Edição 274 | 22 Setembro 2008

Filme da semana - Linha de passe

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

André Dick

Um Brasil esquecido. Esse é o título que André Dick escolheu para o texto em que comenta o filme Linha de passe. No artigo, Dick escreve que o cineasta Walter Salles é especialista no que se refere a retratar o cotidiano de uma família brasileira. "No entanto, ele não cria estereótipos nem encobre imperfeições de seus personagens. Linha de passe é o retrato dessa sua maior qualidade."

O filme comentado nessa edição foi visto por algum/a colega do IHU e está em exibição nos cinemas de Porto Alegre, como o Artplex, do Shopping Bourbon.

Ficha técnica
Título original: Linha de passe
Gênero: Drama
Tempo de duração: 108 minutos
Ano de lançamento (Brasil): 2008
Direção: Walter Salles e Daniela Thomas
Elenco: João Baldasserini (Dênis), Vinícius de Oliveira (Dario), José Geraldo Rodrigues (Dinho), Kaique de Jesus Santos (Reginaldo), Sandra Corveloni (Cleuza)
Sinopse: Em São Paulo, a dona-de-casa e empregada doméstica Cleuza (Sandra Corveloni) cuida de quatro filmes e espera um quinto, em meio aos sonhos e problemas do dia-a-dia.

Um Brasil esquecido

O cineasta Walter Salles é especialista no que se refere a retratar o cotidiano de uma família brasileira. No entanto, ele não cria estereótipos nem encobre imperfeições de seus personagens. O seu filme mais recente, dirigido em parceria com Daniela Thomas – com quem dividiu as câmeras antes em Terra estrangeira e O primeiro dia –, intitulado Linha de passe, é o retrato dessa sua maior qualidade. No entanto, ao contrário, por exemplo, do excelente Central do Brasil, esse filme não é fechado, ou seja, o que se passa nele não se direciona a um final redentor, em que o personagem central se descobre plenamente, ao encontrar sua família no interior do Nordeste. Em Linha de passe, pelo contrário, a falta de redenção é o mote para cada um dos personagens que acompanha.

Não há, por isso, pelo menos claramente, como nos outros filmes de Walter Salles, uma linha narrativa clara. As ações vão se sucedendo de forma vertiginosa na imensa São Paulo. Mesmo o trecho inicial do filme representa esse movimento ininterrupto. Enquanto a mãe, Cleuza (Sandra Corvelini premiada com a Palma de Ouro de melhor atriz em Cannes/2008), está no Morumbi assistindo a Corinthians e São Paulo, o filho Dinho (José Geraldo Rodrigues) se encontra num culto rezando com outros fiéis. Ao mesmo tempo, Dario (Vinícius de Oliveira), a promessa financeira da família, participa de uma “peneira” de futebol, e seu irmão Dênis (João Baldasserini) anda com sua moto pela cidade para entregar encomendas e tentar juntar dinheiro para dar ao filho.

No entanto, Salles e Thomas não se comprometem com uma percepção sociológica. Seu retrato é sobretudo artístico, universal e não restrito a uma localidade. Ambos estão em busca do ritmo impresso pela cidade grande e daí o aspecto urbano ser tão forte, violento, ao longo da narrativa. Os personagens se dividem entre uma casa apertada na periferia e a extensão da metrópole, com seus vazios. A narrativa, assim, está situada entre a falta de espaço e o que sobra de espaço, entre avenidas, ruas, sinaleiras, muros, calçadas, campinhos e campos de futebol. No entanto, o que sobra de espaço dá a impressão labiríntica de os personagens não saírem dos mesmos lugares nos quais já estavam antes. A vida de cada um é como a pia da casa em que moram, que entope à certa altura. Nesse sentido, a seqüência em que Dario fica dopado e sai, na madrugada, pelas ruas de São Paulo, revela essa ponte entre o apartamento (apertado) e o labirinto de uma cidade imensa. Ao mesmo tempo, os personagens se amontoam em pequenos lugares (a família na pequena casa de periferia, os motoboys numa sala à espera de encomendas para entregar, o filho religioso no posto de gasolina, a torcida de futebol espremida na arquibancada, os aspirantes a jogador num banco de reservas apertado). Este choque entre o grandioso, o imenso, e o pequeno, o apertado, é o que mais cria desconforto em Linha de passe. A “luz no fim do túnel” é o pequeno guichê da bilheteria por onde os jovens que querem jogar futebol dizem o nome e a idade – formando uma fila de pessoas como aquela que pede a Dora (Fernando Montenegro), de Central do Brasil, para escrever cartas.

O futebol, nesse caso, é o acesso mais rápido ao ganho que a escolas e as profissões não dão. E o sonho cabe entre as traves da goleira. No entanto, o nascer do sol, na periferia, é tão melancólico quanto um dia de chuva, e todos os personagens estão presos, não tendo nem mesmo a mobilidade dos retirantes, nem o céu azul do sertão.

Por isso, o caso mais emblemático é, sem dúvida, o de Dario, vivido pelo ator Vinícius de Oliveira. É inevitável pensar por que Walter Salles escolheu o mesmo menino que interpretou em Central do Brasil. O que se percebe ao longo do filme é que ninguém poderia estabelecer um eixo melhor entre Linha de passe e Central do Brasil: o salto de um país que poderia dar certo – sobretudo, em Central, na fuga para o interior, em que o folclore é respeito, ao contrário da cidade grande, em que as culturas se perdem e se tornam em certa medida anódinas – para um país que, em grande parte, evidentemente fracassou na sua tentativa de mudança mais ampla, no filme mais recente. A figura de Dario, um jogador de futebol talentoso que tenta a sorte em várias “peneiras”, é significativa porque ele acaba sempre acusado, em campo, de ser individualista. A pergunta: seria diferente diante da condição em que vive? Esse personagem acaba estabelecendo a ponte com o sonho mais forte visto na trama: o de ajudar a mãe. Mas o que chama atenção, sob esse ponto de vista, é que Salles e Thomas ainda procuram imprimir a mudança em cada um dos personagens. Todos, por meio desse sonho, querem se libertar da sua condição atual. O filho mais novo, Reginaldo (vivido com talento impressionante por Kaique de Jesus Santos), é, por exemplo, talvez mais do que os outros, o retrato dessa procura. Desconfiado de que o pai é o motorista de ônibus que costuma levá-lo à sua escola, ele sonha em aprender a dirigir na Kombi que enferruja no pátio da casa onde vive. A história poderia soar previsível, mas foge ao estereótipo, pois o sonho do menino está ligado diretamente à vida da mãe. 

A figura materna no núcleo da família

A presença da mãe, que é totalmente contrária a ganhar qualquer coisa por meios escusos em Linha de passe, é peça-chave para qualquer uma das narrativas de Walter Salles. Em Terra estrangeira, o personagem principal, Paco, viajava para Portugal depois de perder a mãe, vitimada pelo susto do confisco do Governo Collor em 1990. Em Central do Brasil, a figura materna se fazia presente por meio da ausência, e por seu reflexo na personagem de Fernanda Montenegro, e, em Abril despedaçado, ela representava a submissão ao homem, no interior do sertão. Mesmo na incursão pouco instigante de Walter Salles em Hollywood, com o suspense Água negra, a mãe vivida por Jenniffer Connelly tinha problemas no que se referia à infância e os reproduzia na filha pequena. Em Linha de passe, essa mãe, que cria os quatro filhos trabalhando como empregada e espera o quinto – sem saber quem é o pai –, é o retrato de uma classe submetida à pressão do abandono diário. Isto é, não há via de escape para o que ela sente: a realidade que a cerca é absoluta e única. É ao redor da figura materna que os personagens circulam e são fortalecidos. Ela se divide entre o periférico – a casa em que vive – e o centro – na casa onde trabalha como empregada doméstica. Não há uma distinção clara entre classes, mas apenas o pedido de se “olhar” para o que é periférico. Isso porque os personagens fazem parte de um país, mais do que marginalizado, esquecido.

Essas divisões são comuns nos filmes de Walter Salles, sobretudo em Central do Brasil – na ida para o interior do Brasil – e em Abril despedaçado – em que o jovem preso no sertão descobre o circo e o mar. No entanto, em Linha de passe, existe uma presença que se via apenas nas entrelinhas de Central do Brasil: a fé. Na mais perfeita analogia que mostra o filme, Walter Salles e Daniela Thomas filmam a torcida do Corinthians, na qual está a mãe, torcendo para que o goleiro do São Paulo, Rogério Ceni, chute a bola para longe do gol, enquanto seu filho está num culto rezando com as pessoas e o pastor. Como se diz, a “fé move multidões”. Porém, em Linha de passe seria mais plausível afirmar que a “fé move solidões”, pois todos os personagens estão desamparados. Eles buscam um núcleo que unifique a família, como o menino Reginaldo, em busca do pai, mas essa busca é sempre solitária, mesmo que em meio à multidão. A torcida de futebol, encoberta pela bandeira imensa do time, e os fiéis, de certo modo, são movidos por uma fuga da realidade, mas, ao mesmo tempo, representam o encontro com a própria subjetividade, independente, aqui, do sentido especificamente religioso. Assim, apesar de o futebol ainda ser o “ópio do povo” e a religião mostrar um certo distanciamento da realidade, com a promessa do milagre por meio da fé, o que eles anunciam é uma via de escape da realidade agressiva. O espectador não fica estarrecido quando um dos irmãos vira assaltante ou a mãe gasta dinheiro no bar bebendo em razão das derrotas de seu time. O fracasso é justificado pelo contexto em que os personagens se inserem. No entanto, não há demagogia: se enxerga o filme como um documento que apenas aparenta ser distante, mas revela uma brutalidade na aceitação que temos ao observá-lo.

A maneira como esses detalhes são filmados é extremamente fiel aos personagens. Ou seja, nada foge à rotina, o que não significa uma falha, antes pelo contrário: há um sentido de documentário na narrativa, mas acompanhado por uma desesperança que só a mão artística do cinema consegue transpor para um plano mais completo, revitalizado. De certo modo, todos os personagens são retratos fiéis de uma realidade urbana cada vez mais opressora. Tal qualidade é, sem dúvida, comum no cinema brasileiro, a exemplo de outros filmes referenciais, como Cidade de Deus. Mas parece que em Linha de passe não há uma divisão mais clara entre o sonho e a realidade, pois mesmo no sonho é possível sentir a pancada mais forte e, conseqüentemente, a mais crua realidade.

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição