. a sombra pára / o despertar”. Ainda assim, a sonorização mostra um poeta que trabalha as imagens por meio da extensão do verso, a exemplo de “Sambaqui”: “nos sulcos lenhosos dos corpos, / as achas, em chamas de mortos // fetos, feito moluscos nas rochas, / ou tochas, na foz do crepúsculo: / / a dor da fagulha figura nos ossos, / os olhos, em conchas: albatrozes, / / botos, peixes-cofre / ou pássaros suspensos em cópulas”. Como já se entrevia nos poemas de Exeus, o poeta, aliás, seleciona o minério como um reflexo de sua subjetividade, em “Betume da Judéia”, em que fale de sua “origem mineral” no “refino fóssil de todos os dias”. Nesse caso, o minério se contrapõe aos líquidos (de todos os tipos) mencionados ao longo dos poemas de Radünz. Já em Extraviário, seu livro mais recente, Dennis muda um pouco sua poesia mais sintética, e, sem abandonar as imagens barrocas e a sonorização de alta qualidade, aumenta seus versos e poemas, recuperando novamente imagens de rios, nascentes, oceanos, pedras, fósseis, flores. Esse ideário talvez seja melhor representado em “Natureza por aproximação”: “isso não quer dizer paisagem / com anêmonas e contêineres imóveis. / / inocências. flores desligáveis / ou circuitos de possessão de imagem, / / não quer dizer as fases da fisionomia. / nem farfalhas. nem falências. / / isso não quer dizer sambaqui, / nem coração acelerado de estrofanto. / / isso não custa, nem desculpa. / sem plano sagital. sem zona eufótica. / / isso não quer dizer contêiner, / mas anêmonas interditas e movíveis, / / inservíveis sobre a paisagem”. Já em “Os mínimos e os nímios”, há uma contestação social: “como um líquido dos tóxicos, o tinto / como se um refém lhe seqüestrasse o íntimo, assim / como se a cura pelo crime fosse, então / e, ao fim, incendiasse a sala de detenção / / e o que restar é um estado civil / de invertebráveis: os traficantes / de organismos semi-vivos / o Ilegal, o Indefensável, o Ilícito”. Radünz enviou dois poemas inéditos à IHU On-Line, com muitas dessas características assinaladas e outras que tornam sua poesia tão interessante.

 

 

 

FASES DA FISIONOMIA

 

a aparição em claro-escuro
sopesa o outro sobre a pele
entre uns nichos de tecidos
e as suas células moventes 

(o que respira ainda é rosto 
sobre o remoto sobre-rosto
nas carnações do movediço
e os seus maciços sinuosos)

mas a figura o escasseia 
em levas de fisionomias
(pelame, voz, temperaturas,
cabeça posta sobre a febre)

e a dentição, sob o desenho,
devora adentro a identidade
caso o disfarce não falseie
o impossível da aparência 

todo mesmo é diferença
( idades da alteridade )  
todo retrato é insciência
feição da sobrenatureza

 


REPRODUÇÃO
POR DESLIZAMENTO

 Família das Briófitas


dorme o musgo sobre o nicho de jasmim
nos jejuns que o jardim flore nos úmidos
e é de ontem que hibernam, nos escuros,
miúdos musgos que extremam os confins
nos secretos dos insetos que os devassam
e os enleiam nos deslizes contra os lodos, 
quando roçam-se no cio do outro musgo
e se lançam em abismo de outros sumos,
onde o sexo não tem caule nem as folhas
desde o fundo do que é húmus e enzima:

       no limoso são os inéditos de pele   
que, dormindo, tocam nus de toda a relva 

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