Edição 275 | 29 Setembro 2008

Nos caminhos de Medellín: da opção pelos pobres à participação dos fiéis na Igreja de hoje

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Bruna Quadros

Ana Maria Tepedino destaca que os fiéis não se sentem membros, parecem mais fregueses, não se comprometem e participam quando precisam.

A opção pelos pobres, a participação dos leigos e a participação da Igreja na sociedade em benefício dos mais desfavorecidos. Estes são, na opinião da Profa. Dra. Ana Maria de Azeredo Lopes Tepedino, os marcos mais importantes da trajetória da Igreja Latino-Americana, desde a Conferência Episcopal de Medellín, realizada há quatro décadas. Ao perceber que os fiéis estão menos participativos na Igreja, ela destaca que esta falta de pertença provoca um grande trânsito entre as igrejas, embora ainda existam cristãos comprometidos com a transformação da sociedade e com a participação na Igreja de maneira comprometida com a opção pelos pobres. Durante a entrevista concedida por e-mail à revista IHU On-Line, ela ressaltou, ainda, que vivemos, em termos mundiais, um tempo diferente, muito mais conservador o que influenciou na participação efetiva dos fiéis na vida da Igreja e da sociedade.

Ana Maria de Azeredo Lopes Tepedino, que estará no Instituto Humanitas Unisinos – IHU no dia 3 de outubro para participar do evento De Medellín a Aparecida: marcos, trajetórias e perspectivas da Igreja Latino-Americana, é graduada em Filosofia pela Universidade Católica de Petrópolis, e em Teologia, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio. Possui mestrado e doutorado em Teologia também pela PUC-Rio. Atualmente, é professora associada da mesma instituição.

IHU On-Line - Considerando os 40 anos de realização da Conferência Episcopal de Medellín, quais são, em sua opinião, os principais marcos ou características da trajetória da Igreja Latino-americana ao longo deste período?

Ana Maria Tepedino - Os marcos mais importantes são a opção pelos pobres, a participação dos leigos, a participação da igreja na sociedade em benefício dos mais desfavorecidos, as Comunidades Eclesiais de Base (Cebs), os ministérios não ordenados, e, de certa forma, a colegialidade dos bispos.

IHU On-Line - Que rupturas e continuidades podem ser observadas na eclesiologia subjacente às diversas conferências do Episcopado Latino-americano?

Ana Maria Tepedino - A maior ruptura é, sem dúvida, a diferença na maneira de se colocar na sociedade, que perdeu muito da sua ênfase profética, embora minoritariamente ela esteja presente, assim como as Cebs, que, embora tenham perdido muito de sua força, continuam vigentes, e, com o impulso de Aparecida, poderão prosseguir sua caminhada. As continuidades estão contidas na resposta anterior.

IHU On-Line – De que forma, nestas rupturas e continuidades, se reflete a conjuntura eclesial do momento da realização dessas Conferências? Como isto se reflete nos documentos produzidos pelas mesmas?

Ana Maria Tepedino - A conjuntura política pós-ditaduras causou um relaxamento no compromisso sociopolítico. Vivemos na América Latina um outro momento, vivemos em termos mundiais um tempo diferente, muito mais conservador, o que influenciou na participação efetiva dos fiéis na vida da Igreja e da sociedade. Estamos em uma nova época, a pós-modernidade, na qual um outro tipo de conhecimento, partindo da experiência e buscando incluir a sensibilidade na forma de conhecer, assumindo saberes locais e parciais, necessariamente fragmentados, aparece como dificuldade para a mensagem da Igreja. Os fiéis não se sentem membros, parecem mais fregueses, não se comprometem e participam quando precisam. Esta falta de pertença provoca um grande trânsito entre as igrejas, embora ainda existam cristãos comprometidos com a transformação da sociedade e com a participação na igreja de maneira comprometida com a opção pelos pobres.

IHU On-Line - Em termos de presença e ausência no cenário brasileiro e latino-americano, como a senhora vê hoje a atuação da Igreja Católica?

Ana Maria Tepedino - A Igreja de Medellín, a grande tradição latino-americana, diminuiu, porém está viva e continua a trabalhar. No entanto, a mídia não se interessa por ela, daí sua invisibilidade. O que aparece na mídia são os padres cantores, movimentos como a Renovação Carismática, uma outra maneira de viver a fé, que também tem valor, embora o enfoque seja mais individualista e subjetivista.

