Edição 275 | 29 Setembro 2008

Machado expõe a dimensão da pluralidade e da universalidade humana

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André Dick e Patricia Fachin

Para a professora Juracy Saraiva, Machado de Assis é um atento e perspicaz observador da moral, dos costumes e das relações humanas

Ao falar sobre a importância e as características da obra de Machado de Assis, a professora Juracy Saraiva, do Centro Universitário Feevale, afirma que “as menções a formas particulares de organização social, os dados da espacialidade e os aspectos culturais solidificam os efeitos de realidade de sua obra ficcional, contribuindo para a verossimilhança”. No entanto, alerta, “as tramas reveladoras das ações humanas transcendem o localismo para representar a essência do humano, que é idêntica em toda e qualquer latitude”. Para Juracy, essa é a razão da atualidade de suas obras até hoje.

Juracy Ignez Assmann Saraiva é graduada em Letras, pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos, mestre em Literatura Brasileira, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e doutora em Teoria Literária, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Realizou pós-doutorado em Teoria Literária, pela Universidade Estadual de Campinas. Atualmente, é professora e pesquisadora no Centro Universitário Feevale, em Novo Hamburgo, onde também exerce a função de assessora da Pró-Reitoria de Pesquisa, Tecnologia e Inovação. É membro do Comitê Interdisciplinar da Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio Grande do Sul e consultora das secretarias de Educação das prefeituras de Dois Irmãos e de Morro Reuter, sendo responsável pelo desenvolvimento de programas de leitura e de escrita. Suas pesquisas na área de Letras concentram-se na obra de Machado de Assis e na metodologia do ensino de literatura. De sua obra, citamos O circuito das memórias em Machado de Assis (2. ed. São Paulo: Edusp, 2008).

IHU On-Line - Como as obras de Machado ajudam a compreender o contexto social e político do Brasil do século passado? Elas continuam atuais? Por quê?

Juracy Assmann Saraiva - Ao conceber suas obras, Machado de Assis enfoca a sociedade brasileira da segunda metade do século XIX. Ele trata de temas que expõem o contexto social e político do Brasil nesse período e se revela um atento e perspicaz observador da moral, dos costumes e das relações humanas. Entretanto, ainda que seus personagens circulem pelas ruas, praças e demais logradouros da cidade do Rio de Janeiro e que os ritos sociais desse lugar e de um determinado tempo estejam representados, Machado expõe a dimensão da pluralidade e da universalidade humana. As menções a formas particulares de organização social, os dados da espacialidade e os aspectos culturais solidificam os efeitos de realidade de sua obra ficcional, contribuindo para a verossimilhança, mas as tramas reveladoras das ações humanas transcendem o localismo para representar a essência do humano, que é idêntica em toda e qualquer latitude. Por essa razão, suas obras continuam atuais.

IHU On-Line - Dom Casmurro e Quincas Borba, entre outras obras de Machado, representam sua visão sociológica e histórica, também através do crescimento da cidade, especificamente o Rio de Janeiro?

Juracy Assmann Saraiva - Os textos literários, apesar de serem fictícios, não abandonam a relação com o real, nem com o presente histórico, que nele interferem tanto como ponto de partida quanto como ponto de chegada, tanto no momento da produção quanto no da recepção.  Conseqüentemente, embora instalem um “mundo possível”, as obras de Machado estabelecem correspondências com a realidade factual, representando sua visão crítica em face da organização social do país ou de seus eventos históricos. Em relação aos acontecimentos da vida brasileira, elas destacam, por exemplo, a mudança de regime político, que passa da Monarquia à República, e que Machado transpõe em Esaú e Jacó, e a abolição da escravatura e a necessidade de novas formas de organização social do trabalho que estão representadas no conto “Pai contra mãe”. Em Dom Casmurro, a sociedade escravocrata do Segundo Império bem como suas relações de poder e de ascensão social são delineadas, estando a motivação de Capitu para seduzir Bentinho, segundo o narrador, enraizada no desejo dela e de sua família de elevar-se social e economicamente. Em Quincas Borba, o leitor se depara com a denúncia de uma concepção de mundo e de um comportamento coletivo em que, em nome do reconhecimento social, se admite a sobreposição da aparência à realidade, do falso ao verdadeiro e em que a ambição se deixa reger por um processo de devoração. Esse mesmo romance ridiculariza um sistema político que se instala sob um luxo e esplendor falsos, permitindo aventar a hipótese de que, para Machado de Assis, a estrutura da Monarquia brasileira se embasava em um delírio tão fantasioso quanto o de Rubião.

IHU On-Line - De que maneira a realidade social de Machado influenciou na sua perspectiva de perceber a sociedade brasileira? Ele, como cronista, soube desempenhar um papel opinativo na configuração de idéias também históricas?

Juracy Assmann Saraiva - O olhar sobre a realidade, filtrado por meio do espelho da literatura, torna os leitores menos ingênuos e lhes dá uma visão mais abrangente e mais crítica de suas próprias circunstâncias. Entretanto, é difícil mensurar a influência de um escritor sobre seus contemporâneos no que tange à instalação de um ideário político e ao rumo dos eventos históricos, quando ele não assume posições explícitas e maniqueístas. Certamente, Machado contribuiu, com suas crônicas e demais produções, para aguçar o espírito crítico dos leitores de seu tempo, mas o mais importante é que a análise do comportamento humano, configurado em suas obras, transcendeu o momento em que elas foram produzidas.

IHU On-Line – Como a senhora compreende os múltiplos narradores de Machado de Assis, presentes tanto em suas crônicas (sobretudo na década de 1880) quanto em seus romances memorialistas, de forma destacada em Esaú e Jacó e Memorial de Aires? O escritor era sobretudo alguém que colecionava memórias por meio de suas narrativas e fazia uma “ficção autobiográfica”?

Juracy Assmann Saraiva - As manifestações literárias modernas, entre elas o romance, expressam a função antropológica da memória ou dela se valem como recurso poético para instalar o universo romanesco. Em seus romances memorialísticos ou autobiográficos, Memórias póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro, Esaú e Jacó e Memorial de Aires, Machado de Assis explora a força evocativa da memória, mediante a qual os protagonistas registram suas experiências e instituem sua identidade. Nesse processo, Machado recorre a estratégias que alicerçam a verossimilhança dos romances e explora as características do gênero autobiográfico, mas não estabelece relações de homogeneidade entre as personagens e a sua própria vida, engano que tem orientado muitos estudos biográficos sobre o escritor brasileiro.  

IHU On-Line – Quais são os autores estrangeiros que mais provocaram influência na obra de Machado de Assis? E como, nesse ponto, se inseria sua visão a respeito do nacionalismo, visível em seu escrito “Instinto de nacionalidade”?

Juracy Assmann Saraiva - Machado de Assis recupera o veio da literatura instalado por escritores como Rabelais, Montaigne, Shakespeare, Cervantes, Stendhal, Merrimée, Swift, Sterne, rejeitando a concepção realista-naturalista da arte, assumida por outros romancistas brasileiros da segunda metade do século XIX. Assim, enquanto esses transpunham o experimentalismo científico e o referencial teórico do Positivismo para suas produções, com o intuito de adequar-se aos ideais da modernidade, sem analisar a correspondência deles à estrutura sócio-político-cultural vigente, Machado recuperou a herança da literatura clássica. Negando-se a ignorar as contradições da sociedade brasileira e a adotar convenções estéticas que privilegiavam antes o verdadeiro do que o verossímil, o escritor procedeu à representação de dilemas humanos, situando-os, porém, em determinado contexto; igualmente, transferiu, para a interioridade de suas obras, a reflexão sobre as potencialidades expressivas do fazer literário, reflexão que inclui a dimensão múltipla e ilimitada da própria literatura. Ele estabeleceu, dessa forma, uma prática subversiva em relação à compreensão do momento histórico brasileiro e à tendência estética dominante, sem que, com isso, deixasse de ser um homem de seu tempo e de seu país. 

IHU On-Line – Como, para utilizar expressão de Roberto Schwarz, Machado conseguiu se transformar num “mestre na periferia do capitalismo”? Por que, desse modo, suas obras possuem um caráter tão universal?

Juracy Assmann Saraiva - A partir de uma perspectiva sociológica, Roberto Schwarz assinala o modo como Machado transfere, para o processo narrativo, a estrutura vigente na sociedade, procedendo à denúncia dessa mesma sociedade por meio dos procedimentos formais de seu estilo. Nesse sentido, ainda que exercendo o ofício de escritor em um país periférico, Machado se revela um mestre, igualando-se aos mais importantes escritores da literatura ocidental. 

A natureza inovadora da obra de Machado garante-lhe a condição de clássica, isto é, de uma obra que é capaz de instalar um novo paradigma artístico e que, simultaneamente, transpõe os limites do momento de sua criação.

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