Edição 275 | 29 Setembro 2008

O olhar machadiano sobre o Brasil

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

André Dick e Patricia Fachin

Para a pesquisadora Luciana Coronel, a História é o “horizonte maior da literatura de Machado de Assis”

Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, a pesquisadora Luciana Coronel comenta as leituras de Machado de Assis sobre o Brasil, e afirma que ele se identificava com a identidade brasileira. Para ela, a ficção machadiana “se afasta do padrão de representação da paisagem e da natureza exótica do país”. Além disso, destaca, as leituras do escritor ainda são bastante atuais. Acusado de “alienado, incapaz de repensar a glória de um momento importante da história do país, posteriormente a historiografia veio a afirmar o que a ficção de Machado já apontava: que a República havia sido um golpe realizado por meia dúzia de militares, à revelia do povo e de suas necessidades”.

Professora de História e Literatura Brasileira do Centro Universitário Metodista IPA, Luciana Coronel cursou graduação em História, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mestrado em Letras, pela mesma universidade, e doutorado em Literatura Brasileira, pela Universidade de São Paulo (USP). 

IHU On-Line - Existem elementos nas obras de Machado que podem ser explicados a partir de sua visão histórica do Brasil e que formem uma espécie de identidade brasileira?

Luciana Coronel – Existem, sim. Em que pese Machado ter sido considerado por uma parte da crítica um autor pouco brasileiro, porque sua ficção se afastava do padrão de representação da realidade brasileira que se pautava pela “cor local”, pelo esforço de representação da paisagem e da natureza exótica do país, é possível lê-lo e entendê-lo como autor muito identificado com o Brasil e a identidade brasileira. Esta advém da estrutura composicional de sua forma narrativa, da maneira como ele constrói seu texto, muito mais do que da presença de um ou outro tema típicos do país e de sua história.

IHU On-Line - Machado lidou com temas essenciais, como o abolicionismo. Era, ao mesmo tempo, monarquista e abolicionalista. Participou da vida política brasileira, mesmo que indiretamente, e foi o criador da Academia Brasileira de Letras. O Machado escritor tinha uma faceta voltada para a história? Ele se preocupava, por exemplo, com o crescimento do Brasil, em sua participação social, mesmo que discreta?

Luciana Coronel - Me parece muito forte afirmar que Machado era “monarquista e abolicionista”. O que é certo é que ele tinha simpatias por D. Pedro II, que era um incentivador das artes e, no fim das contas, deu a ele um título (a Comenda da Ordem da Rosa) que lhe abriu as portas para o serviço público. Certamente era a favor da abolição, mas não foi militante de rua, de comício, nem de literatura, e por isso dizer abolicionista pode sugerir o que não é o caso. Há um estudo recente do Sidney Chalhoub  mostrando que, como funcionário, Machado deu várias pareceres sobre disputas em torno da Lei do Ventre Livre,  e sempre se pronunciou a favor do escravo, o que é uma prova de sua posição abolicinista, em sentido amplo.

A História é o horizonte maior da literatura de Machado de Assis, ainda que não se possa identificá-la com qualquer espécie de engajamento. Um cético dotado de um sendo amargo das contradições do país, isso é o que ele era. Sua ficção desmascara vícios, mas não aponta soluções que qualquer espécie.

IHU On-Line - O autor de Quincas Borba/ teve uma aproximação com o “cientificismo” em algumas de suas obras. É possível desenhar uma analogia entre os campos da psicologia e da literatura, como em O alienista?

Luciana Coronel - Esta é uma das peculiaridades deste autor. Se com certeza sua literatura depois de Memórias póstumas de Brás Cubas é exemplo de ficção pós-romântica, afastada e crítica da estética do romantismo, também é verdade que o autor tampouco se identifica com a onda cientificista que embalou realistas e, sobretudo, naturalistas. Machado observa a distância a produção literária tão cheia de certezas e tão confiante no progresso, colocando sua ficção cheia de desvãos e ambigüidades como uma espécie de resistência ao padrão vigente, que apostava na ciência como caminho para alcançar o progresso.

A psicologia, tema de O alienista, entra com certeza no rol das ciências que cabe ao autor problematizar, evidenciando quão arbitrárias são as decisões do médico Simão Bacamarte. Não sei se é o caso de se falar de analogias entre psicologia e literatura. Aqui, me parece muito mais estar a psicologia como fonte de problematização da visão de mundo ingenuamente confiante na ciência e, portanto, como tema.

IHU On-Line - Em algumas crônicas, Machado fazia referência à época da Independência do Brasil e ao período da Regência. Como esses momentos, às vezes esquecidos pelos leitores, se relacionavam com sua realidade atual?

Luciana Coronel - A leitura que Machado faz da proclamação da República é absolutamente atual. Se à época, uma parte da crítica tomou-o como autor alienado, incapaz de representar a glória de um momento importante da história do país, posteriormente a historiografia veio a afirmar o que a ficção de Machado já apontava: que a República havia sido um golpe realizado por meia dúzia de militares, à revelia do povo e de suas necessidades. O ceticismo que se depreende dos livros de Machado expressa esta espécie de consciência da profundidade dos problemas, e do tamanho do desafio que será, ou seria, efetivamente transformar este país.

IHU On-Line - Há um texto referencial, “Instinto de nacionalidade”, em que Machado trabalha com o conceito de nacionalismo da literatura. Até que ponto, em sua opinião, esse texto marca uma visão de Machado sobre o seu país?

Luciana Coronel - Mais do que uma visão sobre o país, “Instinto de nacionalidade” marca uma visão sobre a literatura, e as artes em geral, no que diz respeito aos vínculos que estabelecem com os países em que são geradas. Muito mais do que uma representação descritiva da “exterioridade” do país, Machado defende que cabe aos artistas representarem o “sentimento Íntimo” de serem daquele lugar, não importa sobre que tema falem.

Saiba mais...

>> Luciana Coronel participa do Seminário Nacional de Literatura e Cultura Brasileira: Machado e Rosa, no dia 30-10-2008.
Minicurso: Machado e a História: Interfaces
Profa. Dra.Luciana Coronel – Centro Universitário Metodista IPA
Local: Sala 1D106
Horário: 14h às 18h30min

Últimas edições

  • Edição 539

    Do ethos ao business em tempos de “Future-se”

    Ver edição
  • Edição 538

    Grande Sertão: Veredas. Travessias

    Ver edição
  • Edição 537

    A fagocitose do capital e as possibilidades de uma economia que faz viver e não mata

    Ver edição