IHU On-Line - Tomando como referência sua longa experiência de atuação junto às mulheres nas comunidades eclesiais e sua atuação como teóloga, como a senhora avalia a situação atual das mulheres na Igreja, na sociedade e na teologia?

Ana Maria Tepedino - Com relação aos anos 1980, vejo que as comunidades eclesiais continuam sendo sustentadas pelas mulheres. No entanto, as novas gerações não estão tão presentes. Com relação à Teologia, percebo uma nova leva, depois de alguns anos sem interesse pela reflexão teológica feminista. Na sociedade, as mulheres vão assumindo cada vez mais um protagonismo que faz com que o século XXI comece a ser considerado o século das mulheres, embora o filósofo francês Gilles Lipovetsky  tenha falado que estamos na “terceira mulher”,  aquela que pela primeira vez na história tomou sua vida nas mãos e pode ser artífice e protagonista.

IHU On-Line – Recentemente, a senhora esteve no México, colaborando na implantação de uma Cátedra de Teologia Feminista em uma universidade. Qual a importância de uma cadeira de Teologia Feminista num curso de teologia?

Ana Maria Tepedino - Uma Cátedra feminista tem dois aspectos: o simbólico, de valorização desta maneira de fazer teologia, que parte da experiência de vida das mulheres, se desenvolve em autonomia e relacionalidade para dizer uma palavra distinta; e o para além do acadêmico, pois uma Cátedra, embora esteja na universidade, tem uma liberdade não possibilitada pela grade curricular, podendo oferecer não apenas cursos, mas múltiplas atividades criativas: palestras com professoras visitantes, workshops com diversos grupos, debates, enfim, é uma novidade na estrutura das universidades. Não é apenas uma cadeira, que também colabora a formar este tipo de pensamento. A cátedra de Teologia Feminista que tive o prazer de inaugurar no México é muito importante, porque até hoje não havia ainda no México um número significativo de teólogos naquele país, e tenho certeza que será um grande impulso, na criação de pensamento e divulgação de trabalhos de teólogas em outros países.

IHU On-Line - Como as teorias feministas e de gênero contribuem com a teologia feminista? E, num movimento inverso, quais as contribuições da teologia com os estudos feministas e/ou de gênero?

Ana Maria Tepedino - A teologia feminista surgiu na América Latina por volta dos anos 1980. Antes, falávamos em teologia desde as mulheres, até que, finalmente, assumimos o termo feminista, como uma ruptura com o estereótipo feminino, considerado como subjetivo, imaginativo, irracional e como a possibilidade de expressar de outro modo o nosso sentir e falar sobre o mistério. A teologia feminista vai valorizar a experiência das mulheres, refleti-la de maneira relacional, que é outra forma de racionalidade, possibilitando que se sintam não mais apenas “tarefeiras” dentro da Igreja, mas participantes adultas na fé, assumindo cada vez mais o protagonismo que lhes cabe na comunidade eclesial.

IHU On-Line - Levando em conta sua experiência como professora de teologia na PUC-Rio, que limites e possibilidades a senhora vislumbra para a teologia no mundo acadêmico?

Ana Maria Tepedino - O meio acadêmico já foi mais aberto à participação das mulheres. No entanto, temos que nos preparar com afinco e lutar sempre, não considerando o espaço como algo adquirido.

Leia mais...

>> Confira outras entrevistas sobre o evento De Medellín a Aparecida: marcos, trajetórias e perspectivas da Igreja Latino-Americana publicadas na IHU On-Line:

* A herança de Medellín. Entrevista com Joseph Comblin. Edição nº 261 da IHU On-Line, de 09-06-2008
 
* Nas pegadas de Medellín, as opções de Puebla. Entrevista com João Batista Libânio. Edição nº 264 da IHU On-Line, de 30-06-2008

* Medellín, Puebla, Aparecida e Santo Domingo: a luta pelos pobres e pela libertação. Entrevista com Paulo Suess. Edição nº 267 da IHU On-Line, de 04-08-2008
 
* O massacre de San Patricio. Religiosos palotinos são trucidados. Entrevista com Mariano Pinasco. Edição nº 271 da IHU On-Line, de 01-09-2008

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