Edição 276 | 06 Outubro 2008

“O dinheiro não se administra a si mesmo”. Lições da política econômica keynesiana

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Graziela Wolfart e Patricia Fachin

Se o Estado pode investir bilhões de dólares para salvar grandes instituições “que assumiram riscos insensatos, por que não pode intervir para salvar milhões de americanos do risco eminente de perder suas moradias pela execução de hipotecas?”, questiona o economista Luiz Antônio de Oliveira Lima

Ressuscitar os ensinamentos keynesianos é, neste momento, a melhor alternativa para tentar conter a avalanche que se estende sob a economia mundial. Segundo o professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) Luiz Antônio de Oliveira Lima, retomar o modelo econômico proposto por John Maynard Keynes, um dos mais influentes economistas do século XX, é uma “forma de se neutralizar o efeito da crise financeira sobre a economia real”. Segundo ele, Keynes já antecipou que “mercados financeiros não regulados seriam dominados por forças especulativas que poderiam, eventualmente, transformar a economia capitalista num verdadeiro cassino”. Para reverter esse quadro, embasado nas teorias do articulista do Financial Times, Martin Wolf, Lima sugere três procedimentos: “a queda e a estabilização dos preços inflacionados para valores sustentáveis; a desalavancagem do setor privado americano que é extremamente alta para os níveis atuais; e o reconhecimento dos prejuízos resultantes para o setor financeiro”.

Lima cursou Direito na Universidade de São Paulo (USP), mestrado em Economia, pela Michigan State University Máster of Arts in Economics, e doutorado em Ciências Econômicas, pela Universidade Estadual de Campinas, onde desenvolveu a tese O conceito de economia monetária – A visão de Keynes. Autor de Estudo sobre a economia do capitalismo – Uma visão keynesiana (São Paulo: Editora Bienal, 1991). O economista participou do projeto de pesquisa “Um modelo Estatístico de Simulação para a economia brasileira – uma visão pós-keynesiana”. Confira mais detalhes na entrevista a seguir, concedida por telefone à IHU On-Line.

IHU On-Line – Qual a contribuição de Keynes para o debate econômico atual, especialmente, sobre a crise financeira internacional? Pode-se aceitar que houve uma retomada do pensamento de Keynes?

Luiz Antônio de Oliveira Lima – Comentaristas das principais revistas e jornais econômicos têm procurado retomar a análise keynesiana da economia capitalista como a forma mais adequada de se entender a atual crise da economia americana. Pode-se dizer que há claramente uma retomada das sugestões da política econômica propostas por Keynes. Assim, verificamos que muitos economistas conservadores têm sugerido a utilização de uma série de instrumentos de natureza fiscal (redução da tributação, transferência de recursos para as famílias, elevação dos gastos públicos) como uma forma de se neutralizar o efeito da crise financeira sobre a economia real. 

Assim, para Martin Feldstein, atual presidente do National Bureau of Economic Research (NBER), ligado à Casa Branca, além de um corte de juros, serão necessários estímulos fiscais. Para Dominique Strauss-Kahn,  atual presidente do FMI, simples políticas monetárias serão insuficientes em uma situação em que bancos com grandes perdas de capital precisam consolidar seus balanços, reduzindo as possibilidades de financiamento para a produção. Daí a necessidade de instrumentos fiscais para se elevar a demanda agregada. O mesmo é sugerido por Lawrence Summers,  ex-reitor e atual professor da Universidade de Harvard. Desse modo, se interpretarmos Keynes como um simples fiscalista, não há dúvidas que em termos de utilização de instrumentos de políticas econômicas, há uma retomada de seu pensamento.

Entretanto, a contribuição keynesiana mais importante não foi a de mostrar a importância da política fiscal anticíclica, mas sim a de apontar que mercados financeiros não regulados seriam dominados por forças especulativas que poderiam, eventualmente, transformar a economia capitalista em um verdadeiro cassino. Se considerarmos as transformações no sistema financeiro americano nas últimas três décadas, veremos que o “problema de Keynes” tornou-se cada vez mais virulento conforme a desregulamentação avançou, trazendo com ela uma série de inovações financeiras. Isso aconteceu a partir do fim dos anos 1970, com a introdução de novos depósitos e novas aplicações sensíveis a taxa de juros, que permitiram manter a rentabilidade de instituições de poupança e empréstimos, que, por sua vez, perderam aplicações em função do aumento da rentabilidade de aplicações em títulos públicos. Tais instituições encontravam-se em estado quase falimentar. Essas alterações introduziram novos desafios especulativos na economia ao permitir o surgimento de títulos mobiliários apoiados no financiamento hipotecário, bem como o aparecimento de hipotecas ajustáveis sem a necessidade de reserva para seus emissores, uma vez que os depósitos continuavam garantidos pelo governo federal.

Ora, se considerarmos esse aspecto da obra de Keynes, isto é, a tendência para a crise numa economia na qual se permite o surgimento contínuo desses ativos, não houve uma retomada do pensamento de Keynes, pois ele nunca deixou de existir através da obra de seus discípulos John Kenneth Galbraith,  Hyman Minsky, Charles Kindleberger  e Paul Davidson. 

IHU On-Line – Em que sentido a visão de Keynes no capitalismo como uma economia fundamentalmente monetária e não simplesmente monetizada foi importante para a compreensão das crises capitalistas?

