Edição 275 | 29 Setembro 2008

Invenção - Alice Ruiz

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André Dick

Editoria de Poesia

A poeta, tradutora e letrista Alice Ruiz nasceu em Curitiba (PR), em 1946. É autora de Navalhanaliga, Paixão xama paixão – ambos os livros reunidos em Pelos pêlos (São Paulo: Brasiliense, 1984) –,  Nuvem feliz (Curitiba: Criar Edições, 1986), Vice versos (São Paulo: Brasiliense, 1988), Desorientais (São Paulo: Iluminuras, 1996), Poesia pra tocar no rádio (Rio de Janeiro: Blocos, 1999) e Yuuka (Porto Alegre: Editora AMEOPoema, 2004), entre outros. Como tradutora, verteu, por exemplo, para o português haicais do poeta japonês Issa, no livro Hai-kais (São Paulo: Olavo Brás, 1988). Para consultar informações sobre a sua obra, um livro referencial é Alice Ruiz (Curitiba: Scientia e Labor/Editora da UFPR, 1988).

Alice trabalha, em sua obra, sobretudo com o haicai, que é o poema de origem japonesa de apenas três versos que procura captar elementos da natureza e sentimentos concisos. O haicai chama a atenção sobretudo por sua simplicidade. Em Navalhanaliga, por exemplo, escreve: “sem saudade de você / sem saudade de mim / o passado passou enfim”. Mas Alice também procura uma crítica social nessa linguagem rápida, rarefeita: “nada na barriga / navalha na liga / valha”. No livro Hai-tropikai (1985) – feito em parceria com Paulo Leminski (1944-1989), com quem Alice foi casada –, há haicais que sintetizam a ligação com a natureza: “presente de vênus / primeira estrela que vejo / satisfaça meu desejo”. Ainda podemos notar, em sua obra, poemas que remetem à ligação familiar: “enchemos a vida / de filhos / que nos enchem a vida / / um me enche de lembranças / que me enchem / de lágrimas / / uma me enche de alegrias / que enchem minhas noites / de dias / / outro me enche de esperanças / e receios / enquanto me incham / os seios”. Alice também demonstra um bom humor, em poemas de Vice versos: “vara o dia / varrendo a noite / cata um sonho / sonha um vento / algo que fique / por pouco / por muito pouco / um cisco que seja / algo que signifique” e “tem os que passam / e tudo se passa / com passos já passados / / tem os que partem / da pedra ao vidro / deixam tudo partido / / e tem, ainda / bem, os que deixam / a vaga impressão / de ter ficado”.

Haicais e letras de música

Em um de seus livros mais conhecidos, Desorientais, Alice trabalha quase que exclusivamente com o haicai. Alguns exemplos: “entre uma estrela / e um vagalume / o sol se põe”; “gosto de inverno / o cheiro das glicínias / lembra agosto”; “céu e mar cinza / barcos ancoram / todas as cores”; “varal vazio / um só fio / lua ao meio”; e “manhã de sol / na lembrança / o som da chuva”. Em Yuuka, novamente mostra vários haicais interessantes: “barco passando / o bambuzal do Guaíba / fica acenando”; “olhar para o mar / não é o mesmo que velejar / mas dá pra viajar”; “fora de mim / imagino na paisagem / a imagem do que fui”; e “cigarras em algazarra / estalo nas folhas secas / o silêncio se instala”.

Além de poeta, Alice, como mencionado, é letrista de música, e, com Alzira Espíndola, lançou o CD Paralelas, em 2005. Além disso, compôs a música “Socorro”, cantada por Arnaldo Antunes, Gal Costa e Cássia Eller; “Tudo ou nada” e “Vou tirar você do meu dicionário”, parcerias com Itamar Assumpção cantadas por Zélia Duncan; “Se tudo pode acontecer”, cantada por Arnaldo Antunes e Adriana Calcanhotto; e “Quase nada”, gravada por Zeca Baleiro, com os versos: “de você sei quase nada / pra onde vai ou porque veio / nem mesmo sei / qual é a parte da tua estrada / no meu caminho / / será um atalho / ou um desvio / um rio raso / um passo em falso / um prato fundo / pra toda fome que há no mundo”. Na canção “leve”, gravada por Ney Matogrosso, ela traz uma influência oriental à composição: “leve a semente vai / onde o vento leva / gente pesa / por mais que invente / só vai onde pisa / / viver ou morrer / é o de menos / a vida inteira / pode ser / qualquer momento / ser feliz ou não / questão de talento”.

Situada entre o equilíbrio zen do haicai e seu trabalho como letrista, Alice emprega também uma ligação com os universo da mitologia grega e da mitologia africana, em versos como “lendas gregas / lendas negras / / cheias de ditos / malditos / benditos / / todos medito / todas me ditam / destinos” ou em “Meu templo”: “museu de todas as musas / todas fora de uso / / na cela de Apolonio de Thyana / cai a poeira sobre o verso / / nos jardins / passeiam vultos / frases em francês / sonhos em latim”. Nessa linha, segue o poema inédito, sem título, que Alice enviou à IHU On-Line, com referência à Atena, deusa grega da sabedoria, do ofício, da inteligência e da guerra.

Deusa Atena,
por favor,
atrasa a Aurora.
Deixe que dure
um pouco mais
a trégua,
esse outro nome do amor,
antes da guerra.

Adia a lembrança
de que existe o efêmero
mera armadilha
de um dia após o outro.
Faça que a noite,
esse simulacro do eterno,
se estenda um pouco mais.

Não deixe que traga ainda o sol
com sua luz que tudo acende,
e a todos cega
nos fazendo esquecer da morte
essa outra vida
no reino do não ser.

Espera, Aurora,
aprende a Paciência
para quando o momento
do fim da existência,
for agora.

Mas até lá, Atena
deixe que venha,
sem demora,
a Aurora.

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