Edição 275 | 29 Setembro 2008

O cinema não consegue se aproximar da genialidade de Machado

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André Dick e Patricia Fachin

Para o jornalista Cesar Zamberlan, o cinema teme enfrentar os recursos explorados, na literatura, por Machado

Uma referência indiscutível para a literatura, Machado de Assis “usa alguns expedientes estilísticos que são muito comuns no cinema”, mas não pode ser considerado um referencial para a produção cinematográfica, afirma o jornalista Cesar Zamberlan, por e-mail. Ao justificar sua opinião, Zamberlan é enfático: “Não é fácil adaptar Machado”. Segundo ele, a estrutura dos capítulos de alguns livros machadianos é bastante cinematográfica. No entanto, esclarece, “essa proximidade torna a adaptação de Machado para o cinema mais difícil, porque os cineastas de modo geral buscam uma estrutura narrativa menos complexa, com um narrador mais assimilável”.

Graduado em Jornalismo, pela Faculdade de Comunicação Social Casper Líbero, em Letras, pela Universidade de São Paulo, e mestre em Literatura Brasileira, pela mesma universidade, Zamberlan é docente da Faculdade Integração Zona Oeste (FIZO), São Paulo.

IHU On-Line - Há fidelidade na transposição de contos e romances de Machado para o cinema?

Cesar Zamberlan - Diria que não, porque a fidelidade na transposição de uma obra literária para o cinema é algo impossível, são meios diferentes com linguagens diferentes. Poderíamos pensar, e acho que é esse o sentido da sua pergunta, em pontos de contato entre a obra literária e a adaptação, e, nesse caso, em se tratando de Machado de Assis, a questão é bem mais complexa pela forma como os contos e romances de Machado estão estruturados. Alguns recursos estilísticos comuns na obra de Machado de Assis, sobretudo os relacionados ao ponto de vista narrativo, caso do narrador intruso que costuma fazer comentários digressivos sobre o objeto narrado, não encontram um equivalente fílmico imediato. Adaptar Machado sem levar em consideração esse narrador faz com que a leitura - e a transposição nada mais é que uma leitura - se dê no nível mais superficial do texto, sem penetrar no texto, na ironia e no retrato que o escritor constrói sobre a época em que viveu. Acho que um exemplo dessa leitura mais rasa, superficial e falsamente didática, é a adaptação que Klotzel  fez de Memórias póstumas de Brás Cubas. Em contrapartida, temos a adaptação do Bressane  para o mesmo livro. Ela busca, com muito sucesso uma leitura mais complexa e com mais pontos de contato com o livro. Bressane  diz algo sensacional a esse respeito. Para ele, Klotzel leu Brás Cubas e Bressane leu o Machado. Concordo inteiramente com ele e penso que para adaptar Machado com sucesso é preciso entender o que faz Machado de Assis um escritor tão genial, é preciso dialogar com ele. E para isso é necessário estar disposto a um mergulho mais profundo, é necessário ter um projeto mais amplo e mais pensado. Quem melhor fez isso até hoje foram Bressane, Sérgio Bianchi  e Nelson Pereira dos Santos.  No mais, as outras adaptações de Machado de Assis para o cinema são bem pouco estimulantes. 

IHU On-Line - As obras de Machado de Assis costumam trazer capítulos rápidos, fragmentados. Na sua opinião, isso cria uma maior adequação para elas serem transpostas ao universo cinematográfico?

Cesar Zamberlan - Essa fragmentação é mais presente em Memórias póstumas, e o próprio Bressane que adaptou o livro declarou que o achava bastante cinematográfico na sua estrutura. De certo modo, Machado de Assis usa alguns expedientes estilísticos que são muito comuns no cinema e fez isso antes da invenção o cinema. Um dos seus biógrafos, o Magalhães Jr.,  escreveu em 1958, ano do cinqüentenário da morte de Machado de Assis, que Machado tinha uma “intuição cinematográfica”. A idéia logo motivou uma réplica do Paulo Emílio Salles Gomes, que escreveu que isso ocorria porque a linguagem literária iria servir de base para a linguagem cinematográfica, então nada mais natural que alguns expedientes sejam comuns, caso dos flashbacks, elipses etc. Acho bastante cinematográfico em Machado, com o perdão do anacronismo, a forma como ele estrutura os capítulos de alguns livros e como trabalha a questão temporal. Porém, por outro lado, e isso pode parecer bem paradoxal, acho que essa proximidade torna a adaptação de Machado para o cinema mais difícil, porque os cineastas de modo geral buscam uma estrutura narrativa menos complexa, com um narrador mais assimilável. Já os narradores machadianos são complicadíssimos, ferem, por exemplo, o ilusionismo, que é caro ao cinema, ao falarem diretamente ao leitor expondo de maneira engenhosa e muitas vezes envenenada os rumos da narração. Resumindo, em termos narrativos, Machado explora recursos que o cinema, de modo geral, teme em enfrentar. E se você o transpõe para o cinema sem levar isso em conta, não vai conseguir se aproximar da genialidade dele.

IHU On-Line - Como o senhor percebe as adaptações das obras de Machado para a televisão, como telenovelas e minisséries? Há diferenças se comparadas ao cinema?

Cesar Zamberlan – Uma novela ou uma minissérie dura mais que as duas horas em média do filme, o que possibilita um enfrentamento maior dos episódios do livro. Fora isso, a TV chega a uma massa que raramente o cinema atinge, e isso para uma maior popularização da obra é muito positivo. No caso de Machado, tanto Helena quanto Iaiá Garcia, romances da primeira fase, foram adaptados como novela. Helena em 1952 na TV Paulista, em 1975 pela TV Globo e em 1987 como minissérie de 20 capítulos na TV Manchete. Já Iaiá, em 1953 pela TV Paulista e depois em 1982 pela TV Cultura como parte da série “Tele-Romance”. Agora, teremos a adaptação de Dom Casmurro como minissérie pela TV Globo com direção do Luiz Fernando Carvalho,  que tem um trabalho de adaptação – termo, aliás, que ele odeia - bem interessante, vide Os Maias e A pedra do reino. Acho muito positivo esse diálogo entre literatura e TV, e lamento que ele seja ainda muito pequeno. Tenho certeza que muita gente vai voltar a Machado e a Dom Casmurro depois que a minissérie for exibida, isso é muito importante.

IHU On-Line - Que aspectos das obras machadianas são ressaltados no cinema? Podemos dizer que, por meio da adaptação cinematográfica, elas revelam aspectos ligados a qualquer época e não apenas a fatos ambientados à época em que os romances foram escritos, como no caso do filme Dom?

Cesar Zamberlan – Difícil falar sobre Dom, o filme tem muito pouco a ver com a obra de Machado de Assis e tem pretensões outras que estabelecer um diálogo com a obra. O diretor transpôs a questão do suposto adultério de Dom Casmurro para os dias atuais, brincando com os nomes dos personagens e usando o livro, ou a leitura mais simplória que se faz dele, como pano de fundo. O filme é livremente inspirado no livro, não mais que isso, e não deve ser levado em conta se queremos discutir a obra de Machado de Assis no cinema.

Quanto aos aspectos das obras machadianas ressaltados no cinema, acho que Bianchi trabalha com o Machado crítico das relações sociais e conseguiu, no Quanto vale ou é por quilo?, fazer uma leitura e releitura atualizada muito interessante do conto “Pai contra mãe”. Ele já tinha feito isso antes com o conto “A causa secreta”, que originou o filme homônimo. Outro que conseguiu transpor Machado com propriedade foi Nelson Pereira dos Santos quando adaptou O alienista para discutir o Brasil na época da ditadura militar. Nelson, que é gênio e dialoga muito bem com a literatura brasileira no seu cinema, afirmou que aqueles personagens eram porta-vozes do pensamento de uma época, que sofreu alteração apenas exteriormente, mas cuja estruturalmente permaneceu a mesma e que, por isso, O alienista era quase um conto de antecipação. Ou seja, ele ressalta, e o filme também, esse caráter antecipatório e visionário da obra de Machado. Nesse sentido, respondo também a sua segunda pergunta, pois esses três filmes citados mostram um Brasil atual que ainda é muito machadiano. Para terminar, acho justo voltar a citar Bressane, pois ele é ainda hoje quem mais soube brincar com o texto machadiano, promovendo um diálogo muito interessante.

IHU On-Line - Quais os principais desafios de adaptar uma obra literária para o cinema?

Cesar Zamberlan – Essa é uma pergunta complicada, mas acho que o principal desafio está no tipo de relação ou enfrentamento que o cineasta vai ter com a obra. É necessário ler o livro como um filme e ver como essa transposição, transcriação ou apropriação é possível sem se esquecer que as linguagens são diferentes e que a dita fidelidade é impossível. Acho que o principal desafio está na transformação do filme num projeto cinematográfico que dê conta de um outro projeto artístico, o do escritor. E, quando falo em dar conta, não é, como já frisei ser fiel, mas estabelecer pontos de contato, estéticos ou ideológicos que permitam a aproximação e a relação entre a palavra do escritor e a imagem do cineasta, pois, como já frisou José Carlos Avellar, a palavra é o chão da imagem.

IHU On-Line - Machado de Assis é uma referência para a literatura brasileira. Podemos dizer que ele também se consolidou como uma referência para o cinema?

Cesar Zamberlan – Machado é uma referência para o Brasil, para entender o Brasil do segundo reinado e para entender o Brasil de hoje, afinal um está no outro. Acho que Machado não é uma referência para o cinema brasileiro porque não é fácil adaptá-lo, tanto que ele é o nosso maior escritor, com uma obra extensa, e foi adaptado poucas vezes, ainda que paradoxalmente seu texto seja bastante cinematográfico. Nosso maior cineasta, Glauber Rocha,  por exemplo, odiava Machado. Dizia que Machado era uma m...; as reticências são do próprio Glauber. O projeto estético e ideológico de Machado davam, e dão, conta de um outro Brasil que não interessava muito a Glauber e ao cinema novo, com exceção a Nelson Pereira, se é que ele fez parte do Cinema Novo. O diálogo deles era mais com a literatura pós Semana de 22,  com a ruptura estética que esta promovia e com engajamento político que surge na literatura após a década de 30 com o ciclo do engenho e da seca. Acho que a referência literária do cinema brasileiro é essa, a do modernismo pós Semana de 22. Machado ainda precisa ser lido.

Saiba mais...

Seminário Nacional de Literatura: Machado e Rosa
Minicurso: Machado de Assis e o Cinema
Jornalista César Zamberlan
Local: Sala 1D106
Dia 02-10-2008
Horário: 14h às 18h30min

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