Luiz Antônio de Oliveira Lima – Para explicar os fundamentos de sua visão econômica, Keynes elaborou o que chamou de uma teoria monetária da produção. Para ele, o capitalismo é por excelência uma economia monetária e não uma simples economia monetizada, na qual a moeda é um simples meio de troca; como supõe toda a teoria neoclássica. Daí a preocupação de Keynes com a existência de uma demanda efetiva, isto é, de uma procura monetária pelo total da produção, capaz de fazer retornar aos capitalistas uma quantia de dinheiro em condições de cobrir seus custos e fornecer-lhes o lucro desejado. Daí também a discordância de Keynes com a teoria econômica convencional que, ao eliminar a partir de seus pressupostos a função do dinheiro enquanto reserva de valor, eliminava a possibilidade de se entender as crises capitalistas e de se sugerir medidas adequadas para superá-las. O problema da formação da demanda efetiva está presente como peça fundamental na concepção de uma economia monetária.

Ora, a decisão do empresário de investir, isto é, de despender os recursos correspondentes ao custo do capital empregado, envolve uma grande dose de incertezas, pois o caráter dessa decisão é o de produzir resultados em uma data futura que, em geral, é distante no tempo. Ora, Keynes chama a atenção para o fato de que o cálculo das receitas futuras está sujeito a um grande grau de incertezas, as quais não podem ser eliminadas pela aplicação de métodos estatísticos de previsão, ou seja, não há um cálculo de risco para o que vai acontecer no futuro.

Assim, em condição de grande incerteza, o cálculo da rentabilidade econômica fica muito difícil, de tal forma que os empresários e os principais agentes financeiros podem se recusar a fazer novos investimentos ou empréstimos como está acontecendo nos EUA, preferindo manter seus recursos monetários sob forma líquida, como reserva de valor. Esta possibilidade permite que se desviem recursos do ciclo produtivo ao preferir a liquidez, levando com isso a uma redução da demanda monetária pela produção e, em conseqüência, a crise econômica. Este fato, a preferência pela liquidez, pode ser uma hipótese adequada para explicar por que, apesar de a economia americana estar abalada, a sua moeda não está. A aplicação financeira ainda mais segura é a compra de títulos públicos nos EUA, apesar de sua baixa rentabilidade. Isso explica por que pode haver uma grande demanda de dólares mantendo ou elevando seu valor. Na hora do pânico, isto serve como refúgio, porque ninguém sabe ao certo o que vai acontecer com a economia americana e global.

IHU On-Line – Qual a contribuição de Keynes para o debate macroeconômico atual, especialmente em relação as expectativas de uma grande recessão ou depressão?

Luiz Antônio de Oliveira Lima – Seria difícil dizer de maneira precisa o que Keynes estaria pensando sobre a crise atual, com exceção do fato de que mercados financeiros não regulados têm a tendência natural de se encaminharem para uma especulação intensa. De outro lado, pode-se utilizar o pensamento de seus discípulos que procuraram estender sua teoria para entender as condições de um sistema financeiro altamente complexo, tal como o fez Hyman Minsky. Assim, em artigo publicado recentemente, o excelente articulista do Financial Times Martin Wolf  observou que, caso se queira saber o que deu errado, pode se recorrer “à obra- prima de Minsky”. Segundo Minsky, um longo período de crescimento rápido, baixa inflação, baixas taxas de juros e estabilidade macroeconômica geraram complacência e aumentaram a disposição de se assumir riscos. A estabilidade leva a instabilidade. A securitização inovadora, o financiamento fora dos balanços se constituíram em uma grande parte da história. A fé indevida em mercados não regulamentados se revelou uma armadilha.

IHU On-Line – Pode-se dizer que o pior já passou? Quais as condições para que isso aconteça e que lições se podem tirar dela?

Luiz Antônio de Oliveira Lima – Martin Wolff apresenta três procedimentos para que haja uma reversão da crise: a queda e a estabilização dos preços inflacionados para valores sustentáveis; a desalavancagem do setor privado americano que é extremamente alta para os níveis atuais, cerca de 30 unidades de capital de terceiro para uma unidade de capital próprio; e o reconhecimento dos prejuízos resultantes para o setor financeiro. Atingidos tais resultados, permanecem os problemas de se evitar o colapso da demanda monetária do setor privado.

Sem dúvida, algum ensinamento deve recorrer desse processo, e, pelo menos por algum tempo, as lições de Keynes serão levadas a sério. Porém, infelizmente, como aconteceu depois da depressão dos anos 1930, se as coisas voltarem ao normal, não faltarão economistas que voltem a pregar as delícias dos mercados livres não regulamentados. Porém, uma constatação merece ser feita: os fatos atuais podem provocar movimentos sociais capazes de cobrar uma maior ação do Estado na economia; se o Estado pode gastar, intervir gastando bilhões de dólares para salvar grandes corporações que assumiram riscos insensatos, por que não pode intervir para salvar milhões de americanos do risco eminente de perder suas moradias pela execução de hipotecas? Se o governo pode intervir em tempos de crise financeira, ficará cada vez mais difícil alegar a impossibilidade de intervir em benefício de mais saúde, educação e igualdade para os grupos sociais mais pobres. Porém, nada acontecerá sem uma pressão pública muito forte sobre os políticos, ou seja, sem a volta das pessoas às ruas e ao tipo de ação direta que levou ao New Deal  americano dos anos 1930. De um modo mais geral, sempre devemos ter em mente o ditado de Keynes: “O dinheiro não se administra a si mesmo e muito menos o crédito é capaz de fazê-lo.”

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição