Edição 276 | 06 Outubro 2008

“Será difícil que o padrão que prevaleceu até hoje possa sobreviver”

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Graziela Wolfart

Na opinião do economista Luiz Gonzaga Belluzzo, a experiência da desregulamentação e da liberalização fi nanceira mostrou que os mercados deixados a sua própria lógica de funcionamento podem levar a desfechos como esses que estamos observando

A saída para a crise financeira internacional não será encontrada num passe de mágica, segundo a análise do professor Luiz Gonzaga Belluzzo. Em entrevista concedida por telefone à IHU On-Line, Belluzzo afirma: “Eu imagino que o ambiente mental e ideológico que hoje prevalece será um obstáculo a uma mudança mais profunda. Não há nenhuma evidência de que as reformas necessárias serão implementadas facilmente”. Para ele, a história do capitalismo mostra que o livre mercado é uma utopia. E acrescenta: “Não há mesmo alternativa quando uma crise financeira sistêmica se desenvolve. Se não se decidir pela intervenção decisiva dos mercados, a crise pode avançar a um ponto que destrói completamente a capacidade de decisão dos indivíduos. A menos que a intervenção seja de tal ordem potente e abrangente, como, por exemplo, a estatização do sistema bancário”.

Luiz Gonzaga Belluzzo é graduado em Direito, pela Universidade de São Paulo (USP), mestre em Economia Industrial, pelo Instituto Latino-Americano de Planificação-Cepal, e doutor em Economia, pela Universidade de Campinas (Unicamp). Atualmente, é professor do Instituto de Economia da Unicamp e editor da revista Carta Capital.

IHU On-Line - O senhor acredita que a crise financeira internacional pode provocar mudanças no capitalismo?

Luiz Gonzaga Belluzzo – Esse é um exercício de adivinhação, mas certamente será difícil que o padrão que prevaleceu até hoje possa sobreviver, particularmente em relação à regulamentação dos mercados financeiros. A experiência da desregulamentação e da liberalização financeira mostrou que os mercados deixados à sua própria lógica de funcionamento podem levar a desfechos como esses que estamos observando, e a processos cumulativos de deflação de ativos com efeitos muito negativos sobre a economia real. É muito provável que haja um debate intenso nos próximos meses a respeito da re-regulamentação. No entanto, é muito difícil saber qual será o desfecho, porque, de uma certa forma, ainda há um predomínio do pensamento conservador. Basta ver o que justificou a não aprovação imediata do chamado pacote de estabilização. Há muita resistência ideológica a uma mudança mais profunda. Mas isso será decidido no debate político. Eu imagino que o ambiente mental e ideológico que hoje prevalece será um obstáculo a uma mudança mais profunda. Não há nenhuma evidência de que as reformas necessárias serão implementadas facilmente.     

IHU On-Line – Então, na sua opinião, o livre mercado não funciona?

Luiz Gonzaga Belluzzo – A história do capitalismo mostra que isso é uma utopia, como chamou Karl Polanyi “a utopia do mercado auto-regulado”, e isso se aplica mais especificamente aos mercados de crédito e que têm uma tendência intrínseca a produzir instabilidade. Recentemente, essas avaliações feitas por economistas como Keynes, Marx, Schumpeter,  ou Minsky, foram superadas por um bloco de teorias insustentáveis e formuladas ideologicamente a respeito da auto-regulação dos mercados. A teoria dos mercados eficientes, por exemplo, defende a idéia de que, diante das informações disponíveis, o mercado produz sempre o melhor resultado com ajustamentos não traumáticos. Isso é uma falsificação a respeito do objeto que estão tratando. No entanto, está muito entranhado no ideário popular. Essa decisão de negação inicial do congresso americano não foi acidental. Foi resultado de uma forte convicção popular transmitida, inclusive, pela mídia. A imprensa teve um trabalho esplendoroso, nesse período, de convencer as pessoas de que existe uma oposição entre o livre mercado e o Estado, que teremos mais livre mercado se tivermos menos Estado. Isso é uma tolice. Tenho lido que a decisão inicial do congresso americano foi a rebelião da política contra a economia, o que é um equívoco. Foi, na verdade, a repetição da vitória do economicismo sobre a política, porque o economicismo tomou conta do congresso americano. 

IHU On-Line - Como o senhor vê a não aceitação inicial do pacote proposto por Bush? Além da queda das bolsas, que outras conseqüências podemos esperar para a economia internacional?

Luiz Gonzaga Belluzzo – A queda e a subida das bolsas só refletem um pouco o grau de perplexidade que tomou conta dos mercados. A bolsa só é o sintoma do que está ocorrendo. O mais grave que está acontecendo é a contração do crédito global, o credit crunch global. Isso configura uma crise de crédito que está começando a se espalhar pelo mundo inteiro, atingindo mesmo países com sistemas bancários mais sólidos, como é o caso do Brasil.

IHU On-Line - Como o Brasil está sendo e ainda será atingido por essa crise econômica, principalmente do ponto de vista do emprego e da renda?

Luiz Gonzaga Belluzzo – Se a crise de crédito se agravar, o Brasil tem instrumentos para enfrentá-la e precisa ter muita capacidade de decisão para se livrar do paradigma anterior. O Brasil vinha vindo de uma etapa de rápido crescimento da economia, estava crescendo a 6%, o crédito se expandindo, o investimento estava acelerando. Agora, a tendência do setor privado é reduzir o crédito. E isso vai afetar, sem dúvida, o desempenho da economia. Mas o Brasil não está envolvido diretamente nessa crise financeira. Não foram praticadas aqui essas imprudências. Então, o país pode reverter essa crise se tomar medidas de política econômica adequadas, como, por exemplo, socorrer os exportadores, ampliando a oferta de crédito em dólares para eles, e permitir às pequenas e médias empresas que continuem rolando as suas dívidas ou financiando seu capital de giro e seu investimento. O Brasil tem condições de fazer isso. Vamos ver como as autoridades irão reagir.

IHU On-Line - Como o senhor acha que o Brasil deve conduzir a economia, nesse momento de crise global? O que faria parte de um ajustamento à situação, considerando a desaceleração no crescimento?

Luiz Gonzaga Belluzzo – Já há sinais de que o crescimento está desacelerando. E ele vai desacelerar mesmo, o que tem várias implicações, como a expectativa dos empresários a respeito dos investimentos e implicações para a situação fiscal. Mas, ao mesmo tempo, isso oferece uma oportunidade para o Brasil adotar uma política cíclica de defesa contra a crise. Não será possível reproduzir a situação anterior, mas o Brasil pode perfeitamente se defender. Será uma luta entre as decisões de política econômica e a evolução da situação. O Brasil terá um enfrentamento permanente. Vai depender mais da sensibilidade dos formuladores de política econômica do que da sua sabedoria técnica.

IHU On-Line - Como os autores clássicos da economia podem nos ajudar a refletir e encontrar possíveis soluções para este momento de crise? Qual a importância de retomar Keynes, por exemplo?

Luiz Gonzaga Belluzzo – Acho importante ler os autores que trataram da economia monetária de crédito. Keynes, certamente um dos maiores entre os clássicos, olhou a economia capitalista como uma economia de ativos, com sistema bancário. Ele era, antes de mais nada, um teórico da economia monetária com sistema bancário empenhado na criação de moeda e de crédito. Ele é o grande pensador do sistema bancário no capitalismo moderno. Keynes era muito favorável à intervenção do Estado na economia. Ele dizia que a idéia de que o interesse individual leva necessariamente ao interesse coletivo é equivocada e que é preciso que o estado racional interfira na economia. 

IHU On-Line - O que esse episódio tem a dizer sobre a relação entre democracia e capitalismo?

Luiz Gonzaga Belluzzo – Ouvi muita discussão a esse respeito, inclusive alguém invocando a importância da decisão inicial do congresso americano como gesto de independência da política. Isso é uma interpretação equivocada. A política foi totalmente aprisionada pelo econômico. O que essa decisão mostra é isso: essa incapacidade da política de se livrar das amarras econômicas. Então, as relações entre democracia e capitalismo são contraditórias. A economia capitalista cria um sistema de necessidades, que é imposto aos indivíduos. Além da sua livre escolha (dos seus representantes, que é uma atitude política), ela impõe certos constrangimentos que são semelhantes ao fato de tomar uma decisão com um revólver na cabeça. Na verdade, não há mesmo alternativa quando uma crise financeira sistêmica se desenvolve. Se não se decidir pela intervenção decisiva dos mercados, a crise pode avançar a um ponto que destrói completamente a capacidade de decisão dos indivíduos. A menos que a intervenção seja de tal ordem potente e abrangente, como, por exemplo, a estatização do sistema bancário.  

IHU On-Line - China e Índia ganham mais importância na economia mundial?

Luiz Gonzaga Belluzzo – Isso é uma ilusão. Nem a China nem a Índia têm condições. Essa idéia de que vão contrabalançar a queda do crescimento americano é um pouco complicada, até porque não têm peso suficiente na economia mundial para fazer isso. É claro que a China pode evitar que os efeitos da crise atinjam completamente a sua economia. Ela pode se defender, continuar crescendo, mas não é isso que vai impedir uma recessão global. Ela pode até montar um esquema de defesa dentro das economias asiáticas, que estão desacelerando rapidamente. 

IHU On-Line - O senhor concorda com o uso do FGTS para a compra de ações da Petrobras?

Luiz Gonzaga Belluzzo – Agora não é hora para isso, não. É preciso tomar um certo cuidado. Não vejo nenhum impedimento grave, mas isso já foi feito, os trabalhadores compraram ações com os recursos do FGTS. Insisto: agora não é o momento de se pensar nisso, porque a bolsa está muito instável. Acho que ela irá sofrer um processo de desvalorização. Não é hora de se discutir esse assunto.

Leia mais...

Confira outras entrevistas concedidas por Luiz Gonzaga Belluzzo. Acesse nossa página eletrônica www.unisinos.br/ihu

Entrevistas:

* “Nós fomos ultrapassados pelos outros, o que não quer dizer que isso seja um fenômeno insuperável”. Revista IHU On-Line nº 218, de 07-05-2007.

* “Nós não temos uma definição exata nem da profundidade nem da extensão da crise”. Notícias do dia, de 02-03-2008.

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição